• CHRISTIAN JACQ


    MESTRE HIRÃO E O REI SALOMÃO

     

     

     

    Tradução de ROGÉRIA CRUZ E LUCÍLIA FILIPE

    BERTRAND EDITORA

    VENDA NOVA: 1999

     

     

    PRIMEIRA PARTE

     

    Resolvi tomara sabedoria por companheira da minha vida sabendo que será para mim boa conselheira, e consolação nos cuidados e nas penas.

    Graças a ela, receberei a glória das multidões, e, apesar da minha juventude, o respeito dos anciãos.

    Quem, mais do que a sabedoria, é artífice do universo?

     

    Livro da Sabedoria, 8, 9-10 e 8, 6

     

    A sabedoria alimenta os seus filhos e vela sobre os que a buscam. O que a ama, ama a vida, os que a procuram pela manhã ficam repletos de alegria. O que a possui herdará a glória.

     

    Eclesiastes, 4, 11-13

     

     

    Salomão passou uma mão afetuosa sobre a Arca da Aliança. Era o único dos filhos do rei David capaz de efetuar este gesto sem ser fulminado pela misteriosa energia que emanava do santuário que continha as Tábuas da Lei.

    A Arca ficaria, durante alguns dias, em Silo, no coração da Judéia, a província dos reis, onde Abraão venerara o verdadeiro deus, o único, que tinha mudado o destino da humanidade ao escolher Israel como terra de eleição. Silo fora a primeira capital de David, antes de ele se fixar em Jerusalém. O velho monarca exigia que a Arca viajasse periodicamente e assim lembrasse aos Hebreus que continuavam a ser nômades em busca do Senhor.

    Salomão fora encarregado de proteger o mais precioso dos tabernáculos. À cabeça de um esquadrão formado pelos melhores soldados, abandonara Jerusalém. Tendo parado na caverna de Macpela, onde repousavam os patriarcas, vagueou entre as vinhas, carregadas de cachos, e contemplou as culturas em socalcos que partiam à conquista das encostas secas e rochosas. Na Judeia nada limitava o olhar. O horizonte apresentava-se cor de fogo, habitado por um sol infatigável. Os passos do caminhante levantavam uma poeira vermelha que ia morrer no lodo de um baixio.

    Silo era o objetivo da expedição. A pequena cidade, construída em território pertencente à tribo de Efraim, orgulhava-se de ter acolhido a Arca quando da famosa batalha contra os Filisteus. O santuário de Jeová tinha sido levado até ao centro do combate, afirmou a presença divina e deu a vitória a Israel, no meio de grande alarido de brados de dor e de gritos de alegria.

    Aqueles gritos e urros obcecavam Salomão. A guerra, a violência, o sangue... Estaria o seu povo condenado àquelas calamidades? Iria Jeová ser para todo o sempre um deus vingativo, ávido de confrontos?

    O coração de Salomão, jovem príncipe de vinte anos de uma beleza fascinante, era torturado por estranhos pensamentos. Os adivinhos tinham anunciado, assim que nascera, que a sua fronte seria o abrigo da sabedoria, que nenhuma ruga sulcaria o seu rosto e que os seus traços não envelheceriam. Desde a adolescência, Salomão dera mostras de uma força serena e uma autoridade natural que subjugavam os seus interlocutores.

    Quem poderia imaginar a tempestade intensa em que se agitava em vão, como um barco privado de leme? Salomão deixou de conseguir dormir. Perdeu o gosto inato pelo estudo e pela poesia. Até mesmo a oração já não lhe trazia a mínima quietude.

    A terceira vigília daquela noite aproximava-se do fim. Depois da aparição das estrelas e da meia-noite, estava a chegar a última, que era a da aurora. Salomão tinha permanecido perto da Arca suplicando ao Senhor que concedesse a paz a Israel. Por que tremiam de medo os habitantes das aldeias, por que morriam tantos deles a golpes de espada, por que eram as suas casas pilhadas e incendiadas, por quê dar a morte a tudo quanto respirasse? Porque continuavam os clãs a matar-se uns aos outros, por que combatia Israel os vizinhos?

    Salomão repetiu mais de cem vezes estas perguntas.

    Mas Deus quedou-se mudo.

    No instante em que os primeiros raios de Sol atravessaram a bruma, o filho de David ousou pousar a mão sobre a Arca.

    Se Jeová não o tinha destruído, é porque tinha escutado a sua prece. Um dia, ou uma noite, a resposta chegaria.

    Salomão contemplou a Arca.

    O foco de energia onde Israel ia buscar a sua força era uma caixa em madeira de acácia com um côvado e meio de altura e dois côvados e meio de comprimento. Coberta de ouro puro, tanto por fora como por dentro, era protegida pelas asas dos Querubins, sobre os quais, invisível, se encontrava Jeová, o cavaleiro das nuvens. Usava estas últimas como se se tratasse dum carro, nele percorrendo o universo até ao jardim do Éden, cujas portas se encontravam guardadas por leões com cabeças humanas encarnando a valentia que nenhuma fraqueza poderia jamais corromper.

    Salomão sentiu-se tentado a abrir o relicário e dele retirar as duas placas de pedra sobre as quais estavam gravados os dez mandamentos divinos que constituíam o pacto do Sinai através do qual Israel se tornara fiel servidor de Jeová. Mas esse privilégio estava reservado ao rei. Só David tinha capacidade para ler a mensagem original, contemplando a palavra do Senhor celeste.

    Salomão estendeu sobre a Arca um pano precioso tecido com pêlos de cabra e a seguir protegeu as barras de acácia cobertas de ouro com duas peles de carneiro tingidas de vermelho. O santuário ficava assim invisível aos olhos dos carregadores.

    O filho de David saiu da tenda que servia de abrigo à Arca. A luz do dia já invadira a planície verdejante que se estendia aos pés da colina. No cimo desta tinham estabelecido o acampamento. Salomão teve a impressão de que o mundo lhe pertencia. Afastando tão louco pensamento, levantou os olhos em direcção ao Sol nascente e deixou-se encantar, imaginando que desaparecia num feixe de luz.

    Iriam os Hebreus ser sempre errantes? Para além das culturas ficava o deserto. Esse deserto que separava Israel da civilização mais odiada, o Egipto, que Salomão admirava em segredo desde a infância. Não eram os ensinamentos dos sábios egípcios os mais sutis e profundos? Não era o Egipto o único grande país a desfrutar as delícias da paz e da riqueza? O filho de David soubera calar a sua inclinação pelo império dos faraós, não partilhara esse segredo com ninguém e muito menos com o pai, que poderia bani-lo. Tal como ele, também Salomão era um homem do deserto e dos espaços infinitos, em busca do absoluto. Sabia que Deus só se revelava verdadeiramente no silêncio e na solidão. Ainda assim, Salomão não conseguia admitir que Israel se embrenhasse em recordações estéreis. Para instaurar uma paz duradoura, os Hebreus necessitavam de um Estado poderoso e de uma capital tão brilhante como a Tebas do Egipto.

     

    Nota: Na época de Salomão, o termo judeu não existia. Falava-se de israelitas ou de hebreus.

     

    Tudo isto não passava de imaginação infecunda.

    De braços cruzados, com o olhar fixo numa pequena aldeia que despertava, o filho de David julgou ouvir um grito de dor. Estaria a ser vítima de um desses pesadelos com que o importunavam os demónios da noite?

    Vozes de homens. Os ruídos dum combate.

    Salomão avançou até ao extremo do tabuleiro rochoso. Numa plataforma, uma dezena de metros mais abaixo, dois soldados da sua guarda pessoal, empunhando paus, lutavam com uma incrível violência. Banhados em suor apesar da frescura matinal e vestidos com uma simples tanga, lutavam para matar. Os seus colegas assistiam à cena com entusiasmo, encorajando os dois campeões.

    Estes acrescentavam o insulto ao ataque físico, contando diminuir assim a resistência do outro. ”Darei a tua carne aos pássaros do céu e aos animais do campo!”, gritou o mais pequeno dos lutadores, que tinha as pernas curtas e o dorso largo. O seu pau elevou-se muito, desenhou uma curva estranha e foi-se abater sobre o crânio do soldado que o desafiara e obrigara a responder pelas armas. O golpe foi decisivo. O vencido caiu com a cara inundada de sangue.

    O drama desenrolara-se tão depressa que Salomão não tivera tempo para intervir. O vencedor gritou de alegria e atirou o pau para cima do cadáver do vencido.

    - Este cão há-de apodrecer no meio de outras carcaças! - Exigiu.

    - As aves de rapina e os roedores serão seus coveiros. Espero que os seus ossos se transformem em imundícies que os ventos dispersem!

    De repente, um dos soldados vislumbrou Salomão. Bateu no ombro do vizinho, que advertiu os colegas. Em poucos segundos, fez-se silêncio.

    - Que esse homem venha até mim - ordenou o filho de David, designando o triste herói.

    Este último lançou um olhar muito aflito à sua volta. Ninguém foi em seu socorro. Obedeceu então, atravessando em passo hesitante o caminho abrupto que conduzia ao cimo da colina. Inquietava-o mais enfrentar Salomão do que lutar até à morte com um colosso. Conhecia a aversão que o filho de David sentia pela violência.

    - Senhor - disse, pondo um joelho em terra - não traí a Lei. Desafiaram-me e eu respondi segundo o uso.

    Salomão sabia muito bem que os Hebreus gostavam de combates e duelos. A assistência era numerosa. O feito de David ao abater Golias tinha tornado popular o uso da funda. Muitos jovens morriam todos os anos com a cabeça despedaçada por um projétil.

    - Mas para quê matar o teu adversário? - perguntou Salomão. A pergunta surpreendeu o soldado.

    - Não tinha outra alternativa, senhor. Não combateu o anjo com Jacob antes de lhe dar o nome de Israel? Somos guerreiros. Num combate, tem de se ir até ao fim!

    O vencedor estava exaltado. Não sentia o mínimo remorso. Noutro dia, em circunstâncias idênticas, agiria do mesmo modo. Se Salomão o castigasse, provocaria o descontentamento indignado dos soldados da sua guarda.

    - Vai-te embora - ordenou.

    O assassino partiu, sorridente. Contava festejar a sua vitória com os camaradas e não se esqueceria de agradecer a Jeová por ter dado força ao seu braço.

    Salomão, depois de ter pedido ao chefe da sua guarda que se dirigisse para junto da Arca com um esquadrão, desceu até ao sopé da colina. Sentou-se em cima dum rochedo e escondeu a cabeça entre as mãos.

    A paz não passava de um sonho. De uma miragem em que desejava acreditar para encontrar uma razão de viver. Tinha de encarar a realidade. Não passaria nunca de um príncipe elegante, a arrastar o seu tédio pelo palácio real e a compor poemas que os cortesãos tinham de apreciar.

    O som cristalino de uma sineta espalhou-se pelo ar matinal. Salomão estremeceu.

    David tinha proibido que se utilizasse aquele instrumento desde que a sineta que lhe fora oferecida pelos anjos silenciara. Quando o rei presidia ao tribunal, ela tilintava em presença do inocente e mantinha-se silenciosa quando o culpado desaparecia. Além disso, a justiça, emanando do próprio Deus, reinava como senhora absoluta sobre Israel.

    Mas David pecara e a sineta calara-se, obrigando o soberano a pronunciar os seus próprios julgamentos, correndo o risco de se enganar.

    David já não presidia ao tribunal. O velho soberano esperava com desespero que a sineta voltasse a manifestar-se. A sineta de David... Seria ela que Salomão ouvia? Levantou-se e caminhou em direcção a uma gruta de onde parecia provir o tilintar. Avançou através de um mundo obscuro e úmido. O som aumentava.

    Transformou-se depois numa voz potente, muito grave, demasiado grave para ser humana. Uma profunda serenidade invadiu o coração do filho de David. Soube que a invisível presença era a de Deus.

    Salomão escutou, com todo o seu ser. Ajoelhando-se, pronunciou uma prece: ”A ti, que és o poder entre os poderosos, não peço fortuna nem vida longa. Mas concede-me a inteligência necessária para encontrar o caminho da paz e saber discernir o bem do mal.”

    A gruta encheu-se de uma intensa luz, que obrigou Salomão a fechar os olhos. A voz grave, que apenas emitira vibrações, extinguiu-se pouco a pouco.

    Quando o filho de David saiu da gruta, o Sol já atingira os cimos do céu. Os soldados da guarda vociferavam e corriam em todas as direções. O chefe precipitou-se ao encontro do seu amo.

    - Senhor! Procuramo-vos por toda a parte. Chegou um mensageiro de Jerusalém. Deveis voltar de imediato. Vosso pai está a morrer.

    Jerusalém elevava-se por cima da colina de Sião. A cidade parecia uma fortaleza inexpugnável devido a muralhas e a portas fortificadas. No entanto, David apoderara-se dela e lançara-se ao assalto dos altos muros depois de ter organizado o cerco. O rei alcançara então a sua mais bela vitória, dando a Israel uma nova capital.

     

    Rodeada por austeros vales, em três direcções, e também por ravinas com encostas abruptas onde ribeiras, cheias da água das tempestades, abriam veias sinuosas, a praça-forte encontrava-se protegida pela sobrelevacção. David não julgara necessário acrescentar muitas mais fortificações, excepto no espigão norte. Sobre o promontório de Ofel, com a altura de cerca de setecentos metros, erguia-se a Sião de David.

    Salomão penetrou em Jerusalém por uma das portas fortificadas guardadas em permanência por soldados armados. A capital de Israel causava-lhe mais angústia do que alegria. Porque tomava um aspecto tão rebarbativo, dissimulando os seus encantos sob aquele rosto fechado e agressivo? Os palácios dos ricos, que formavam a cidade alta, ofereciam àquele universo inquieto uma nota de alegria demasiado discreta.

    De costume tão animada e barulhenta, Jerusalém estava sob uma couraça de silêncio. De pé, num carro puxado por dois cavalos, Salomão respondeu à saudação do responsável do posto da guarda instalado por cima do acesso principal. Neste sítio, a muralha tinha uma espessura tripla. Ao contrário do que era hábito, os soldados não deixavam entrar os rebanhos que se dirigiam às quintas situadas nos bairros da parte baixa.

    Salomão, nervoso, subiu logo até ao palácio de seu pai, apressando os cavalos. Ruas e ruelas encontravam-se desertas. Os habitantes tinham fechado os batentes de madeira sobre as estreitas aberturas que deixavam penetrar a luz nos seus lares. A notícia tinha-se espalhado depressa por todos os bairros, semeando o desespero. Com o desaparecimento de David, iniciar-se-ia um período de tumultos durante o qual os ambiciosos se bateriam para conquistar o poder. O povo sofreria as consequências de sangrentos confrontos. As mães pensavam já em esconder os filhos. Muitos homens tinham a intenção de se refugiar no campo, temendo a invasão de hordas selvagens desejosas de impor o seu favorito pela força da espada.

    O palácio do rei não passava de uma casa mais vasta e mais sólida do que as outras. Construída em calcário, possuía paredes espessas que saíam da rocha, o melhor dos alicerces. Nem as tempestades nem as chuvas levariam consigo a residência do soberano, que o filho desejaria mais rica e mais sumptuosa. A argamassa da argila utilizada para ligar as pedras era tão grosseira como o próprio edifício. Nenhum arquiteto de gênio, em Israel, seria capaz de erigir um imenso palácio que rivalizasse em beleza com o do faraó.

    David só cedera a um luxo: chão de seixos nas salas principais e um magnífico soalho de cedro no seu quarto. Os pobres contentavam-se com terra batida. Para expiar os seus pecados, o monarca teria preferido imitá-los, mas a sua esposa, Betsabé, opusera-se.

    O local desagradava a Salomão. Achava-o glacial e inóspito. No momento em que decidira confiar ao pai a sua opinião a esse respeito, esperando convencê-lo a mandar construir finalmente uma residência digna dele, o futuro obscurecia-se de súbito. Então David não era imortal, ele que alegrou o coração de Deus com os seus cânticos?

    Salomão nunca pensara no desaparecimento do pai. David encarnava a autoridade suprema. No entanto, não estava isento de críticas. Não conseguira restabelecer a paz nem fazer de Israel uma nação coerente e poderosa ao ponto de manter os seus inimigos à distância. Obcecado pelas faltas cometidas no passado, fechara-se no seu sofrimento, passando a pensar mais em si próprio do que no seu povo Mas, perante o amor de um filho pelo seu pai, estas críticas contavam muito pouco. Salomão teria dado a sua vida pela de David. Nunca discutira uma ordem do rei, nem que estivesse em desacordo com o que lhe era pedido.

    Foi Natão, o preceptor de Salomão, quem o recebeu à entrada dos aposentos reais. Natão tinha sido, bem mais do que David, o mestre espiritual do jovem. Crendo que o seu discípulo era amado pelo Senhor e que a sabedoria o tinha marcado com o seu selo, consagrara-lhe o essencial do seu tempo, iniciando-o no conhecimento dos textos sagrados e na prática das ciências secretas.

     

    Salomão aprendia depressa. Quanto mais descobria, mais tinha vontade de descobrir. As frivolidades da existência não lhe interessavam. Trabalhar sob a direcção do seu preceptor parecia-lhe ser a mais invejável das existências.

    Natão, ancião de grande estatura e barba branca, vestia uma longa beca branca de decote quadrado. Não usava jóia alguma nem marca distintiva da sua alta função na corte. A imponência da sua figura testemunhava por si só a sua posição. O seu comportamento era de uma serenidade perfeita e o rosto não costumava revelar-lhe as emoções.

    Desta vez, no entanto, mostrava sinais de fadiga. Ao sorriso fino do preceptor seguro de si, sucedera uma expressão de grave inquietação.

    O meu pai... Como está?

    Não podia estar pior. Foi por isso que vos mandei chamar.

    A Arca está de regresso a Jerusalém. A sua presença salvá-lo-á.

    Deus vos ouça.

    Por um instante, a voz da gruta apoderou-se da cabeça de Salomão. Foi suficientemente senhor de si para não deixar transparecer nada.

    Posso vê-lo?

    A vossa mãe espera-vos respondeu Natão.

    O preceptor introduziu Salomão numa pequena sala de paredes nuas. Betsabé estava sentada numa cadeira baixa. Tinha os olhos fechados e parecia dormir. Assim que o filho entrou, levantou-se e tomou-o nos braços.

    Salomão, até que enfim.

    Não pude vir mais depressa, mãe.

    Não estou a censurar. Tinha tanto medo...

    Por quê?

    - O mal espreita, meu filho. Israel está em perigo. David ainda não morreu e já há quem se proclame rei!

    Aquela a quem o povo chamava ”a grande senhora” conservava, apesar de ter ultrapassado os sessenta anos, uma nobreza excepcional. Magra e esbelta, com o rosto de traços tão finos que seduziram David ao ponto de irritar Jeová, reinava sobre uma corte que o esposo negligenciara.

    - Que esperais de mim, minha mãe? Sabeis bem que vos protegerei contra qualquer agressor, mesmo que ele seja pretendente ao trono.

    Betsabé afastou-se do filho. Escondia mal o desespero.

    - Amo David e David ama-me... Como poderia eu...

    - A altura não é para sentimentos - declarou Natão. - O rei está a morrer. Se não agirdes o mais depressa possível, será Israel a perder a vida.

    Retendo as lágrimas, Betsabé saiu da pequena sala e dirigiu-se ao quarto onde o esposo agonizava.

    Salomão tentava em vão compreender o sentido daqueles estranhos acontecimentos.

    - Que se passa, Natão?

    O preceptor pôs uma expressão severa.

    - Chegou a hora de vos revelar o segredo que desde há muito partilho com vossa mãe. É um segredo ligado ao futuro do país.

    Salomão sentiu um frio atroz penetrar-lhe nos ossos. Era tão vivo que quase lhe arrancou um grito de dor.

    - Em que é que me diz respeito?

    - Só a vós diz respeito, Salomão. David prometeu à esposa que vos escolheria como sucessor.

    - A mim?

    Salomão ficou sem voz. Tornar-se soberano de Israel, sentar-se no trono de David, receber o encargo de conduzir o povo de Deus através do caminho da Sabedoria... Jamais seria capaz.

    - Quem imaginou tal loucura?

    - Aquele que vos conhece melhor: o vosso preceptor. Desde a mais tenra idade que descortinei em vós a grandeza dos reis. Confiei-me a vossa mãe. Ela chegara à mesma conclusão.

    - E meu pai...

    - David reconheceu a pertinência das nossas opiniões. Deu a sua palavra. Hoje torná-la-á oficial. Segui-me.

    Salomão não protestou. Prostrado pela notícia, deixou-se guiar pelo preceptor.

    Os dois homens penetraram no quarto do monarca.

    David, de olhos fixos na chama duma tocha, tinha o corpo coberto com uma estola de lã. O soalho de cedro rangeu sob os passos de Salomão, que se instalou ao lado da mãe, à cabeceira da cama.

    O rosto do moribundo estava lavado pelo sofrimento. O encanto da fisionomia tinha desaparecido. Apenas restava o peso de setenta anos de amor, oração e combate.

    - Rei de Israel - disse Betsabé com voz trémula - juraste à tua serva que meu filho Salomão reinaria depois de ti e ocuparia o teu trono. Israel tem os olhos fixos em ti e espera que dês a conhecer o nome do teu sucessor.

    - Natão que saia do meu quarto - ordenou David, sem mexer a cabeça.

    O preceptor obedeceu.

    O velho soberano endireitou-se como se tivesse reencontrado por milagre o seu vigor passado. Contemplou a esposa.

    - Pela vida de Deus, que me livrou de todas as aflições, respeitarei a minha jura. Aproxima-te, meu filho, e dá-me a tua mão.

    Salomão obedeceu, estupefacto com a firmeza do tom. Ficou persuadido de que David venceria a doença e que viveria ainda largos anos à frente do seu povo.

    O filho colocou a sua mão direita na do pai, que a apertou com força.

    - Salomão, transmito-te a soberania que Deus me confiou e de que me mostrei indigno. A morte é a corda cortada pela Sua mão, a estaca arrancada, a tenda que o vento do deserto leva. A minha alma está pronta a atravessar o céu para comparecer diante do meu juiz. Guerreei e venci. Esteja essa época finda. Tu que tens o nome de Salomão, ”que a paz esteja com ele”, obtém-na nesta terra. Faz dela o elo entre Israel e o céu. A minha coroa está manchada de sangue. Jazem cabeças aos pés do meu trono. Foi por isso que não pude construir a casa do Senhor. Cumpre tu essa tarefa, meu filho. Procura sem cessar a sabedoria, a que foi criada antes das origens, antes de terem nascido o mar, os rios e as fontes, antes de as montanhas se terem erguido, antes de as noites se diferenciarem dos dias, antes de a luz sair do caos e de os céus se terem estabelecido com firmeza. É pela sabedoria que Deus mede o universo e foi com ela que fundou a Terra, foi graças a ela que Ele traçou os caminhos que os astros percorrem. Sem ela, não construirás nada.

    A mão de David tremeu. Os olhos revolveram-se-lhe. Salomão ajudou-o a deitar-se. A morte lançava nova investida.

    - Betsabé - pediu o rei num sopro - convoca de imediato o Conselho da Coroa... Quero falar aos seus membros. O meu filho fica comigo.

    A esposa de David não tardou a reunir os três dignitários que compunham o Conselho: Natão, o preceptor, Sadoc, o sumo-sacerdote e Banaías, o chefe do exército. Este último era um colosso cuja musculatura impressionante contrastava com a magreza do grande padre. Todos sabiam que Banaías se tinha tornado no homem mais poderoso de Israel. Sem o seu acordo, o futuro rei não seria senão uma marioneta desarmada. O chefe do exército pouco falava. Tinha servido David com a mais absoluta fidelidade, mas ninguém conhecia o seu pensamento no que tocava à sucessão.

    David pediu a Salomão que lhe voltasse a endireitar o busto, apesar da intensa dor que sentia naquela posição. Desejava exprimir-se como um monarca e não como um moribundo.

    - A vós que formais o meu Conselho - anunciou com uma energia quase agressiva - vou revelar a minha última decisão: Salomão é o novo rei de Israel. Aquele que ousar atribuir-se tal título e não lhe preste juramento de vassalagem deverá ser morto.

    Sadoc foi o primeiro a inclinar a cabeça. Depois foi a vez de Natão. Banaías, vestido com uma couraça prateada, parecia refletir. Betsabé sentiu a garganta secar-se-lhe. Se o chefe do exército tivesse escolhido outro pretendente, a sua espada atravessaria em breve o coração dos próximos de David.

     

    - A vontade do rei é a vontade de Deus - disse Banaías com voz rouca. - Que Salomão mande e eu obedecerei.

    David sorriu. O seu rosto recuperou de súbito o encanto a que ninguém conseguia resistir. O encantador afastava a máscara horrenda que o esperava.

    - Retirem-se... Tu, Salomão, fica.

    Assim que ficaram sós, o rei afastou secamente o filho. Espantado com aquela mudança de atitude, Salomão viu no olhar do pai uma chama ardente, quase juvenil, por onde passava o anjo da loucura.

    - Consagro-te os meus últimos instantes, meu filho... Promete que me obedecerás.

    - Sou o teu servo...

    - Não, Salomão! Agora, és tu o rei. O teu único senhor é Deus. Mas eu, teu pai, tenho um pedido a fazer-te.

    O filho de David ajoelhou-se e apertou entre as suas as mãos do moribundo, cujo fôlego se tornava cada vez mais curto.

    - Fala, e eu executarei.

    - Que Deus te pague, Salomão... Podes oferecer-me a paz de que necessito... Sabes que Joab, esse traidor infame, matou seres que me eram queridos e entre eles um dos meus sobrinhos. Vinga-me, Salomão! Aplica a Lei: olho por olho, dente por dente, vida por vida. Suprime esse assassino. Na tua qualidade de rei és o juiz supremo. Agirás consoante aquilo que julgares sensato... Mas por amor de mim, por amor à tua função, não deixes os cabelos brancos de Joab descerem em paz a morada dos mortos.

    A voz de David extinguiu-se. O seu busto inclinou-se. Deus acabava de se apoderar de novo da alma do poeta da voz de mel.

    À volta da cisterna, os espectadores berravam. Encorajavam o seu campeão, o homem mais

    corajoso de Israel, Banaías. No fundo da cuba vazia, escorregando por cima de um charco oleoso, enfrentava um leão capturado nas montanhas. Durante o período de luto que fora da morte de David até à coroação de Salomão, o chefe do exército julgara boa ideia distrair o povo provando-lhe que a sua segurança estava a cargo de um bravo mais forte do que uma fera. Banaías tinha fé na sua força desde que vencera um gigante egípcio, arrancando-lhe a lança com que este o ameaçava e esmagando-lhe o crânio à paulada. Com as mãos em sangue, o israelita não sentira nenhuma dor. A embriaguez da vitória tornava-o invulnerável.

    Incapaz de encontrar uma base para se apoiar, o leão, furioso, lançou um ataque intempestivo. Banaías, habituado a treinar naquela superfície, evitou as garras e apoderou-se do animal por trás, encerrando-lhe a nuca no torno que eram as suas enormes mãos de dedos tão rígidos como a pedra. O grito da vitória confundiu-se com o estertor de agonia do animal.

    Banaías foi aclamado pela multidão. Quase não lhe restava tempo para se lavar e vestir, a fim de se dirigir ao palácio de Salomão, que o tinha convocado. Quando passou na rua que conduzia à residência real, o colosso foi saudado por vários habitantes da cidade.

    Salomão recebeu Banaías num gabinete austero. Os dois homens ficaram de pé. O militar sentiu que o filho de David, vestido com uma túnica azul sem costura, deixara de ser apenas um príncipe elegante, apenas preocupado com a poesia. A gravidade da sua expressão, mesmo sendo um homem jovem, traía a intensidade das suas preocupações.

    - Estás decidido, Banaías, a servir-me como serviste o meu pai?

    - Pertenço a uma família de soldados, majestade. Nasci nos confins do deserto, que é onde se aprende a lutar e a defender a própria vida.

    Salomão observou demoradamente Banaías com os seus olhos de um azul profundo. Este último sentiu-se subjugado.

    - Nomeio-te chefe supremo do meu exército - declarou o filho de David - assim como chefe da minha guarda pessoal. Ver-nos-emos com frequência. Não te afastes nunca da corte. Posso ter necessidade de ti a qualquer momento.

    Banaías sentiu inundá-lo um imenso orgulho. É certo que David já tinha reconhecido o seu valor, mas Salomão fazia bem mais.

    - Pelo santo nome de Jeová - jurou - comprometo-me a ser fiel ao meu amo tanto na alegria como na dor.

    Salomão escondeu o seu júbilo. Acabava de obter a primeira vitória do seu reinado Mas como sentir uma verdadeira felicidade, se a atroz exigência do defundo pai o obcecava?

    - Tenho de te pedir conselho, Banaías.

    O novo chefe do exército quase resmungou.

    - Apenas sei lutar, senhor, aconselhar um rei nunca.

    Salomão puxou Banaías pelo braço e levou-o para fora do gabinete. Atravessaram um corredor e avançaram para um terraço que dava sobre as casas dos ricos. As paredes brancas brilhavam ao sol. Naquele fim de tarde, a cidade continuava inquieta. Iria ter em breve um soberano capaz de governar?

    - Quais são os crimes que Deus condena, Banaías? Revoltar-se contra ele, ser idólatra, proferir blasfêmias, não celebrar a Páscoa, não respeitar o sabbat, não circuncisar um filho, entregar-se à magia negra, etc... Mas executar as ordens do rei, será crime?

    - Decerto que não! - protestou o chefe do exército

    - Pois se assim pensas, Banaías, procura Joab, o inimigo de David.

    - E quando o tiver encontrado...

    - Que o teu braço aplique a minha sentença: a morte.

    - Antes de nascer o Sol de amanhã, senhor, já estarás satisfeito comigo.

    Depois de Banaías ter partido, Salomão teve vontade de gritar a sua infelicidade. Não pôde escolher. Como poderia recusar-se a cumprir a última vontade de David?

    O futuro rei de Israel jantou em companhia da mãe, mas não tocou em nenhuma das iguarias. Mandou embora os músicos e ordenou que reinasse no palácio o maior silêncio.

    Porquê tantos tormentos, meu filho! Deus quis que sucedesses a David. Toda a revolta é inútil. Respeita o seu desejo e conhecerás dias serenos. Permite... Permite que te apresente um pedido.

    Salomão saiu do seu torpor. A mãe adotava a atitude de uma serva para com o seu amo. Já não o considerava seu filho, mas sim seu rei. Um mundo desabava. Um universo revelava-se. Restava-lhe descobrir quais as suas leis

    Fale, minha mãe.

    Adonias, um cortesão, pediu para esposa uma concubina de David e implora o teu consentimento.

    Salomão, pálido, levantou-se.

    Com um gesto brusco entornou uma taça de vinho. Betsabé nunca vira o filho num tal furor frio.

    Estais consciente, minha mãe, do significado dessa diligência? As concubinas de meu pai são hoje minhas! O que Adonias reclama é o trono!

    Salomão não se enganava. O pedido do cortesão escondia uma tentativa de golpe de Estado. Betsabé cometera um erro imperdoável.

    Quem se torna culpado de se proclamar rei em lugar do rei lembrou ela condena-se a si mesmo a desaparecer.

    Quando Banaías voltou ao palácio, Salomão contemplava a Estrela Polar. Com o olhar pousado no eixo do mundo, de onde pendia um fio invisível que ligava o céu à Terra, tentara esquecer as coisas humanas para se encher do campo de luzes celestes que se estendia até ao infinito.

    Banaías continuava na penumbra. Salomão não se voltou.

    Falhei, senhor murmurou ele na sua voz rouca.

    Ter-me-ás desobedecido?

    Quando Joab foi avisado da minha chegada, refugiou-se junto de um altar no campo. Como era um lugar santo, pôs-se assim fora do alcance da minha espada. Vai ser preciso esperar...

    - Ninguém pode levantar a mão contra quem procura refúgio perto do Senhor - reconheceu Salomão - a não ser que se trate de um criminoso. Não é, Banaías? Joab matou o sobrinho de David. Mandou assassinar os seus amigos. Crês que merece a tua indulgência? Crês que Deus aceitará protegê-lo?

     

    Quando Salomão levantou de novo os olhos para a Estrela Polar, o cavalo de Banaías atravessava já uma das portas fortificadas de Jerusalém.

    Respeitando o costume do luto, Salomão não se tinha lavado, nem barbeado e vestia roupas velhas.

    Enquanto um cortejo de carpideiras exprimia ruidosamente a sua dor, o filho de David aproximou-se do cadáver do pai, a repousar sobre uma grade de madeira no meio do pequeno terraço frente ao palácio. Os restos mortais de David tinham sido lavados com óleo aromático e perfumados com mirra e madeira de aloés.

    Uma túnica purpúrea cobria o cadáver. Do lado direito, a lira com que acompanhava o seu canto. Do lado esquerdo, a espada com que combatera. Na testa de David cintilava um diadema.

    Salomão beijou o pai na têmpora. Era o último beijo, o beijo do amor filial que sobreviveria para além da morte. E assim passou a alma do soberano de ontem para a do futuro rei.

    À cabeça do cortejo, ia Betsabé, seguida pelas carpideiras, que entoavam uma melopeia acompanhada por uma ária de flauta de lúgubres tonalidades. A viúva era o símbolo vivo de Eva, que, depois de ter introduzido a morte na espécie humana, devia mostrar-lhe o caminho do outro mundo.

    Quanto mais a procissão avançava, mais as mulheres se animavam, aspergindo a cabeça com pó e soltando gritos desesperados. Betsabé, cuja silhueta majestosa impressionava a multidão amontoada ao longo do percurso que conduzia ao túmulo, não tomou pela estrada habitual dos funerais, que ia até ao vale de Josafá, e ficava a mais de cinquenta côvados da cidade, e dirigiu-se para a mais alta muralha da cidade fortificada.

    A meio da encosta tinham cavado um túmulo profundo de abóbada baixa e ao qual se acedia por uma rampa. No interior, a pedra tinha sido talhada de modo grosseiro. Salomão, Banaías e Sadoc, o sumo-sacerdote, içaram a grade. O filho de David penetrou sozinho no túmulo e meditou demoradamente perto do cadáver que repousava sobre um banco de calcário. Na testa, tinha um ramo de cheiros que evocavam o odor suave do Éden oferecido a David.

    Assim que Salomão abandonou a última morada do pai, Banaías obstruiu a abertura com um bloco que os pedreiros ajustaram para a dissimular. A memória dos séculos esqueceria, os ossos e as carnes decompor-se-iam, mas David manter-se-ia presente nas fortificações da sua capital, pronto a defendê-la contra as trevas.

    Durante a refeição que reuniu Salomão, Betsabé e os membros do Conselho da Coroa, o único alimento foi o pão do luto consagrado pelo sumo-sacerdote. Cada conviva pôde beber uma taça de vinho.

    Ao servir Salomão, Banaías inclinou-se para ele e murmurou-lhe ao ouvido:

    - Já está, senhor. O criminoso foi castigado.

    O chefe do exército tinha arrancado Joab do altar a que este se segurava a gritar e com os dedos ensanguentados. Depois, cortara-lhe a garganta. Depois, fora a casa de Adonias e infligira-lhe o mesmo castigo por alta traição e conluio contra o rei, obedecendo assim às ordens da viúva de David. Assim, o monarca defunto poderia descansar em paz.

    O vinho ritual queimou a garganta de Salomão.

    No dia seguinte, seria coroado.

    A mula, coberta de adereços cinzento-pérola, trotava em cadência pela estrada de Gião, onde ficava a principal fonte utilizada pelos habitantes de Jerusalém e onde fora construído o santuário da Arca.

    Sobre o seu dorso seguia Salomão, magnífico na sua túnica vermelha com fios de ouro, preparando-se para a cerimônia da coroação que instituiria aos olhos de Deus e do seu povo o novo rei de Israel.

    O trajeto foi depressa percorrido, sob um sol benevolente. Salomão comungava com o animal, através do ritmo do seu passo, esquecendo tudo para além do presente.

    Distante da Arca encontrava-se o sumo-sacerdote Sadoc, e Natão, o preceptor. Vestiam túnicas beges. Sadoc tivera de renunciar aos luxuosos hábitos da sua função, pois, neste dia sagrado, só o rei devia aparecer em toda a riqueza dos seus atributos.

    Salomão desceu da mula e acariciou-lhe o pescoço. Depois deu nove passos, e parou entre Sadoc e Natão, diante da Arca descoberta. Um cordão de soldados mantinha os cortesãos à distância. O que se ia passar em Gião só devia ser contemplado por Deus e pelos seus servos mais próximos.

    Sadoc e Natão elevaram por cima da cabeça de Salomão um corno cheio de óleo e derramaram devagar o seu conteúdo por cima do ocipúcio do soberano.

    - O espírito está a descer em ti - revelou o sumo-sacerdote. - Ele torna a tua pessoa sagrada. A graça divina inspirar-te-á a partir de agora o coração. O teu passado apagou-se. Tornas-te no Messias de Israel, no seu salvador e rei.

    Natão entregou a Salomão um ceptro de ouro e cingiu a sua testa com um diadema de ouro.

    Depois de ter saudado os dois querubins que guardam a Arca da Aliança, o sumo-sacerdote abriu-a. Tirou dela as Tábuas da Lei e elevou-as diante de Salomão que as viu pela primeira vez, tal como estavam gravadas pela mão de Deus.

    - Eterna é a Lei do Eterno! - Proclamou Sadoc

    Salomão, coroado e já com as pulseiras de David, instalou-se no trono. Leu o decreto de Jeová que o reconhecia como monarca e concluiu com ele um pacto de aliança que só a morte ou a indignidade poderiam destruir.

    As portas da sala foram abertas.

    As trombetas soaram. O povo reunido no sopé da colina gritou em coro: ”Viva o rei Salomão!”, feliz por ter escapado a uma guerra civil. A festa dissiparia as últimas angústias.

    Salomão começava a habituar-se ao trono de marfim e ouro e ao seu espaldar encimado por cabeças de touro. Dois corpos de leão faziam as vezes de braços. O rei adoptara com espontaneidade a atitude que lhe permitia ocupar o ilustre assento com dignidade.

    Dignitários e cortesãos prestaram homenagem a Salomão, enquanto o vinho corria em cascata nas ruas de Jerusalém. Todos repararam na imponência surpreendente de um homem tão novo e que nenhum receio de reinar parecia preocupar.

    Duas condenações à morte, uma pronunciada pelo pai, outra pela mãe. Duas execuções levadas a cabo antes de o reinado de Salomão começar. O ritual da coroação apagara o seu passado. Mas como afastar da memória esses actos? Não lhe iriam roer, dia após dia, a consciência?

    Salomão tinha-se instalado no palácio de que não gostava. Brotavam sombras inquietantes das paredes. O filho de David não exprimira, até aquele momento, nenhuma crítica sobre o modo como Israel tinha sido governada. O silêncio era a sua lei. A função que Jeová lhe tinha confiado obrigava-o à lucidez, nem que fosse à custa de dilacerações de cuja gravidade só ele teria consciência.

    Quem tinha sido o famoso rei Saul? Um camponês que se alimentava do produto das suas terras, conduzia ele próprio os seus rebanhos, dormia de boa vontade ao relento e não considerava Israel senão como um campo fértil. O mundo exterior não lhe interessava. Os outros povos não passavam de pilhadores pensando em roubá-lo.

    Quem fora David, senão um pastor apaixonado pelas danças do campo e por jogos rústicos, um apaixonado insaciável que preservara o modo de existência tradicional dos Hebreus esquecendo que o Universo estava em transformação à sua volta? David, como os seus predecessores, considerara o seu país como uma ilhota emergindo de um mar hostil.

    Construir um palácio novo: eis a primeira tarefa de Salomão. O rei de Israel não podia residir numa morada tão modesta que quase o não diferenciava dos cortesãos ricos. Era necessário dar à monarquia o brilho que ela merecia. O chefe do Estado hebreu não deveria voltar a ser, comparado com um chefe de clã.

    Salomão sentou-se sobre os degraus da escada que conduzia à capela real, tão pobre e despojada que não devia agradar a Deus lá residir. Mas David obstinara-se na recusa de construir outro santuário. A Arca da Aliança beneficiava dum abrigo seguro, portanto, não havia razão para pensar em algo de maior.

    O rei evitou a sombra de uma sorveira, moita onde os génios maus gostavam de se abrigar. Devia pensar em organizar o seu governo, em chamar para perto de si homens responsáveis mas de vistas largas, ambiciosos para Israel e não para eles próprios. O que Salomão começava a conceber assustava-o. Teria audácia suficiente para concretizar os seus projetos? Não iria encontrar uma oposição de tal modo violenta que o poderia obrigar a renunciar?

    Uma mulher veio sentar-se ao seu lado.

    Era a mãe, Betsabé, que não trazia nenhum ornamento em sinal de luto.

    Evitaste a sombra má, meu filho. O teu reinado deverá decorrer em plena luz. Não esqueças que o ser humano mesmo teu vassalo, prefere as trevas.

    Sentar-vos-eis à minha direita, minha mãe. Vós, que sois a grande senhora de Israel, continuareis a exercer a vossa influência na corte.

    Não, meu filho. Era precisamente esse assunto que desejava abordar contigo sem demora. Contentar-me-ei com as honras. Não és rei para partilhares o teu poder. Serás, tu, e mais ninguém, quem tomará as decisões. Os meus conselhos só poderiam importunar-te. Cometi uma falta grave. Pertenço a uma época passada. Pertenço à era de David, que merece, no segredo do teu coração, o mais severo dos julgamentos. Salomão não protestou.

    - Até agora - continuou ela - creio ter entendido a realidade. Mas, sem a presença de David, necessito de repouso. Deixa que me retire na quietude do palácio.

    Salomão não quis obrigar Betsabé a pôr de parte uma decisão que esta tinha pesado longamente.

    Ela abriu a mão direita, que continha um anel de ouro, e pô-lo no auricular da mão esquerda do filho.

    - Uma maçã de ouro sobre uma cinzeladura de prata - disse Betsabé - eis as palavras de um sábio. Não será ela tão perfeita quanto este anel que pertenceu a David e, antes dele, ao nosso pai Adão? Conserva-o com cuidado, Salomão. Quando o fizeres dar voltas no dedo conhecerás a mensagem do vento para além do cimo das montanhas. O teu espírito sobrevoará os paraísos onde crescem inalteráveis searas e onde pérolas nascem nas parras. Falarás a linguagem dos pássaros, aperceber-te-ás das intenções dos seres e submeterás os espíritos. Os animais selvagens prostrar-se-ão a teus pés e lamberão as tuas sandálias. Este anel é o anel do poder. Servir-te-á enquanto obedeceres a Deus. O teu pensamento estender-se-á de um extremo ao outro da Terra e atingirá o céu. Mas, se abandonares o caminho da sabedoria, transformar-te-ás na mais miserável das criaturas. Assim o deseja o destino dos reis.

    Salomão observou com minúcia o estranho objecto. Caracterizava-se por um cunho em forma de estrela no interior do qual estavam gravadas as quatro letras que formam o nome secreto de Jeová. O filho de David teria desejado mais explicações por parte da mãe, mas esta já estava de pé, pronta a voltar para os seus aposentos.

    Natão encontrava-se a copiar para um papiro um texto muito antigo que tratava da saída dos Hebreus do Egipto e cujo original começava a desfazer-se em pó. Ver entrar Salomão na Biblioteca não o surpreendeu.

    - Esperava a vossa visita, majestade.

    - Porquê, Natão?

    - Porque o vosso reinado começou no momento exato da junção. Tendes grandes projectos e não percais tempo para os levardes a cabo.

    - Que projetos? - interrogou o rei, intrigado.

    Natão deslocou vários rolos de papiro que enchiam uma prateleira. Descobriu um enorme rubi que apresentou a Salomão.

    - Esta pedra preciosa foi-me confiada por David no dia que se seguiu à sua coroação. É o segredo dos reis. Segundo os primeiros profetas, foi o chefe dos anjos que a entregou a Moisés no cimo do monte Sinai. É a garantia da Aliança. A sua presença faz com que o sopro de cada ser vivo celebre o Eterno. O monarca que a possui reina sobre as criaturas do ar, da água e da terra. Quando deseja o apoio destas, basta-lhe elevar esta pedra em direção às nuvens e chamá-las. Desejais possuí-la, meu senhor?

    Salomão estendeu a mão e cerrou nela o rubi.

    - Não é sobre esta pedra celeste... que se deve erguer o templo de Deus?

    Natão pareceu ignorar a pergunta.

    - Falamos muitas vezes dela, preceptor. Gostaria de abandonar a capela e de construir um novo santuário. O meu pai rejeitava com violência esta ideia. Mas vós não a desaprováveis.

    - É verdade - reconheceu Natão.

    - Não é suficiente ter vários pequenos templos através do país...

    - Sem dúvida - aquiesceu o preceptor. Salomão ficou espantado: Natão sorria.

    - Eu possuía grande influência junto do vosso pai. Renuncio a exercê-la convosco. Fui eu quem impediu David de fazer uma grande obra em Jerusalém.

    - Por que razão?

    - Porque o edifício de David teria ruído, devido aos seus pecados.

    O rei não teve tempo para meditar nas palavras do preceptor. Mal abandonou a biblioteca de Natão, foi abordado por Banaías. O chefe do exército sentia a maior ansiedade.

    - Senhor... Os três filhos dum chefe de clã apelam para a vossa arbitragem! Ameaçam lançar umas tropas contra as outras se não lha concederdes.

    O perigo era real. Se Salomão falhasse a sua tentativa de reconciliação, haveria dezenas de mortos. Além disso, ver-se-ia obrigado a enviar os seus próprios soldados contra os rebeldes.

    - Convoca-os para o terraço. Aí proferirei o meu julgamento.

    Banaías estava assombrado. Um julgamento! David não teria ousado utilizar aquele procedimento. Teria tentado apaziguar os contendores e, em caso de fracasso, teria lançado contra eles um ataque expeditivo.

    Os cortesãos tinham-se juntado para assistir ao julgamento. Muitos contavam com o fracasso do rei, o que o condenaria a renunciar ao trono. Despertavam as ambições despeitadas.

    Salomão sentou-se num banco no centro do terraço, de frente para os três jovens, que traziam nos braços o cadáver dum velho de barba negra.

    - Que quereis? - perguntou o rei.

    - O que me é devido - respondeu o mais velho dos três irmãos.

    - O meu pai, no seu leito de morte, revelou que apenas um de nós era seu filho verdadeiro e que só a esse legava a totalidade dos seus bens. Mas faleceu antes de o designar. Sei que sou o seu filho. Estes dois impostores contestam os meus legítimos direitos.

    - Ninguém pode conhecer o segredo dos mortos - afirmou o mais novo. - Façamos partilhas.

    - Recuso a proposta - disse o terceiro. - A vontade do meu pai deve ser respeitada.

    - Entregai o cadáver do vosso pai a Banaías - ordenou Salomão.

    - Ele irá amarrá-lo a um pilar no fundo deste terraço e dará um arco e uma flecha a cada um de vós. O cadáver será o vosso alvo e o melhor atirador o herdeiro .

    Murmúrios agitaram a assistência. Os três queixosos viam-se obrigados a aceitar. O mais velho foi o mais rápido. Assim que Banaías se afastou, lançou a sua flecha. O projétil trespassou a mão do cadáver. O do meio, satisfeito por ver tiro tão medíocre, fez pontaria com toda a calma.

    A flecha foi fixar-se na testa do morto. Foi um tiro perfeito. O mais novo estendeu o arco, apontando para o coração. Furioso, atirou a arma ao chão.

    É indigno protestou. Não serei o assassino do meu pai, nem mesmo sendo ele já um cadáver. Prefiro ficar pobre.

    Quando se preparava para deixar o terraço a passos largos, Salomão interpelou-o.

    Fica e sê o digno herdeiro de um chefe de clã. Só tu podes ser o seu filho.

    Viva o rei Salomão gritou Banaías.

    De seguida ouviram-se mais de cem vozes em uníssono.

    O mordomo-real do palácio, que tinha a seu cargo a organização da vida da corte real, tinha os nervos à flor da pele. Era o quarto dia consecutivo em que se recusava a abrir as portas da morada do soberano aos cortesãos que vinham pedir uma audiência. Os protestos amplificavam-se, cada vez mais numerosos e acerbos, mas o mordomo-real, homem barrigudo e jovial, mantinha-se inflexível. Como trazia ao ombro a chave da porta principal e era o detentor do selo real, via todas as manhãs o monarca, que lhe indicava o nome das pessoas que aceitaria receber. O alto dignitário esperava à entrada durante as audiências. Os dias eram quase sempre longos e fastidiosos. Mas como aquela função suscitava muita inveja, o seu titular aceitava de bom grado os seus inconvenientes.

    Salomão alterara-lhe os hábitos, fechando-se no gabinete, onde o mordomo-real lhe ia levar as listas dos funcionários que constituíam a administração do país. Salomão estudava-as com extremo cuidado.

    Que podia prenunciar aquela atitude, senão profundas mudanças? Ao próprio mordomo-real do palácio já não restavam ilusões. O novo rei estava decidido a modificar a hierarquia. O arauto era da mesma opinião. Tratava-se de um antigo rendeiro, de pele tisnada, que devia a sua boa sorte a David e que tinha por missão comunicar ao rei o que se passava no país e organizar as cerimônias oficiais. Estava preocupado com o seu futuro. O mutismo de Salomão não era bom presságio.

    O Sol oferecia os seus últimos raios a Jerusalém. Salomão convocou o mordomo-real e o arauto. Pouco à vontade, os dois dignitários compareceram juntos perante o monarca, à volta do qual jaziam vários papiros desenrolados. O rosto do rei não denotava fadiga.

    - Os funcionários nomeados pelo meu pai - indicou Salomão continuarão no seu posto. A administração do palácio está correta. Acrescentar-lhe-ei doze prefeitos, que deverão abastecer a casa real um de cada vez. Fornecerão todos os dias a aveia e a palha dos cavalos e dos animais de carga. Trarão a farinha e conduzirão ao matadouro dez bois engordados, vinte outros de pasto e uma centena de carneiros. Os meus cozinheiros deverão preocupar-se com uma repartição equitativa das comidas. Tu, arauto, tornarás estas decisões públicas já amanhã de manhã.

    O dignitário, radiante, retirou-se. Conservava o lugar.

    O mordomo-real, inquieto, arriscou no entanto uma pergunta.

    - Senhor, quem recebereis amanhã?

    - Uma única pessoa: Eliap.

    - Receio que o vosso desejo...

    - Não se trata de um desejo mas de uma ordem. Eliap faz parte do pessoal deste palácio. Encontra-se ao serviço do rei de Israel.

    - É que... Eliap é de origem egípcia e...

    - Continua.

    - O vosso pai ignorava-o sem dúvida e contratou-o por ele falar diversas línguas.

    - O que é uma qualidade.

    - Sem dúvida, senhor, mas Eliap cometeu uma falta grave.

    - Qual?

    - Quando o pai dele morreu, pouco antes do falecimento de David, quis enterrá-lo de acordo com os ritos egípcios. Protestamos, claro, e...

    - Ameaçaram-no - acrescentou o rei.

    - Ele interpretou sem dúvida mal a nossa advertência.

    - Onde é que ele se encontra agora?

    - Eliap fugiu - revelou o mordomo-real.

    - Está escondido. Tu e o arauto ficam encarregados de o encontrar antes da aurora.

    - Majestade...

    O olhar de Salomão não dava azo a réplicas.

    Eliap foi introduzido no gabinete particular de Salomão. Foi um homem fatigado quem se ajoelhou diante do soberano. Por baixo dos andrajos que vestia, transparecia, no entanto, um orgulho que a adversidade não tocara. Calvo, rondando os cinquenta anos, alto, de olhos negros e penetrantes, Eliap não tremia diante do monarca que iria pronunciar a sua condenação.

    Será que Jerusalém reina, na verdade, sobre Israel? perguntou Salomão.

     

    A pergunta espantou Eliap, pois apelava para a sua competência de antigo secretário do palácio.

    Não, majestade. As províncias dispõem duma autonomia clara em relação à capital.

    Como são recolhidos os impostos?

    Ou em dinheiro ou em trabalhos efetuados nas obras do rei.

    Quantas existem?

    Muito poucas. Duas ou três na província, uma em Jerusalém, para a restauração de uma parte da muralha sul.

    Senta-te a esta escrivaninha.

    Com manifesta alegria, o egípcio readquiriu o seu cálamo, um rolo de papiro e um godé cheio de tinta negra. Adotou com facilidade a postura de um escriba, endireitando o busto e cruzando as pernas à frente do corpo.

    Passas a ser o meu secretário e o meu homem de confiança. Serás tu a escrever os decretos. Comecemos por aquele em que discriminarei as tuas atribuições. Terás de redigir a correspondência interna e exterior do palácio, receber e inscrever o produto das contribuições e dirigir a chancelaria.

    Eliap redigiu com mão segura e rápida.

    Qual é o teu deus? perguntou Salomão.

    O egípcio pousou o cálamo sobre a escrivaninha. Abria-se uma armadilha à sua frente. Não a evitou.

    Venero o deus Ápis. É esse o significado do meu nome: ”Ápis é o meu senhor”. Nele se encarna o deus supremo.

    Ao pronunciar estas palavras, Eliap condenava-se a si mesmo. Na terra do deus único, ciumento da sua supremacia, não tinha direito a expor tais crenças. Mas o egípcio não queria viver como um recluso nem negar o caminho do coração.

    - Qual é a natureza desse deus supremo? - inquiriu o rei.

    - Ele é a luz - respondeu o secretário. - O touro Ápis é o símbolo terrestre do seu poder. É por essa razão que o faraó traz uma cauda de touro presa à tanga.

    - O deus de Israel também é luz. Ouve o que te ensina a tua fé, Eliap, mas aprende a calar a tua língua. Pega outra vez no cálamo. Temos muito trabalho.

    O vale do Cédron era protegido dos ardores do sol por oliveiras e figueiras. Era um lugar cheio de paz e doçura. Os ruídos da capital desfaziam-se de encontro às encostas das colinas circundantes. No entanto, raros eram os que se aventuravam a visitar tal retiro, pois tinham ali construído um cemitério onde descansavam heróis famosos, como Absalão.

    O rei Salomão estava a rezar ao Senhor diante da campa de Natão.

    O preceptor morrera numa noite de lua cheia durante o sono. O seu rosto exprimia uma perfeita serenidade, a do servo que soubera não ser servil. Com o seu desaparecimento, morria a adolescência de Salomão. Não voltaria a ter nem um confidente nem um amigo com quem falar. Não teria mais ninguém com quem partilhar dúvidas e angústias. Natão tinha-o educado e formado no seu ofício de rei sem lhe inculcar a vaidade de pensar que presidiria um dia ao destino de Israel. Apagara-se por trás dos seus ensinamentos para deixar a consciência do seu aluno expandir-se. Consagrara a vida a fazer nascer Salomão longe dos rumores e das intrigas da corte.

    O rei cavara o túmulo do preceptor com as próprias mãos. Recusara a presença das carpideiras, para comungar, no silêncio perfumado do vale do Cédron, com a alma daquele que o guiara até ao seu verdadeiro ser.

    Salomão não sabia se se mostraria digno das esperanças de Natão. Já que estava só, abandonado pelos que lhe eram próximos e obrigado a reinar sem partilhas, tentaria construir o seu povo e o seu país à glória do Altíssimo.

    Jurou-o sobre o túmulo de Natão.

    Não tinha David proclamado: ”Criarei Jerusalém para meu regozijo e os seus habitantes para a minha alegria”? Não lhe dera o seu nome, ordenando aos seus fiéis que lá vivessem para alcançarem a salvação? Não se instalara naquela cidade para dela fazer um local santo e o centro da revelação? David residira nela porque se situava no limite dos reinos de Judá e de Israel, afirmando assim a sua vocação de conciliadora. No fim dos tempos, não iria Israel acolher os eleitos no interior das suas paredes cobertas de ouro e nas suas ruas pavimentadas com rubis?

    Esse destino admirável, ao qual Salomão queria dar corpo durante o seu reinado, corria o risco de ser contrariado por um acontecimento grave. A sala do trono acabava de ser invadida pelos ricos que vinham falar em nome das quinze mil almas que habitavam a capital.

    - A situação é desesperada, senhor - declarou o arauto, que fora assediado com mil queixas. - A cidade alta encontra-se sem água. A única nascente, a do Gião, foi poluída e não estará utilizável antes de um mês. Os bairros da cidade baixa serão em breve atingidos pela penúria. É de recear que se produzam tumultos.

    David confrontara-se com o mau aprovisionamento de água na capital, mas respondera com uma repressão muito dura às tentativas de levantamento.

    - Não enviarei soldados contra os habitantes de Jerusalém - disse Salomão. - Eles tem razão. Esta situação é intolerável.

    Sentado aos pés do trono, Eliap, o secretário egípcio que já tinha entrado oficialmente em funções, tomava nota das palavras trocadas durante aquela audiência excepcional.

    - Confio a Banaías uma missão pacífica - anunciou Salomão. Os homens empregados à tarefa nas obras da província formarão equipas de carregadores para trazer para Jerusalém a água das nascentes situadas a uma hora de caminho daqui. Assim que o Gião tiver recuperado a sua pureza, cavar-se-ão canalizações e a água será armazenada em reservatórios.

    O arauto, falando em nome dum velho notável, apresentou uma objeção.

    - Serão necessários vários meses, senhor, para concretizar os vossos projctos.

    - Um pouco menos de um ano, em virtude das fracas equipas de operários de que dispomos.

    - As cisternas estão vazias - lembrou o mordomo-real do palácio.

    - Que vai ser de nós nos próximos dias?

    - Hoje irá chover. Concedei a vossa confiança a Deus e ao seu rei. Salomão levantou-se. A audiência estava terminada.

    Jerusalém esperava, ansiosa.

    Um grande céu azul estendia a sua luz intensa por cima da cidade. Os antigos tinham conhecimento suficiente dos sinais da natureza para saberem que não choveria nos tempos mais próximos. Salomão fizera mal em comprometer-se e em desafiar o senhor das nuvens. O filho de David não passava de um presunçoso que teria de arrepender-se das suas pretensões.

    A meio do dia, Salomão subiu à parte mais elevada do palácio. Da mais alta torre de vigia, ocupada em permanência por um arqueiro, que ele mandou embora, aproximou-se do firmamento, que devia oferecer a água salvadora.

    - Tu, que reinas na luz - murmurou o rei - escuta a minha prece. Se os teus céus se fecharam e nos privaram de água, como poderá sobreviver o teu país? Concede-me uma graça. Não espalhes a infelicidade na tua cidade. Faz chover sobre a terra que deste em herança ao teu povo.

    Salomão fez rodar três vezes o sinal de ouro que trazia no auricular da mão esquerda. Chamou os espíritos do vento e ordenou-lhes que desencadeassem a aparição de uma tempestade.

    Quando a primeira nuvem negra, de ventre inchado como o de um elefante do país das maravilhas, surgiu das montanhas do Norte, Salomão agradeceu ao Senhor.

    O oleiro, alertado pelos aprendizes, saiu à pressa da sua casa de chão de terra abatida. Pôs uma tanga à volta dos rins e contemplou o incrível espectáculo. Salomão, o seu secretário Eliap, Banaías, o chefe do exército e um esquadrão de soldados acabavam de apear-se diante da sua oficina, situada no centro duma pequena aldeia da Judeia que nunca tivera a honra de ver um rei nela parar.

     

    A fama de Salomão atingira todas as províncias, desde que ele obtivera água em quantidades suficientes para encher as cisternas de Jerusalém. Mesmo se os sacerdotes exprimiam reservas e evocavam uma feliz coincidência, os mais humildes clamavam a sua crença numa nova era de prosperidade que transformaria Israel no paraíso com que Moisés sonhara.

    O rei deteve-se a olhar para o torno do oleiro. Não podia deixar de pensar no trabalho de Deus, ao criar a espécie humana socorrendo-se daquele mesmo instrumento, o mais perfeito de todos, para arrancar da argila as formas humanas, que a seguir moldara com as mãos e o espírito. No Egipto, era o deus-carneiro quem criava o mundo com o seu torno. Os Hebreus tinham conservado aquele simbolismo, pois os seus artesãos tinham aprendido o ofício na terra dos faraós. Salomão sonhava com o universo, que desejava tirar do caos. Não é ao oleiro que devemos objectos mais quotidianos e vasos refinados, as pequenas bilhas, as talhas para guardar sementes, as lamparinas e os brinquedos? Salomão imitaria o artesão. Daria ao seu povo a riqueza material que só duraria se decorresse da abundância espiritual. Era por isso que o rei tentava ultrapassar uma nova etapa ao reunir, longe dos seus feudos, os chefes das doze tribos de Israel: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Zabulâo, Issacar, Dan, Gad, Aser, Neftali, José e Benjamim. Estes homens, ricos e poderosos, grandes latifundiários, tinham-se esforçado por rivalizar em elegância para irem ao encontro do rei naquele lugar indigno da sua grandeza. Os seus cabeleireiros particulares, utilizando pentes de ouro ou de marfim, tinham-lhes penteado refinadamente as cabeleiras com caracóis flutuantes ou com longas mechas imbuídas de óleo em cascata sobre as costas. Os cintos, apertando na cintura as túnicas de cores vivas, estavam ornados com diamantes e com rubis. Ao lado dos chefes da tribo, Salomão parecia quase um homem do povo.

    Pediu-lhes que se sentassem sobre as esteiras que Banaías tinha estendido ao pé duma grande figueira cuja sombra não tocaria em ninguém. Os convidados, intrigados, interrogavam-se sobre a razão daquela estranha convocação. Salomão ofereceu-lhes um prato com pepinos, cebolas e alfaces. Alguns comeram com apetite, mas outros desconfiaram. Os reis tinham já utilizado com frequência a arma do veneno para se desembaraçarem dos seus adversários. E não se dizia que Salomão queria reinar como monarca absoluto?

    - Plantei vinhas - comunicou o monarca - criei jardins e pomares, construi tanques para regar as vossas plantações, dei-vos servos, manadas de bois e rebanhos de ovelhas. Beneficiam de um bem-estar nunca conhecido. Porque desconfiam de mim?

    - Enriqueceste-nos - reconheceu o chefe da tribo de Dan - mas não terá isso constituído uma armadilha para adormecer a nossa vigilância? Tu não és homem para dar presentes sem pedir nada em troca.

    - Falas verdade - admitiu Salomão. - Ninguém contesta os vossos direitos. Sem vocês, as províncias ficariam abandonadas. Mas não esqueçam que devem fidelidade ao rei.

    - Quem pensaria em se revoltar contra ti? - indignou-se o chefe da tribo de Levi. - Eu próprio combatê-lo-ei!

    Os seus pares, com mais ou menos entusiasmo, aprovaram com um aceno de cabeça.

    - Sei que posso contar com a vossa lealdade - afirmou Salomão - mas isso não me chega.

    Os chefes de clã entreolharam-se estupefactos.

    - Enquanto forem rivais, Israel continuará a ser um Estado fraco. A vossa única hipótese de conservar o que já adquiriram é o rei. De Jerusalém, farei uma verdadeira capital e do nosso povo, o mais poderoso e o mais glorioso. Necessito da vossa submissão absoluta. Continuarão a dirigir os vossos clãs, mas sereis vassalos obedientes. Se necessitar de soldados, enviar-mos-eis, fazendo prevalecer o interesse do país sobre o vosso. Se reclamar novos impostos, recolhê-los-eis para mim e deles guardareis uma parte. A cada desejo meu devereis responder com diligência. Não por mim, mas por Israel. Quero a vossa resposta aqui e agora.

     

    Salomão exprimira-se num tom caloroso e amigável, mas o vigor das suas palavras fora constante. Os chefes reuniram-se atrás da casa do oleiro, onde o rei se instalou enquanto esperava pela decisão deles.

    O artesão encontrava-se a decorar um jarro para vinho e, apesar da presença do monarca, continuou o seu trabalho.

    Que esperas tu do teu rei, oleiro?

    A felicidade dos meus filhos.

    De que depende ela?

    Da paz, senhor. É a mãe de todas as alegrias. A glória que nasce da guerra é a infelicidade dos humildes. Mas que rei se vai lembrar disso?

    Salomão não o esquecerá. A deliberação durou três horas.

    Foram três horas durante as quais o soberano se deixou ficar a ver rodar o torno do oleiro, cuja música o encantava. Esses momentos constituiriam recordações inesquecíveis ou os últimos sobressaltos do guia de Israel... A visão das mãos hábeis libertou o espírito do rei da angústia e das trevas. Sentiu-se flutuar, indiferente ao seu futuro.

    Foi o chefe da tribo de Dan que, em nome das outras onze famílias, apresentou o resultado das deliberações a Salomão.

    Fui o último a ser convencido confessou. Mas chegamos a unanimidade. Aceitamos.

    Por falta de uma visão larga disse Salomão o povo vive sem horizontes. Feliz o que entende o pensamento do seu rei, pois ele avista o longínquo.

    O chefe da tribo de Dan perscrutou a alma de Salomão. Nela não encontrou a vaidade de um tirano, mas antes a vontade de um rei.

     

    Salomão tinha unificado

    Israel. Jerusalém, o centro religioso de David, tornara-se na capital política de um reino de que o jovem soberano, ao qual se atribuíam poderes mágicos, era senhor absoluto. Os chefes das tribos congratulavam-se com a sua escolha. O espectro da guerra civil estando afastado, os conflitos internos terminados, só se pensava numa vida mais feliz, numa terra mais fértil ou numa oficina mais produtiva. Os ricos enriqueciam, os pobres tornavam-se menos pobres. E o sumo-sacerdote não parava de lembrar que Natão tinha visto a sabedoria inscrita na testa de Salomão.

    O rei trabalhava sem descanso. O palácio, tão sombrio e tão frio na era de David, parecia uma colmeia em perpétua actividade. Eliap não parava de registar decretos reais, que, pouco a pouco, iam modificando a administração, tornando-a mais eficaz. Em menos de dois anos de reinado, Salomão ficara a conhecer Israel na perfeição. Do topo do Estado ao mais minúsculo poder local, nada ignorava. O secretário particular dera provas da sua notável competência, tirando partido de arquivos bem organizados, onde tinha acumulado ao longo dos meses informações precisas.

    A primeira etapa da obra de Salomão estava prestes a terminar.

    Faltava-lhe abordar a segunda: construir, transformar os soldados em operários e as casernas em estaleiros. Convencer Banaías era indispensável. Israel conservaria uma força bem treinada, apta a defender a coroa, mas reduziria o esforço de guerra.

    Quando o chefe do exército foi convocado estavam já prontos vários decretos reais. A cara do colosso, de costume pouco expressiva, testemunhava uma profunda perturbação. Salomão soube de imediato que se tinha produzido um acontecimento grave. Banaías estava incapaz de falar. Deu ao rei uma placa de madeira preenchida com um texto redigido pelo governador de Damasco. Estava escrito em arameu. Salomão leu-o por duas vezes.

    - Que... que decidis, senhor?

    - Antes de mais, refletir. A seguir, tomaremos providências em conjunto.

    O chefe do exército retirou-se.

    Eliap julgou necessário quebrar o monólogo interior do rei.

    - Alguma tribo que decidiu cometer um ato belicoso, majestade?

    - É desastroso, Eliap. Um general arameu, um verdadeiro satã, atacou o pequeno burgo de Damasco. Dizimou a nossa guarnição que ocupava o oásis para vigiar as estradas vindas da Fenícia e da Palestina e recusa-se a submeter-se à minha autoridade. Esse insurrecto proclamou a independência do reino de Damasco!

    O secretário compreendia a decepção de Salomão. Aquele golpe arruinava os seus projectos. David, esse, não tinha perdido Damasco.

    - Então é a guerra, majestade.

    - Não, Eliap. Recuso-me a isso. Se tentar recuperar Damasco, será necessário lutar contra os aliados do arameu e o círculo infernal recomeçará...

    - Então, será a vergonha. Reprovarão a vossa fraqueza e a vossa obra ruirá.

    - Um dia... preciso dum dia. Traz-me um mapa com os pormenores da região.

    Onde se esconderia a sabedoria? Não estaria dissimulada num abismo tão profundo que seria necessário descer até lá por uma corda de luz entrançada pelos anjos, mais comprida do que o tempo? Seria necessário encerrar-se numa gaiola de claridade e mergulhar no abismo insondável de que ainda não se tinha atingido o fundo ao fim de doze vezes trinta dias e doze vezes trinta noites? Somente Deus tinha percorrido o caminho da sabedoria e a sabia situar.

    Estudar o mapa de Israel constituiu para Salomão uma aprendizagem inesperada. O que imaginara não passava de uma utopia pretensiosa. Diminuir o exército de David teria posto o país em perigo. A tomada de Damasco era uma advertência divina que obrigava o rei a voltar ao bom caminho.

    Salomão convocou Banaías e Eliap. Um conselho de guerra restrito seria suficiente.

    - Damasco está perdida - comunicou. - Não passa de um oásis sem valor. Tal revés será depressa esquecido, até porque os territórios que controlamos já são muito mais importantes do que os do tempo do meu pai. Esse maldito arameu perturbará o meu sono durante muito tempo, mas, no entanto esclareceu-me em relação a uma urgência inadiável: reforçar o nosso dispositivo de defesa. Começaremos por fortificar Palmiro e a seguir reorganizaremos o exército. Assim que este tiver número suficiente, impressionará o inimigo e não voltará a ter de se servir das armas.

    Banaías não compreendia o discurso do seu rei. Por que razão eram os soldados privados de combater? No entanto, tinha toda a confiança no discernimento de Salomão.

    Diante da liteira de Salomão, que repousava sob um caramanchão, passaram carneiros de cauda rechonchuda, de mais de dez quilos. A meio do Outono, os campos de Jerusalém eram uma doçura para o olhar. O calor do meio-dia era bem-vindo após a frescura matinal. Ao fim de várias semanas de trabalho, o rei desfrutava, por fim, algumas horas de repouso longe do palácio.

    Temos um grande rei”, afirmavam os Hebreus, cada vez mais alto e com mais força. Mas Salomão tinha consciência de reinar sobre um pequeno país que não era nada face ao grande Egipto. Israel... a floresta, a planície e o deserto, um céu de fogo, rochas queimadas pelo sol, rios traçando o seu curso por entre margens tão depressa áridas como cobertas de erva. Apenas uma hora de caminho separava as extensões ressequidas das verdejantes. Era uma terra santa, oferecida por Deus, de Dan a Bersabé, das cercanias do Hermon até as estepes do Moab. E era um povo que o rei defendera contra si mesmo e que devia preservar dos perigos exteriores.

    Depois de ter conseguido instalar uma rede de canalizações que levavam água a Jerusalém, Salomão preocupara-se com o estado das vias de circulação. A grande estrada que levava à capital fora pavimentada com basalto. As outras estradas, agora seguras para os comerciantes, tinham favorecido o estabelecimento de relações económicas contínuas entre as várias províncias, assim como a passagem dos carros do exército, cuja visão impressionara os espiões estrangeiros.

    Depois de ter suprimido os conflitos internos, Salomão reorganizara com toda a tranquilidade o seu exército, repartindo os seus três mil soldados de infantaria em unidades de cinquenta, cem e mil homens, dirigidos por oficiais. As guerras levadas a cabo por David contra os filisteus, edomitas, amonitas, moabitas e arameus tinham conduzido à formação de um império israelita que, sem poder ser comparado com o do faraó, possuía ainda assim uma indubitável coerência. Por ocasião de discursos feitos aos vários regimentos, Salomão advertira-os de que não prosseguiria uma política de expansão territorial, mas, sim, de defesa do país, santuário de Jeová. Era por essa razão que o mais poderoso exército jamais possuído por Israel estava ocupado a construir ou a consolidar cidadelas depois de ter demolido as mais antigas. Aos grosseiros tijolos tinham sucedido pedras de talha de corte rigoroso. O trabalho era muitas vezes grosseiro, mas apresentava a vantagem da robustez. Em todos os pontos estratégicos do reino velavam, a partir de agora, fortalezas que tornavam, enfim, as fronteiras seguras.

    O secretário particular de Salomão tinha redigido um texto que tivera larga difusão: ”O rei encheu Israel de riquezas, de carros e de soldados; ergueu cidadelas nas planícies e nos montes. Nas suas paredes, mandou esculpir figuras de anjos e de heróis com corpo de bronze e de pedras preciosas. Todas as estradas vão dar a Jerusalém, nossa mãe protectora.”

    Se o rei podia agora repousar sem receio em territórios pacificados, o fato devia-se aos resultados da sua política. Os Hebreus descobriam com encanto a felicidade de viver em segurança, longe de pilhadores e de sangrentos confrontos entre facções. As mães podiam deixar os filhos brincar em liberdade nos jardins e nos campos. Os camponeses regressavam a casa a cantar, já não receando ser agredidos nas curvas do caminho. O povo já murmurava que o século de Salomão não teria comparação com nenhum outro e que uma geração inteira ficaria sem conhecer a guerra. E isso era um milagre que nunca se tinha produzido desde que Israel era governado por reis.

    Salomão esperava bem mais do que isso. Desejava consolidar a paz e mantê-la durante vários séculos.

    O seu sucesso dependeria da primeira batalha, que teria lugar em Megido, a mais recente das fortalezas reconstruídas, contra a qual os beduínos em revolta estavam a preparar um assalto. O rei decidira ser ele próprio a comandar as tropas, sem fazer caso da opinião dos conselheiros Não havia outra maneira de saber se o modo de defesa que imaginara constituía dissuasão suficiente.

    Um sopro de vento quente acariciou a nuca de Salomão. O cume das montanhas começava a tingir-se de ocre. Num braço de água, viam-se adolescentes a tomar banho. Um cultivador conduzia ao mercado o seu burro carregado de cestos de onde transbordavam cachos de uvas.

    Mas chegara a hora de partir para o combate.

    Salomão tinha mobilizado o conjunto da guarda real, composta na maioria por mercenários estrangeiros. Em Jerusalém só ficariam veteranos, que, enquadrados por oficiais israelitas, assegurariam a proteção do palácio durante a ausência do monarca. Os corpos especiais chegariam a Megido sob o seu comando direto.

    Salomão dirigiu-se às cavalariças, servidas por um largo pátio pavimentado com calcário e provido duma cisterna em pedra que continha mais de dez mil litros de água. Desde a sua última visita, um mês antes, as obras tinham progredido bastante. Cada cavalariça, dividida em cinco unidades, comportava uma entrada independente e o conjunto era acessível por um largo caminho empedrado que facilitava o aprovisionamento de alimentos para os cavalos e a limpeza dos estábulos. Cada animal estava preso a um pilar marcado com um número. Entre os pilares, viam-se anjos de gesso. A ventilação e a iluminação eram asseguradas por aberturas reguláveis feitas no telhado.

    Quem é o responsável por estes edifícios? perguntou Salomão.

    Jerobão, majestade.

    Dois guardas foram buscar um homem com cabelo ruivo, de cerca de trinta anos. Com a testa marcada por uma cicatriz devido a uma ferradura, o nariz esborrachado, o queixo anguloso com uma covinha na ponta, Jerobão era um atleta quase tão impressionante como Banaías. Descalço, com a tanga maculada pela argila que utilizava para formar as junções entre as lajes de calcário, vacilou de emoção ao aproximar-se do rei.

    Onde nasceste? perguntou Salomão.

    Nas montanhas de Efraim, senhor. O meu pai morreu e a minha mãe ficou lá na terra.

    Qual é a tua função?

    Sou capataz. Fui formado numa milícia agrícola e a seguir numa equipa que restaurou as fortificações de Jerusalém. Depois chamaram-me para a porta dos cavalos. Dei as minhas ideias. Ouviram-me. Desde há dois meses que me encontro ao trabalho.

    Salomão avaliou o homem: vivo, autoritário e ambicioso.

    Vais liderar os operários provenientes das tribos de Efraim e de Levi. Quando tiveres terminado estas cavalariças, expor-me-ás os projetos que tens imaginado.

    Um largo sorriso iluminou o rosto desgracioso do colosso ruivo. Abria-se diante dele uma formidável carreira.

    Salomão examinou de perto as muralhas da fortaleza de Megido, reconstruída por soldados transformados em pedreiros. Ajudados por alguns homens do ofício, tinham substituído os tijolos por pedras de cunha devidamente talhadas e ajustadas. O conjunto parecia sólido.

    Eliap, ao lado do soberano, observava a planície por onde ia passar o ímpeto dos beduínos. Como sofria de vertigens, sentia-se pouco à vontade no cimo daquela torre onde soprava um vento violento. Banaías esperava que o rei lhe desse ordem para lançar os seus homens mais valentes contra o inimigo.

    Salomão, com um diadema de ouro nos cabelos negros e um ceptro na mão direita, foi o primeiro a descortinar a nuvem de pó que anunciava a chegada do adversário.

    Os hebreus estenderam os seus arcos.

    Afastem-se das muralhas ordenou Salomão. Deixem-nos aproximar.

    O comandante da guarnição, não teria agido assim. E, além disso, o rei não tinha fama de guerreiro.

     

    Os cavaleiros beduínos, gritando, lançaram as flechas contra as paredes da fortaleza. Como os hebreus não ripostaram, ficaram persuadidos de que o seu número era ínfimo.

    Retirem as barras de fechamento da porta principal exigiu o monarca.

    Majestade!

    O comandante não protestou mais. A sua atitude tinha já sido um insulto à pessoa real. Mas porque tomaria Salomão um risco daqueles? Porque se estava a oferecer aos golpes do adversário?

    Os beduínos forçaram sem dificuldade a porta de acesso, agora sem defesa. Alguns lançaram gritos de alegria por alcançarem com tanta facilidade a vitória. Mas o primeiro átrio dava para um segundo, menos elevado e mais largo. Os arqueiros hebreus apareceram nas ameias e três passaram o peito dos beduínos, desorientados e prisioneiros num estreito espaço onde os cavalos se lançavam em loucas correrias.

    Nenhum agressor sobreviveu. Nenhum hebreu ficou ferido. A vitória de Megido seria cantada pelos poetas da corte e a glória do rei de Israel espalhar-se-ia no universo, semeando o medo na imaginação do inimigo.

     

    O relatório redigido por Eliap não dava azo a dúvidas. A arma do futuro era o carro de três homens, para o qual subiriam o arqueiro, o condutor e o adjunto, que protegeria os camaradas com um grande escudo. Os melhores cavalos encontravam-se nas coudelarias egípcias. Os arsenais egípcios fabricavam os melhores carros. Um cavalo egípcio valia cento e cinquenta sidos e um carro de guerra seiscentos. Para assegurar a segurança de Israel, Salomão necessitava pelo menos de quatro mil cavalos e de três mil carros.

    Pega num papiro ordenou o rei ao secretário.

    Eliap afastou os selos e as placas que lhe atravancavam a escrivaninha. Desprezou um papiro fornecido por uma fábrica da província que utilizava plantas que cresciam em pântanos, perto do Jordão, e escolheu um exemplar proveniente de Mênfis, a grande cidade mercante do Baixo Egito.

    Não possuo nenhum mais belo do que este, majestade. Estava a reservá-lo para uma ocasião excepcional, mas talvez prefira uma placa de madeira ou de cera?

    O texto que tenho para te ditar é demasiado longo, Eliap. Quando se escreve ao faraó do Egipto não se poupam as fórmulas de cortesia.

    Salomão descortinou uma emoção intensa no olhar do secretário. Eliap misturou negro de fumo com goma que desfez depois em água para obter uma bela tinta negra. Limpou também o selo real que iria por no fim da missiva.

    - A tua mão parece-me hesitante - observou Salomão.

    - Escrever ao faraó... Não será um acto votado ao fracasso?

    - Só ele pode vender-nos os cavalos e os carros de que necessitamos. Ele vai decerto recusar a minha primeira proposta, mas espero que lhe dê vontade de replicar com outra.

    - Porque aceitaria ele reforçar o vosso exército?

    - Porque ele sabe que quero a paz. O Egipto do faraó Siamão, por mais forte que seja, não se encontra em muito bom estado. Não terá interesse em recusar uma guerra?

    O secretário concordou. Com efeito, Siamão via o seu poder contestado pelo sumo-sacerdote de Tebas, com forte implantação no Sul do Egipto, onde as tradições religiosas se mantinham ardentes. Fora por essa razão que o faraó instalara a sua capital em Tanis, no Delta, não muito longe da fronteira noroeste do país.

    - Que sabes tu dele? - perguntou Salomão.

    - É um homem secreto, que preenche as suas funções com muito rigor. Tal como a maior parte dos seus antecessores, trabalha sem parar e tem um maravilhoso conhecimento de cada questão.

    - Tem comportamento belicoso?

    - Como pode um faraó não sonhar com a grandeza? O Egipto já não tem o esplendor do tempo dos Ramsés, mas nem por isso deixou de ser ambicioso. Siamão deve pensar em conquistar de novo a Ásia. O caminho das suas vitórias passará por Israel. É por isso que receio que a vossa missiva constitua motivo de hilaridade para ele.

    Eliap falara sem ambigüidade. Salomão apreciou-lhe a sinceridade.

    - Partilho a tua opinião, meu secretário, mas gosto do impossível. O nome desse faraó parece-se demasiado com o meu para que os nossos destinos não venham a cruzar-se. Visto que ele é ”o amado de Maat”, a deusa que incarna a verdade e a ordem do mundo, não deixará de compreender as minhas intenções. Ao trabalho, Eliap. Comecemos: ”O rei Salomão ao seu irmão, o faraó do Egipto...”

    Há mais de um mês que a preciosa missiva tinha sido confiada ao correio real. Salomão, cujo sono era cada vez mais leve, mal conseguia esconder a sua irritação. Abreviava as audiências e procedia a longas meditações na capela do palácio. Sabia que os Hebreus detestavam o Egito, país onde, segundo a lenda, tinham sido reduzidos à escravatura. Mas também sabia que a monarquia faraônica, estabelecendo um elo sólido entre o céu e a Terra, constituía um modelo extraordinário, que colocava sobre o trono um ser inspirado pela divindade. Só um rei herdeiro dessa tradição podia conduzir o seu povo através do caminho da sabedoria e da felicidade. Salomão, deixando para trás as reacções sentimentais e os rancores passados, tinha organizado o Estado hebreu e a sua administração com base no exemplo faraônico.

    Salomão estava persuadido de não trair o seu povo. Aguardava, no entanto, um sinal de Jeová que confortasse a sua escolha: tornar-se faraó de Israel. A resposta do senhor das nuvens chegou até ele uma noite, no momento exacto em que se cruzou com um velho encarregado de varrer os degraus do trono. Uma pergunta atravessou então o espírito do rei e este sentiu-se obrigado a fazê-la ao modesto servo.

    Que pensas tu do Egito? O varredor refletiu.

    Vivi lá. E o meu pai e o pai do meu pai. E também os nossos antepassados. Todos disseram a mesma coisa: é um país de riqueza. Come-se lá bem e não se passam privações. Éramos lá felizes. Gostamos do Egito tanto quanto o detestamos. É um vizinho demasiado poderoso para Israel... Mas o ódio deve ser superior ao amor. É estúpido, meu rei, mas a natureza humana é feita deste modo. Ninguém poderá mudar isso.

    Não é a mais alta montanha que merece a ascensão? A sabedoria falou pela tua boca. Pousa a vassoura e procura um jovem para te substituir. O palácio velará pelos teus velhos dias.

    Eis por fim a resposta do faraó anunciou Eliap.

    Lê-ma, exigiu Salomão.

    Não é um papiro, majestade, mas antes uma notícia trazida por Banaías. O exército egípcio venceu os Filisteus, tomou a cidade de Gezer e dirige-se para a fronteira de Israel.

    Salomão empalideceu. Não só tinha fracassado como provocara uma reacção violenta por parte do mais temível dos adversários. A existência de Israel estava em perigo.

    - Mandem reunir todos os meus regimentos - ordenou o filho de David. - Não morreremos sem combater.

    Banaías caminhava à cabeça das tropas de Israel cheio de ardor. O prestígio de Salomão era tão grande e as suas fortalezas ofereciam uma segurança de tal modo exemplar que a vitória não podia deixar de ser certa.

    Salomão não partilhava aquele optimismo. O exército egípcio não era tão ingênuo como o dos beduínos. Se a guarda avançada caísse na armadilha dos recintos sucessivos, não aconteceria o mesmo com o grosso das tropas. Ao vencer os Filisteus em Gezer, o faraó Siamão provara as suas qualidades de estratega. Invadir Israel custar-lhe-ia muitas vidas mas tinha a seu favor o número de homens e o armamento.

    Apesar da confiança que depositavam no seu rei, os soldados hebreus arrepiaram-se quando viram os egípcios espalharem-se para formar uma ampla frente. À frente dos soldados de infantaria, viam-se dezenas de carros puxados por dois cavalos. Todos conheciam a precisão dos arqueiros egípcios, famosos por dizimarem os seus adversários. O próprio Banaías perdeu um pouco do seu ímpeto.

    No cimo da torre fortificada onde Salomão, o secretário e o chefe do exército se instalaram, reinava um silêncio angustiado. Seria necessário cada um lutar contra seis, empurrar sem cessar as escadas que os assaltantes encostariam às paredes da cidadela e impedi-los de porem os pés no interior. Quanto tempo poderia durar a resistência?

    Destacou-se um carro que avançou devagar em direcção às posições israelitas. Não era um comportamento habitual. O carro parou a boa distância. Desceu um oficial superior que atirou ostensivamente para o chão a espada e o escudo. Depois caminhou no deserto e imobilizou-se a uma centena de metros da fronteira.

    - Senhor, deixai-me cortar-lhe a garganta! - suplicou Banaías.

    - Espera aqui pelas minhas directivas.

    O rei mandou abrir a porta da fortaleza. Avançou em direcção ao oficial egípcio. Os dois homens depressa ficaram frente a frente.

    - Que os deuses velem por vós - disse o egípcio. - Sou o chefe do exército do faraó, cuja guarda avançada está diante dos vossos olhos.

    Que Jeová conceda a sua bênção ao senhor do Egito. Porque te aproximaste tanto da fronteira do meu país?

    Não enviaste, senhor, uma carta ao faraó? Não lhe pediste cavalos e carros?

    Não peço nada. Desejo comprar-lhos. Aceitarei o preço que ele indicar.

    O meu amo quer conhecer o segredo do teu coração, rei de Israel. Desejas a paz ou a guerra?

    Um rei só se revela em presença de outro rei disse Salomão. O general egípcio inclinou-se.

    A verdade fala pela tua boca. O faraó receber-te-á de imediato, se o desejares.

    Que assim seja.

    Espantados, os hebreus viram o seu soberano subir para o carro do dignitário egípcio.

    Salomão não desconhecia o perigo que corria. Se o faraó fizesse dele seu refém, apoderar-se-ia de Israel sem desferir um só golpe. Nunca nenhum rei egípcio agira assim. Mas não era ele filho de Maat, a ordem cósmica que odiava a mentira e a cobardia?

    O vento do deserto fustigou o rosto de Salomão. O general lançara os seus cavalos a galope, evitando com habilidade os montes de pedras que podiam fazer o carro voltar-se.

    Alguns minutos depois, parou diante de uma tenda branca cuja entrada estava guardada por dois soldados armados com lanças. A convite do guia, Salomão penetrou na tenda do faraó

    Este, vestido com uma tanga de fios de ouro e com um grande colar de cornalina ao pescoço, foi ao encontro do seu hóspede.

    Estou feliz por acolher o meu irmão disse Siamão calorosamente. A sabedoria de Salomão é já famosa.

    A fama não passa muitas vezes de ilusão. O meu irmão faraó pertence a uma linhagem mais ilustre do que a minha. Não é a sabedoria o seu alimento desde há séculos?

    Siamão sorriu.

    Espero que esse alimento seja sempre servido à minha mesa! O meu irmão dar-me-á a honra de aceitar uma taça de vinho branco do Delta?

    - Uma reputação tão sólida não pode ser ilusão. Quem recusaria tal prazer?

    Os dois monarcas sentaram-se em cadeiras de cedro, um frente ao outro. O faraó serviu ele próprio o seu hóspede. Se afastara os servos, pensou Salomão, não fora só para o honrar de modo particular, mas também para poderem falar no maior segredo.

    - Israel é um Estado florescente - disse o faraó.

    - Deus assim o quer - afirmou Salomão. - O meu país é jovem e falta-lhe experiência. Se lhe faltasse um modelo, que se poderia esperar dele?

    - Que modelo é esse?

    - Há algum melhor do que o Egito?

     

    - No entanto - objetou o faraó - os nossos povos não se apreciam um ao outro.

    - Os Hebreus amam e detestam o Egito com a mesma paixão explicou Salomão. - Cabe ao seu rei deslocar o fiel da balança num ou noutro sentido. Eu escolhi o meu e não mudarei de ideias.

    Siamão era um homem de aspecto nobre. Tinha um rosto fino e olhos castanhos muito vivos. Não parecia dispor de grande força física, mas Salomão não se fiou nessa aparência. Siamão não era um faraó indeciso. Era um verdadeiro chefe de Estado. O seu sentido diplomático escondia uma vontade violenta, que se exasperava ao menor obstáculo.

    - Venci os Filisteus em Gezer - lembrou o senhor do Egito. - É uma vitória importante, mas não decisiva. Os Filisteus são guerreiros temíveis que lutarão até à extinção do seu povo. Muitos egípcios irão morrer. Sou responsável pela sua existência. Esperam de mim que os faça viver felizes e não que os deixe morrer em combate.

    Os dois monarcas provaram o vinho branco do Delta. Era uma colheita notável, que encantava o paladar. Salomão começava a perceber a estratégia do seu interlocutor.

    - A carta do rei de Israel é muito estranha - prosseguiu o faraó.

    - Porque deseja o meu irmão adquirir tantos carros e cavalos? Só pode ser para preparar uma guerra contra o Egito.

    - É precisamente para evitar a guerra - rectificou Salomão. - Israel está em perigo. Se o seu exército for forte, os seus vizinhos pensarão na paz e não na guerra.

    Aí esta uma visão ao modo egípcio, meu irmão. Os meus gloriosos antepassados não pensaram de outra forma. A minha demonstração militar contra os Filisteus só teve valor de exemplo. Devo conduzir agora as minhas tropas contra os adversários ou devo ficar por aqui?

    Precisais da minha ajuda? perguntou Salomão com gravidade. O rei de Israel medira a incongruência da sua pergunta. Ultrapassava os limites da cortesia. A reacção do faraó dependia da sua sinceridade. Siamão serviu de novo o vinho.

    Sim, meu irmão, necessito de ti. Se o Egito e Israel concluírem uma aliança, a morte e o sofrimento recuarão. Os Filisteus serão apanhados numa tenaz e ver-se-ão obrigados a depor as armas. A paz reinará até à distância que o suave vento do Norte alcança.

    Aceitar a proposta do faraó correspondia a uma inversão da política de Israel e significava impor aos Hebreus o reconhecimento do vizinho invejoso e detestado como amigo privilegiado. Os Egípcios transformar-se-iam em protectores dos Hebreus.

    Salomão punha o seu trono em jogo.

    O rei do Egito, silencioso, exigia uma resposta.

    A situação não é muito simples afirmou o rei de Israel. O meu país, mesmo com carros e cavalos, não terá o mesmo poder que o Egito. O que o meu irmão me propõe é muitíssimo perturbante...

    Siamão observou Salomão com atenção.

    O rei de Israel espera, com certeza, garantias da parte do faraó do Egito.

    Sem dúvida respondeu Salomão. Senão, o rei de Israel seria um ingênuo e o faraó desprezá-lo-ia.

    A verdade não é a maior das garantias? Israel quer viver em segurança e o Egipto também. Receamos um ataque líbio. Mais dia menos dia, esses chacais atacarão. Temos a mesma necessidade de defender as nossas fronteiras asiáticas. Não será levantando-me contra Israel que poderei conduzir a política que julgo ser a melhor. Essas explicações são suficientes?

    Agradeço, faraó, mas...

    Mas é preciso mais para convencer Salomão! exclamou o faraó, enervado. Estará ele em posição de exigir?

    Salomão susteve o olhar do seu anfitrião.

    - O meu irmão é quem deve julgar - afirmou com modos tranquilos.

    - Quero a paz - afirmou o monarca egípcio. - Desejo ardentemente que a construamos juntos. A garantia que o meu irmão deseja ser-lhe-á concedida.

     

    Salomão abandonou o palácio de David pouco antes da alvorada. O cerimonial não seria respeitado nessa manhã. O chefe do protocolo devia acomodar-se às circunstâncias. O rei tinha necessidade de refletir longe dali.

    Vestido com uma túnica branca, Salomão conduziu ele próprio o carro. Tomou a direcção de Etam, lugar afastado onde fora edificada uma residência de Verão rodeada por um parque, no meio do qual brotava uma nascente curativa.

    O domínio encontrava-se deserto nesta estação. O Sol começava a despontar quando Salomão lá penetrou. Abandonando o carro, caminhou até à extremidade do promontório rochoso que dominava a nascente. Outrora, os camponeses ofereciam ali sacrifícios a Jeová. O rei, reencontrando gestos ancestrais, colheu algumas ervas e compôs um ramo que elevou em direcção ao céu. O Senhor recolheria assim o perfume imaterial da natureza que criara.

    O jorrar da água era quase furioso. Saltavam lágrimas de prata para cima dos raios de luz. Seguindo um deles com o olhar, Salomão ouviu a voz de Deus. ”Ordeno-te”, dizia ela, ”que construas um templo sobre a minha montanha santa. A sabedoria criará a tua obra. Estará presente a teu lado como esteve perto de mim quando criei o mundo. É por ela, e só por ela, que os caminhos dos que estão na Terra são traçados.”

    Salomão recordou a lenda que o seu preceptor lhe contara várias vezes. Na origem dos tempos, o céu tinha-se aberto. Dele saíra uma pedra que caiu ao mar. Foi sobre essa superfície sólida que a Terra se constituiu. Deus esticara o fio de prumo no vazio e organizara o caos com o nível. O arquitecto dos mundos separara a luz das trevas.

    Construir um templo... A vocação de Salomão tomava forma. O apelo que ele sentia no mais profundo do seu ser desde há tantos anos não era outro senão o do futuro edifício destinado a Jeová. Para ser um grande rei era necessário tornar-se num construtor. Salomão pensou na célebre pirâmide com degraus do faraó Djoser: ao abrir um gigantesco estaleiro, unificara para sempre o seu país. Israel precisava dum templo, dum magnífico santuário erigido à glória do deus único, uma morada sagrada que fosse o sol do reino.

    Sentindo uma alegria inebriante, Salomão correu para o seu carro e pôs-se a caminho de Jerusalém.

    Os soldados que formavam a guarda privada do soberano tinham sido postos em alerta. Ninguém sabia onde tinha ido Salomão. O mordomo-real do palácio esboçara tentativas desajeitadas para esconder o desaparecimento, que causava verdadeiro escândalo.

    O terraço estava cheio de religiosos e de dignitários que exigiam explicações. Alguns não hesitavam em classificar o rei de espírito fraco, de fogo fátuo ou de pássaro viajante.

    Quando Salomão reapareceu, resplandecente no seu traje branco, os rumores extinguiram-se. Os seus súditos, fixando-o com espanto, ficaram imóveis. Todos esperavam uma explicação para aquele mistério.

    Eliap, com um rolo de papiro selado na mão direita, abriu caminho por entre a multidão dos cortesãos e caminhou em direção ao rei, a quem apresentou, inclinando-se, o precioso objeto.

    Eis aqui o que Natão, o vosso preceptor, me pediu para vos entregar.

    Porque escolheste este momento?

    Deus inspirou Natão. O testamento de David só vos devia ser entregue no dia em que tivésseis deixado o palácio de manhãzinha e voltasseis sozinho no vosso carro, quando já o sol fizesse brilhar a pureza do vosso traje. Assim falou o profeta.

    A declaração de Eliap assombrou a assistência. Salomão já não podia continuar a ser considerado como um homem. Não era ele um desses anjos que tinham tomado uma forma humana para executar na Terra a vontade das Alturas?

     

    Quando Salomão penetrou na residência de David, ainda não sabia que o seu prestígio se tinha tornado imenso e nunca mais ninguém pensaria em contestar a sua autoridade. Só tinha um desejo: ler o texto que lhe tinha sido escondido durante tanto tempo

    O rei desenrolou o papiro em cima das lajes da sala do trono. Tratava-se, de fato, da letra do pai:

    Moro num palácio modesto”, afirmava David e a Arca de Jeová está instalada numa simples tenda. Quis construir uma nobre morada para o deus único, mas o profeta Natão opôs-se sempre com grande rigor. Se tivesse tentado executar o meu projecto, Jeová ter-me-ia fulminado. Assim, durante o meu reinado, Deus contentou-se com viajar de morada em morada, enquanto eu derramava muito sangue. Mas preparei o futuro. Nas caves do palácio está dissimulado um enorme tesouro que servirá para o meu filho Salomão construir o templo que o meu coração desejou e que os meus olhos não verão. Acumulei materiais, lingotes de ouro, bronze e ferro. Mandei erguer um altar no local do futuro santuário. Comprei o terreno e hoje ele pertence à Coroa. Meu filho, quando leres estas linhas, mostra-te digno da tarefa que herdas. Partilhas, enfim, o meu segredo.

    Salomão convocou o secretário.

    - Este texto está incompleto - afirmou. - Acompanha-o uma mensagem oral e só tu a podes ter recebido.

    - É verdade, senhor. Foi por isso que me afastei do palácio, para ter tempo de saber que rei pensáveis ser.

    - Estás consciente da irreverência das tuas palavras?

    - Decerto, meu amo. Teríeis vós agido de outro modo?

    Salomão não conseguia manobrar com facilidade o egípcio. Apreciava, no entanto, a sua força interior e a sua rectidão. O profeta Natão não se tinha enganado nem ao conceder-lhe a sua confiança nem ao deixar um jovem monarca descobrir as suas intenções.

    - Onde fica o altar que servirá de primeira fundação ao templo?

     

    - Encontrareis inúmeros adversários - anunciou por sua vez Eliap, à laia de profecia. - Construir um edifício como o que imaginais é contrário aos hábitos dos nômades, com raízes profundas na alma de Israel.

    É verdade reconheceu Salomão. Mas o meu pai confiou-me uma missão. E eu cumpri-la-ei. Este país necessita de um templo, necessita do mais magnífico dos templos.

    O altar fica no rochedo de Jerusalém, senhor, no cume setentrional da montanha. O lugar está interdito há vários anos e tornou-se quase inacessível por causa da ravina que o separa das primeiras casas.

    A antiga eira, onde Noé ofereceu um sacrifício e Jacob viu uma escada que ligava a terra aos céus... É na verdade aí, Eliap?

    É sim, meu amo. Natão pensava que o rochedo era a pedra primordial, à volta da qual o mundo se formou. No seu seio jorra a nascente do paraíso que sobe até ao Sol e desce sobre a Terra sob a forma de chuva. Essa chuva de que vos tornastes senhor.

    A pedra primordial... Não a possuem também os Egípcios em Heliapólis?

    Há tantos centros do mundo quantos os lugares sagrados existentes respondeu o secretário. Cabe-vos a vós dar a conhecer o do vosso povo.

    Salomão abandonou o palácio de David. Ajudado por dois soldados, que estenderam cordas à laia de ponte, atravessou o precipício e passou o resto do dia, até ao pôr do Sol, no majestoso rochedo onde o seu templo se iria erigir.

    Do alto da montanha de Jerusalém, descobriu a sua capital e o seu país. A norte, a Samaria e a Galileia. A este, o Jordão, o mar Morto e o deserto. A sul, a Judeia. A oeste, as planícieis que terminavam na costa mediterrânica. Salomão reinava sobre aquele rio, sobre as terras, os montes, os mares e as tribos que tinha unificado. Ninguém, desde que David consagrara um altar sobre aquele rochedo, e sobre toda a sua largura, olhara Israel nem de tão alto nem de tão longe.

    David escolhera bem o local. Ele possuía a força, a beleza e o mistério necessários à casa de Deus. A Arca da Aliança abandonaria em breve a sua errância. Os Hebreus iriam ver dentro em pouco o santuário que os vincularia para sempre ao amor do Altíssimo.

    O dia a seguir ao sabbat de Outono foi assinalado por uma sucessão de audiências imprevistas. Salomão, que esperava um sinal da parte do faraó e que acreditava ainda na palavra deste, estava mal-humorado. Estudara o projecto deixado por David para o futuro templo de Jerusalém e achara-o imperfeito. O pai apenas imaginara uma capela mais vasta, mas desprovida de qualquer génio arquitectónico.

    Onde encontraria um mestre-de-obras? Os Hebreus tinham aprendido a pavimentar as estradas e a construir ou a consolidar as paredes das fortalezas, mas ignoravam os segredos da montagem das pedras eternas destinadas ao santuário.

    Quando Jeroboão, portador de uma notícia com importância suficiente para ousar perturbar a meditação do rei, foi anunciado, Salomão sentiu novo entusiasmo. Talvez aquele jovem capataz fosse o arquiteto de que Israel necessitava!

    O atlético ruivo, de dorso nu e com os rins cingidos por uma tanga de couro, era alvo da mais viva exaltação. Quando o rei lhe deu a palavra, exprimiu-se com volubilidade.

    Senhor, as cavalariças estão terminadas! Os vossos cavalos serão lá felizes. As equipes encarregadas de os alimentar e limpar circularão com facilidade. Nada de tão bem acabado existe noutros sítios!

    Podes orgulhar-te disso, Jeroboão.

    Meu rei, eu tenho outros projetos! Realizá-los-ei se um número suficiente de operários for posto sob as minhas ordens.

    Estou pronto a escutar-te disse Salomão.

    Teria Jeroboão o desejo de ver Jerusalém coroada por um templo? Teria entendido o futuro do país? Se assim fosse, transformar-se-ia de imediato no mestre-de-obras encarregado de trabalhar ao lado do monarca.

    - Quero construir o novo palácio do rei de Israel - declarou Jeroboão com segurança. - O povo murmura que a casa de David é indigna de Salomão. Utilizarei tijolos e madeira, em vários andares, com um imenso terraço, e...

    - Pensas que deva ser o primeiro edifício a ser construído?

    - Claro, meu rei!

    - Não há nenhum que seja mais urgente?

    - Claro que não!

    - Pensa bem, Jeroboão.

    O colosso procurava em vão, de lábios cerrados e olhar ansioso, a resposta que Salomão gostaria de ouvir. Este último foi bastante paciente, mas o que leu na alma do seu interlocutor dissuadiu-o de lhe oferecer mais do que a função que ele já ocupava.

    - Põe de lado a ideia desse palácio, Jeroboão. Precisaremos em breve de grandes cavalariças. Escolhe um terreno próximo de Jerusalém, prepara os projetos e organiza as obras. Trabalharás sob as ordens do mordomo-real do palácio.

    Vexado, Jeroboão viu-se obrigado a retirar-se. Ainda mal tinha saído da sala, já o mordomo-real ia entrando nela tão perturbado como o seu predecessor.

    - Majestade, precipitamo-nos para a catástrofe!

    - Então porquê?

    - Eliap, o vosso secretário, desviou uma série de contribuições que me deveriam ser entregues para as despesas da corte. Peço para ele um castigo exemplar.

    - Nesse caso, é o rei quem deverá ser castigado. É que Eliap agiu segundo ordens minhas.

    Aflito, o mordomo-real recuou.

    - Perdoai, majestade... Ignorava-o... Mas como poderei continuar a...

    - Esperava da tua parte uma intervenção muito mais pronta. Isso prova que tu não examinas com frequência as tuas contas. Desenvolve, pois, a tua inteligência. O dinheiro recolhido por Eliap destinar-se-á à construção do templo. As despesas da corte serão reduzidas ao mínimo sem que a sua grandeza se veja alterada.

     

    O dignitário, muito feliz por ter escapado a um funesto destino, precipitou-se para o seu gabinete. Esbarrou contra o antigo sumo-sacerdote Abiatar, que pedia para falar com urgência a Salomão.

    Abiatar, nomeado por David, era o único descendente de uma ilustre família de homens de religião que tinha morado em Silo, o lugar santo mais famoso antes de Jerusalém se tornar capital de Israel. Abiatar tinha escapado ao massacre dos adeptos de David organizado por Saúl. Fora ele quem conseguira salvar a Arca e os trajes rituais do sumo-sacerdote.

    Avisado da presença do ancião, Salomão foi ao seu encontro e, dando-lhe o braço, levou-o até um dos terraços mais abrigados. Abiatar andava com dificuldade.

    És um homem jovem, Salomão, e eu estou perto da morte.

    Foste amigo do meu pai reconheceu o soberano, com ele partilhaste duras provações. A bênção de Deus paira sobre ti.

    Sou o guardião da tradição, Salomão. Se saí do meu retiro foi para te pôr de sobreaviso. O teu pai nunca quis construir um templo. Tal edifício seria um sacrilégio. A Arca não deve ficar fechada em Jerusalém. Deve continuar a viajar pelas províncias. Não profanes esse costume. Expulsa da cidade os estrangeiros, pois o seu número não pára de aumentar. Desembaraça-te o mais depressa possível do egípcio Eliap, que é um mau conselheiro.

    A construção dum templo perturbaria o clero?

    O velho Abiatar sentou-se num dos parapeitos do terraço, de costas para o Sol.

    Não o admitirá, podes estar certo! O teu pai dividiu-o em vinte e quatro classes que partilham o serviço divino. Um templo obrigá-los-ia a agruparem-se em Jerusalém e a deixar as suas províncias! Nada deve mudar. A força de Israel reside no seu passado. Querer destruí-lo seria trair a vontade divina.

     

    Salomão observava o rochedo que dominava Jerusalém.

    Tu, Abiatar, conheces essa vontade?

    Sei fazer falar os oráculos!

    - É essa uma das faltas que reprovo em ti. Um sumo-sacerdote deve preocupar-se com o ritual e não com a magia. Sadoc o teu sucessor, não comete tais imprudências.

    Abiatar surpreendeu-se com o vigor do tom.

    - Ainda há algo mais sério - prosseguiu Salomão. - Sei que apoiaste o meu inimigo Adonias, cuja execução, infelizmente indispensável, eu deploro.

    O ancião vacilou. Salomão impediu-o de cair.

    - Merecias a morte, Abiatar, mas tendo em conta a tua idade avançada, contentar-me-ei em enviar-te para uma aldeia, a norte de Jerusalém, de onde não sairás mais. Se desobedeceres, não contes com a minha clemência.

    O antigo sumo-sacerdote levantou-se sem ajuda.

    Com olhos de criança perdida, observou um monarca de uma juventude resplandecente que varria o mundo de ontem, reduzindo-o a cinzas de modo mais eficaz do que se tivesse sido incendiado. Salomão, no entanto, não cedera a nenhuma agressividade. A sua expressão mantivera-se calma e sorridente como se tivesse cantado um poema sobre as cores tranqüilas do Outono.

    - Sadoc o meu sucessor... Não tentou convencer o rei de que se estava a afastar do bom caminho?

    - Sadoc também é um homem de idade - lembrou Salomão. - É prudente, portanto. Se viesse a opôr-se ao soberano que ele próprio coroou, como seria julgado por Deus? Os sacerdotes têm pouca importância. Cabe ao rei guiar o seu povo em direção à luz. Não foi esse o ensinamento que recebeste de teu pai?

    Abiatar baixou a cabeça.

    Salomão viu-o abandonar o terraço, sabendo que nunca mais o voltaria a encontrar.

     

    Depois de ter animado o poder divino no Santo dos Santos do templo de Tanis, o faraó Siamão recolheu-se. Só a luz escondida no mistério daquele lugar apenas acessível ao rei do Egipto inspiraria os seus atos naquele dia em que iria tomar uma decisão capital.

    Precedido pelo seu porta-sandálias, atravessou o pátio grande. O céu estava nebulado e o ar carregado de odores marinhos exalados pelo Mediterrâneo. Siamão foi levado de carro do templo para o palácio. Apreciou uma vez mais a beleza de Tanis, que era percorrida por numerosos canais, com margens arborizadas e ajardinadas. Os arquitetos tinham-se inspirado em Tebas, a magnífica, para recriar no Norte uma cidade de majestosas villas onde era agradável viver.

    Quando o faraó entrou na sala do Conselho, o sumo-sacerdote de Amon, o primeiro ritualista e o general-chefe, levantaram-se para saudar o senhor do Egito. Este último sentou-se num trono de madeira dourada, com o espaldar ornamentado por uma cena de coroação.

    Meus amigos começou soube de fonte segura que o rei Salomão decidiu construir um imenso templo sobre o rochedo de Jerusalém.

    Que absurdo! opinou o sumo-sacerdote. Israel não é um país pobre mas não tem a fortuna necessária para realizar tal projeto.

    Enganas-te. David acumulou riquezas de que o filho se servirá.

    Porquê tanta vontade de nos imitar? Os Hebreus são nômades lembrou o ritualista. Não precisam de um santuário para abrigar o seu deus.

    - Salomão compreendeu que se devia transformar num edificador para fazer de Israel um grande reino - expôs o faraó. - E nós apoiá-lo-emos.

    O general não dissimulou as suas reticências.

    - Vender-lhe carros e cavalos já foi muita generosidade da vossa parte, majestade. Para quê ajudá-lo ainda mais?

    - Para que ele consolide a paz - respondeu Siamão. - O templo de Jerusalém evitará a guerra. Se o rei de Israel lhe consagrar todos os seus esforços, os nossos dois países comungarão no sagrado. Mas, como Salomão é tão prudente como astuto, só aceitará o tratado da aliança em troca de uma prova da nossa boa-fé.

    - Qual, majestade? - Perguntou o sumo-sacerdote.

    - Salomão conhece as nossas tradições e sabe que só um casamento pode selar um pacto de paz.

    Os três confidentes de Siamão estavam aterrados. O que Siamão deixava subentender era impossível.

    - Sua Majestade não pensa em... Dar a sua filha a um hebreu?

    - É o único meio de convencer Salomão de que detestamos a guerra tanto como ele. Como vós, sei que nunca a filha de um faraó desposou um estrangeiro, mas devemos ser lúcidos. O Egito está a enfraquecer. O Egito não suportaria o peso de vários conflitos. A nossa aliança com Israel garantirá a nossa segurança no Nordeste. Poderemos consagrar-nos assim à nossa fronteira do Oeste.

    A análise do faraó era justa. O general não tinha nenhum argumento para lhe opor.

    - Israel não tem nem a pedra, nem a madeira, nem o ouro indispensáveis à construção de um grande templo - afirmou o ritualista. Siamão irá fornecer-lhos?

    - Seria um erro - respondeu Siamão. - Isso tornaria Salomão demasiado dependente do Egito. Não aceitaria. Agiremos de maneira disfarçada. Salomão será obrigado a dirigir-se ao rei de Tiro.

    - Ele não nos pode recusar nada - reconheceu o general.

    - Além de ser um aliado seguro contra os ataques dos nómadas

    - disse o faraó - Israel será um parceiro econômico importante que nos permitirá aceder às estradas comerciais que não controlamos.

    A aliança com Salomão, após a devida análise, parecia só apresentar vantagens. No entanto, o faraó continuava preocupado.

    Ainda subsiste algum obstáculo? perguntou o sumo-sacerdote.

    Sim, e um obstáculo dos maiores respondeu Siamão. Temos de conhecer os mistérios que Salomão encerrará no seu templo.

     

    Para isso será necessário que um egípcio aceite converter-se à religião de Jeová objectou o ritualista. Mas isso, majestade, não o podeis exigir.

    Não me tornarei culpado de tal falta prometeu o faraó. Há outro material, um material humano, que falta a Salomão: o mestre-de-obras capaz de construir o seu templo. O arquitecto que irá erigir o santuário de Jeová será egípcio.

    A Casa da Vida do templo de Tanis conhecia uma agitação inabitual. De costume, o lugar era votado ao silêncio ao estudo e à meditação. Aí trabalhavam os que estudavam os hieróglifos ou criavam os rituais. Arquitetos, escultores médicos ou grandes administradores tinham passado um período mais ou menos longo nas oficinas da Casa da Vida para aí aprenderem a sua profissão.

    Eram poucos os iniciados que ficavam em permanência naquele lugar de transmissão da sabedoria dos antigos. O mundo exterior não lhes pareceria apresentar nenhum fator de atração. Tinham escolhido dedicar a vida ao sagrado, deixando de se preocupar com assuntos humanos. Por essa razão, ficaram espantados ao ver aparecer, ao cair da noite, o senhor do Egito, Siamão em pessoa.

    O rei tinha sido aluno do sábio que dirigia a Casa da Vida. Este, assim que o viu, levou o soberano para uma sala com colunas e bancos de pedra a toda a volta. Estavam aí sentados uma dezena de iniciados.

    Se convoquei esta reunião disse o rei foi porque tinha necessidade de vos consultar. Israel tornou-se uma grande nação e é governada por um monarca excepcional: Salomão. Este último deseja construir um templo à glória de Jeová, mas nenhum arquitecto hebreu é capaz de o fazer.

    Que interessa isso? opinou um iniciado. Israel é nosso adversário.

    - Era - retificou o faraó. - Salomão quer pôr fim à rivalidade que nos opõe.

    - Desconfiai dos Hebreus - recomendou outro iniciado. - São pérfidos.

    - Salomão deseja a paz. Ajudemo-lo.

    - De que maneira?

     

    - Enviando-lhe um arquitecto que seja capaz de construir o templo de Jeová - respondeu o faraó.

    - Isso é impossível. Os nossos segredos devem ficar no Egito.

    - Nada será desvendado - afirmou Siamão. - Ficarão escondidos na construção. A forma será a que Salomão quiser.

    O chefe da Casa da Vida dirigiu-se ao faraó.

    - Visto que a vossa decisão já está tomada, majestade, qual de nós escolhestes?

    Siamão, habituado a dominar as suas emoções, viu-se obrigado a recuperar o fôlego.

    - Horemeb, filho de Horus.

    Os olhares convergiram para um iniciado de cerca de trinta anos, de testa alta e sólida musculatura. Começara como aprendiz aos doze anos e passara a adolescência nos estaleiros de Karnak. Tendo-se tornado mestre-de-obras havia três anos, escolhera aprofundar a sua arte estudando os tratados de Imotep, o maior arquiteto de sempre, que estavam guardados nos arquivos da Casa da Vida.

    Horemeb não se expandia com facilidade. Não emitiu nenhum comentário.

    - Conheço o peso do sacrifício que te imponho - disse Siamão.

    - Deixar o Egito é uma provação que poucos de nós, por mais sabedores, seriam capazes de enfrentar. Se julgares que a minha decisão é injusta, podes recusar-te a segui-la.

    Horemeb inclinou-se diante do faraó. O chefe da Casa da Vida levantou-se.

    - O rei e eu próprio tivemos demorada conversa antes de adoptar a posição que hoje partilhamos. Talvez nos enganemos. Talvez Salomão e os Hebreus calem a paixão que sentem pela guerra. Não é certo que o nosso arquitecto seja bem sucedido, mas, se conseguir edificar o templo de Jerusalém, a sabedoria dos nossos antepassados será transmitida a outra nação, que por sua vez a transmitirá às gerações futuras. Esse feito repousará sobre os ombros de um só homem. Deixemo-lo sozinho para que possa meditar e preparar-se.

    Siamão foi o último a sair da sala do Conselho. Mas antes, voltou-se para Horemeb, que permanecia imóvel.

    Esta noite anunciou partimos para Mênfis.

    Na noite clara, a grande pirâmide do rei Quéops surgia como uma imensa montanha, cujo revestimento de calcário branco brilhava nas trevas.

    Siamão e o mestre-de-obras penetraram no seu interior depois de percorrerem as passagens silenciosas da parte superior do templo. Horemeb conhecia os planos do prodigioso edifício, que nenhum construtor jamais igualaria. O faraó ordenou-lhe que descesse à sala subterrânea e trouxesse os objectos rituais que lá tinham sido depositados muitos séculos antes.

    O mestre-de-obras acocorou-se e deslizou pela estreita conduta de granito que conduzia às entranhas da terra.

    Quando voltou a subir, munido do seu precioso fardo, Siamão deu-lhe um abraço.

    A partir de agora disse chamar-te-ás Hirão.

     

    Nagsara, a filha do faraó Siamão, estava aterrorizada. Com dezassete anos, nunca abandonara o Egito nem a corte, onde tinha vivido num doce luxo, longe do mundo exterior e das suas vis realidades. Não estando destinada a reinar, Nagsara gozara da cultura que era oferecida às damas da alta sociedade: poesia, dança, música, participação nos ritos da deusa Hátor, serviço no templo, passeios no campo e através do Nilo, banquetes sumptuosos. A adolescência da filha do faraó desenrolava-se num encantamento de prazeres e de festas. Quando o decidisse, Nagsara desposaria o homem por quem se tivesse apaixonado e presenteá-lo-ia com dois filhos, um rapaz e uma rapariga. A seguir, os dias felizes sucederiam aos dias felizes, escoando-se ao ritmo das estações sob a protecção do Sol divino.

    Os sonhos de felicidade da jovem princesa tinham sofrido uma quebra brutal quando o pai a chamara ao palácio do modo mais oficial e lhe comunicara, em presença dos conselheiros, a decisão que tomara: a fim de servir os interesses do Egito, Nagsara partiria para Jerusalém, onde se tornaria esposa do rei Salomão, selando assim o pacto que inauguraria uma era de paz e de amizade.

    Muito perturbada, a jovem nem sequer teve forças para lembrar que tal prática era contrária à tradição e que ela seria a primeira filha de um faraó a ser dada em casamento a um estrangeiro.

    Nagsara soluçou durante um dia inteiro. Pensou em saltar para o vazio, do alto do palácio. Não o fez porque o suicídio era apanágio dos condenados à morte. Nenhum ser humano tinha o direito de se suprimir a si mesmo, sob pena de destruir a sua alma e de ser incapaz de atravessar as portas do Além.

    Até à partida, Nagsara viveu numa bruma parecida com a que invadia as ruas de Tanis nas manhãs de Inverno e só se dissipava à hora em que o Sol triunfava. Mas o coração da filha do faraó, prisioneiro de uma noite gélida, perdera o caminho da luz.

    De costume tão risonha, tinha um rosto triste e fatigado. Languescia. Deixara-se maquilhar e vestir sem reagir. A sua cabeleireira chorava, pois embelezara os traços ainda infantis de Nagsara, mas sem os alegrar. A peruca de tranças, perfumada com jasmim, era uma obra de arte. Os negros olhos da princesa, os seus lábios sublinhados, as maçãs do rosto ornadas com um toque de cor de laranja e as longas pestanas davam-lhe um encanto ímpar. Mas para quê tornar sedutora uma mulher condenada à pior das penas, ao exílio?

    Desde que partira de Tanis que Nagsara mantinha os olhos fechados, esperando ser conduzida ao mundo dos deuses por esse falso sono. Quando voltou a abrir os olhos, foi para descobrir a estrada com pavimento de basalto que levava a Jerusalém e sobre a qual se deslocava o seu carro puxado por cavalos empenachados. Seguia-a uma fila de veículos carregados de presentes destinados a Salomão. A princesa era protegida por uma tropa bem treinada e levava consigo numerosa criadagem, encarregada de satisfazer os seus menores desejos. Mas que desejo poderia formular a filha de um faraó prometida a um rei estrangeiro, que temia mais do que um demônio da noite?

    Neste início de Inverno, o céu tinha uma cor cinzenta inquietante. O cortejo enfrentara a chuva e o vento, depois de ter deixado as claras auroras e os poentes dourados do Egito.

    Um cheiro a peixe agrediu as narinas de Nagsara. Era dia de mercado na capital de Israel. As vielas cheiravam mal. Eram tão estreitas que o carro passava com dificuldade. Nagsara lançou um grito de terror quando uma dúzia de mendigos, excitando-se uns aos outros, se agarraram às grades de madeira que serviam de janelas. Vestidos com andrajos, gritando injúrias e estendendo as mãos sujas, queriam tocar a bela egípcia, vinda de um país lendário. Os arqueiros afastaram-nos com brutalidade. Fugiram, espezinhando um leproso que não conseguira escapar com suficiente rapidez.

    Os soldados tentavam em vão fazer respeitar um mínimo de ordem entre as casas dos ricos, cobertas de telhas, e as dos pobres, com telhados de cana e terra batida. A excitação atingia o máximo. A multidão manifestava uma alegria ruidosa, estupefacta por constatar que o rumor não era falso: uma filha de faraó vinha oferecer-se ao rei de Israel!

    Ao contrário do que acontecia em Tebas ou em Mênfis não havia ali nem rua ou grande avenida, mas, sim, uma sucessão de pequenas artérias imbricadas. Algumas delas possuíam degraus para facilitar a ascensão dos burros carregados com alimentos. Nagsara teve a impressão de entrar num mundo fechado, sufocante, onde se sentiria prisioneira para sempre.

    Da sua vista desapareceriam os jardins que precediam as nobres moradas egípcias, as árvores e as moitas floridas, assim como as construções em madeira, cobertas de folhagens, sob as quais se tomava ar fresco.

    A progressão do carro foi interrompida pela passagem de gansos e de galinhas que tinham escapado de uma quinta situada em pleno centro da capital. O incidente não provocou um único sorriso a Nagsara, mas os seus nervos acalmaram-se um pouco devido a um perfume conhecido: o das flores de um jasmim gigante que ornamentava as paredes de um pequeno pátio onde se amontoavam utensílios de cobre. Nesta estação do ano, era um milagre. A jovem adorava aquele cheiro, que lhe lembrava os jogos de criança perto do lago do palácio.

    Ao fim de pouco tempo, aquele maravilhoso cheiro foi suplantado pela pestilência emanada por fumos negros. Donas de casa queimavam detritos e excrementos e outras coziam carne ou peixe. A brutalidade dos cheiros de Israel dissipou depressa o instante de sonho.

    De repente, Nagsara mordeu o pulso quase até fazer sangue, mas tomou logo consciência de que se portava como uma desmiolada, indigna da sua posição. Revoltou-se a pensar que uma filha de faraó podia aparecer naquele estado diante do rei de Israel. A confusão de casas e a falta de espaço não deviam fazer-lhe esquecer que estava a entrar na capital de um poderoso Estado, governado por um monarca de renome cada vez maior. Naquela região, Nagsara representava o Egito, tornando-se herdeira e responsável pela nobreza do seu país.

     

    O cortejo foi obrigado a parar ao pé de uma caldeiraria. Os operários tinham ocupado a via com os utensílios. Batiam o metal com os martelos, dando forma aos caldeiros. Apostrofados pelos soldados, desimpediram a passagem contrariados. Um carregador de água aproximou-se então do carro.

    - Beba, minha princesa! Veja como está fresca!

    Nagsara aceitou. Em troca do odre, deu uma taça de prata ao comerciante.

    O carregador de água agitou no ar o seu magnífico troféu e gabou a bondade da egípcia que levava a riqueza aos pobres diabos. Nagsara acabava de conquistar o coração de um bairro de Jerusalém. Apesar do desespero que a corroía, tomou a decisão de deixar de se portar como uma jovem languescente.

     

    Nagsara compareceria em breve diante de Salomão, cuja beleza e inteligência lhe tinham gabado.

    Não o iria decepcionar.

    Ao fim de duas horas de esforços pacientes e atentos, os servos do sumo-sacerdote, Sadoc, tinham acabado de vestir o seu amo com as roupas rituais. Com os cantos da barba por cortar, como exigia a tradição, Sadoc trazia na cabeça um turbante de faixas violetas coberto por uma tiara de ouro sobre a qual se lia uma inscrição: ”Glória a Jeová”. Por cima da túnica de linho, trazia uma sobrepeliz violeta ornada com romãs, entre as quais se viam pequenos sinos de ouro, cujo som agudo afastava as forças demoníacas. Por cima, vestia uma peça única, o efod, tecido com fios dourados e carmesins, fixado aos ombros do sumo-sacerdote por fivelas douradas fechadas por duas pedras de ónix. Ao efod estava preso o famoso peitoral de doze pedras preciosas simbolizando as doze tribos de Israel: topázio, esmeralda, safira, jaspe, ametista, ágata, rubi e sardónica. Junto ao peitoral, pendia um pequeno saco contendo dois dados. Ao lançá-los, o sumo-sacerdote revelava os números utilizados por Deus para construir o mundo.

    O magro Sadoc assim vestido, suscitava uma admiração próxima do receio. Precedido por dois sacerdotes, foi introduzido na sala do trono, onde o esperava Salomão.

    Por que razão pediste esta audiência, Sadoc? Não devias estar a vigiar os preparativos do meu casamento?

    Altivo, o sumo-sacerdote respondeu num tom contundente.

    Essa união desagrada a Jeová, majestade. Porque não escolheis uma esposa de entre as vossas concubinas? A egípcia não partilha a nossa fé. Será uma má rainha e atrairá a infelicidade a Israel. Renunciai a esse casamento e não contrarieis o vosso povo. É Deus quem fala pela minha boca.

    O olhar de Salomão flamejou. O calor que se apoderava dele levava-o a esbofetear aquele religioso insolente que lhe devia obediência absoluta. Mas o rei dos Hebreus devia conservar o domínio de si mesmo em todas as circunstâncias.

    Se não fizer caso do que dizes, Sadoc, que acontecerá?

    Recusar-me-ei a celebrar esse ímpio casamento, majestade. Aparecerei ao povo e despojar-me-ei dos meus ornamentos rituais diante dos olhos dos crentes. Explicar-lhes-ei que o sumo-sacerdote de Jeová lançará assim a má sorte sobre a cabeça do rei e da egípcia.

    Sadoc com um trejeito dos lábios, ostentava um ar de triunfo. Salomão julgava ter nomeado um testa-de-ferro que executaria à letra as suas directivas. Apercebia-se agora de que o sumo-sacerdote exercia um poder bem real. Sadoc contava tornar-se uma personagem de enorme estatura, quase igualando o rei, que se veria obrigado a partir daquele momento a consultá-lo antes de cada decisão.

    Sadoc ficou surpreendido com a calma de Salomão. Esperava assistir a uma reacção violenta, que utilizaria em seu proveito estigmatizando a veemência de um monarca demasiado jovem. Este último, fraco ou razoável, não tentava sequer lutar.

    Pega nos dados, Sadoc.

    Nos dados, mas...

    Antes de os lançares sobre as lajes desta sala, prova-me que falas em nome de Deus, anunciando-me os números que irão sair.

    Trata-se duma lenda, senhor, nada mais, e...

    O cinco e o sete, Sadoc. O cinco que é o número do homem e o sete que é o da mulher. Se a minha previsão for justa, Deus abençoará o meu casamento com a filha do rei do Egito. Lança os dados, sacerdote.

    Primeiro hesitante, Sadoc tirou-os do saquinho de couro apertou-os na mão direita e a seguir lançou-os. Rolaram durante muito tempo, ressoando sobre a pedra.

    Salomão não se mexeu.

    Sadoc moveu-se em direção aos dados, fazendo tilintar os sinos de ouro do seu aparatoso traje. O canto metálico pareceu-lhe diabólico quando viu os números que o acaso tinha escolhido.

    Eram o cinco e o sete.

     

    Nagsara, a filha do faraó, tinha a certeza de ir ser acolhida com as honras devidas ao seu nascimento. A menor delas seria a presença do seu futuro esposo, o rei Salomão.

    Um homem volumoso, trazendo uma chave e um selo sobre um dos ombros, ajudou-a a descer quando o carro parou diante de um edifício cinzento, contíguo ao palácio.

    Sou o mordomo-real do palácio declarou com bonomia. Bem-vinda a Israel.

    Nagsara indignou-se.

    Onde está o rei?

    Virá em breve. Os preparativos do casamento retiveram-no.

    O que constitui uma grave injúria! Não faço parte do seu pessoal doméstico!

    O mordomo-real ficou impressionado com a virulência daquela mulher de baixa estatura e de medíocre beleza. Como supusera, a presença da filha do faraó na corte de Israel não tardaria a provocar conflitos e escândalos.

    Queira seguir-me, majestade. A minha função consiste em mostrar-vos os aposentos onde ireis viver.

    Nagsara olhou à sua volta. Os soldados egípcios eram poucos. A guarda de Salomão não teria nenhuma dificuldade em reprimir um esboço de revolta. A filha do faraó não tinha ao seu alcance nenhum meio de ripostar de imediato contra o desprezo de que era alvo.

    Seguiu, portanto, o mordomo-real do palácio. A sua decepção era enorme. Os aposentos de paredes rugosas onde foi introduzida eram menos luxuosos do que a mais modesta casa de Tebas. Não havia nenhum jardim interior, nenhuma saída de água, nem nenhuma sala com colunas. Eram divisões quadradas, sem elegância e sem nenhuma decoração. Eram indignas de uma alteza real. A cólera começava a crescer no peito de Nagsara quando ouviu risos. Duas raparigas, de vestidos curtos, afastando uma cortina, saíram de um quarto e passaram a correr diante da egípcia. Uma terceira mulher, mais velha, seguiu-as. Olhou para Nagsara com ironia, como se esta fosse um animal esquisito, e retirou-se logo para um quarto de onde emanavam vapores de especiarias.

    - Quem são elas?

    - As outras esposas de Salomão - respondeu o mordomo-real Dantes pertenciam ao seu pai, David. Tem cerca de vinte... São moabitas, edomitas, sidonianas e até hititas. A que se pôs a observar-vos é uma amonita. Vem da cidade de Amon, que controla a estrada que liga Jerusalém a Damasco. É uma importante posição estratégica. Além disso, esta esposa secundária ocupa um lugar proeminente. Infelizmente para ela, a sua idade... Salomão necessita de uma nova rainha, muito jovem...

    - E serei eu quem...

    Nagsara não ousou terminar a sua frase. Aquele rei monstruoso teria decidido fazer dela sua escrava e submetê-la aos seus mais baixos instintos? O faraó tinha previsto um casamento diplomático, que se traduziria numa existência de reclusa. Tão miserável destino chegava a parecer doce a Nagsara quando ela o comparava com o que conseguia adivinhar agora.

    - Recuso-me a transformar-me na cadela do vosso rei - anunciou ao mordomo-real do palácio. - Se me tocar, será o princípio da guerra. Meu pai nunca aceitará que me tratem assim. Não residirei aqui na companhia daquelas horríveis mulheres.

    - Majestade...

    - Proíbo-vos de me dirigir a palavra. Salomão é um ser indigno. No Egito, seríeis menos do que um pescador do Delta. Não sairei mais do meu carro.

    Nagsara dirigiu-se ao veículo. Apenas pôde dar alguns passos. Salomão, que assistira à chegada da filha do faraó, encontrava-se à entrada.

    Sorria com serenidade. Nagsara contemplou-o. Os olhos azuis do rei de Israel eram como os de um encantador de almas. Sob os seus traços juvenis, transparecia uma estranha maturidade.

     

    Perdoai o meu atraso implorou ele numa voz quente. A falta de cortesia é inaceitável num rei. Poderia explicar-vos que tive de enfrentar o sumo-sacerdote, que se opunha ao nosso casamento, mas não creio que vos convenceria.

    Um grande rei não depende de nenhum do seus vassalos retorquiu Nagsara e ainda menos de um sacerdote.

    Quisera ser ácida, mas os seus olhos desmentiam as suas palavras. Na verdade, só com dificuldade conseguira escapar ao fascínio que dela se apoderava. Salomão não era um animal brutal, mas um homem de uma maravilhosa beleza.

    Tendes razão reconheceu o monarca. Este lugar não é em nada conveniente à vossa nobreza. Mas Jerusalém não é nem Tanis nem Tebas. Tenho a intenção de tornar a minha capital magnífica. Conceder-me-eis alguma paciência? A fim de vos evitar o contato com as concubinas, ser-vos-ão reservados aposentos especiais.

    Nagsara teria querido protestar, afirmar com força que tais disposições se revelavam insuficientes, que era garante de um tratado de paz e não uma mulher qualquer que iria partilhar a cama de um rei estrangeiro, mas as palavras não atravessaram a fronteira dos seus lábios.

    Repousai, Nagsara, e preparai-vos para o grande banquete durante o qual celebraremos a nossa união.

    O preceptor Natão ensinara a Salomão o segredo do marfim que os elefantes fabricavam, o do mel que as abelhas preparavam, o da pérola engendrada pelas ostras e o do veneno das víboras. Ensinara-lhe o significado do voo dos falcões, a arte de escolher os frutos e o nome das estrelas a quem ele enviava beijos para lhes agradecer por brilharem. Ao Sol oferecia o óleo santo, e a Lua oferecia perfume. Lançara pedras preciosas no mar para que as brilhantes ondas resplandecessem ainda mais. Natão mostrara a Salomão como afastar os fantasmas e os demônios batendo com um pau de aveleira nas peles de animais felinos Do mestre, tinha o discípulo recebido o conhecimento do galo anunciando o nascimento da luz, o da andorinha mensageira da chuva benfazeja, o do mocho capaz de discernir a claridade no meio das trevas e o do grou que ritma as estações. Salomão partilhara o mistério da águia capaz de olhar de frente para o Sol.

    Quando estas ciências já tinham penetrado no espírito e no sangue do jovem, Natão transmitiu-lhe os meios de conhecer o futuro. Não lhe ensinou a má adivinhação, que é apanágio dos desacreditados, mas, sim, a astrologia, que é a arte dos reis desde os tempos mais antigos.

    Salomão traçou um zodíaco na areia. Ao observar o céu nocturno, reconheceu nele os planetas e inscreveu a sua posição nos signos. Só o rei tinha o direito de conhecer o futuro e, ainda assim, não para si próprio mas para a comunidade de seres que tinha a seu cargo. Salomão leu o tema astrológico daquele dia que vira a filha de um faraó chegar a Jerusalém e abrir uma era nova que nunca David nem os seus predecessores tinham podido imaginar. Depois, evocou um futuro longínquo, pedindo ao céu a visão de dias mais afastados.

    As respostas foram equívocas. Nunca lhe tinham parecido assim complicadas. Formavam uma rede tão inextricável como a das ruas de Jerusalém. Anunciariam a felicidade ou a desgraça, a vitória ou insucesso? Se o zodíaco e os astros se recusavam a falar, cabia ao próprio Salomão tomar as iniciativas que lhe aprouvesse e não recuar perante nenhum perigo.

    Ao apagar o traçado, o rei de Israel teve a impressão de se estar a privar de uma ajuda preciosa. Tal como o marinheiro que se embrenha na tempestade, apenas podia fiar-se na sua intuição a fim de evitar os obstáculos.

    Salomão abandonara a terra da ilusão. O seu casamento iria perturbar a alma do seu povo. Tinha jogado o jogo do senhor das nuvens, ao lançar os dados. Mas um homem, mesmo sendo rei, poderia conhecer-lhe as regras?

     

     

     

    Os Hebreus cheiram mal disse a princesa Nagsara à sua cabeleireira. Queima incenso e mirra. Exijo que esta miserável morada seja constantemente perfumada.

    As servas da filha do faraó estavam a trabalhar sem descanso desde as primeiras horas da madrugada para prepararem a sua senhora para o banquete da noite, durante o qual se celebraria o casamento de Estado. A cabeleireira tinha dado volume aos cabelos finos de Nagsara com um pente de ouro e ela mirava-se sem cessar num espelho de cobre cuja superfície fora polida com perfeição

    Apesar dos conselhos comedidos do mordomo-real do palácio, Nagsara recusara-se a fazer a mínima concessão à moda judia. Vestir-se-ia à egípcia e apareceria no esplendor de uma rainha originária da mais antiga e mais respeitada das civilizações Do mesmo modo, antes de deixar os seus aposentos para se dirigir ao palácio, mandara que lhe colocassem sobre a cabeça um cone de essências perfumadas que se iriam depositar durante toda a noite na sua cabeleira. Por prudência, colocara um minúsculo vaporizador de pele na sua sandália, o que lhe permitiria libertar delicados cheiros com uma simples pressão do dedo do pé.

    Nervosa, a princesa examinou uma vez mais o penteado, achando que estava pouco frisado A maquilhagem também já não lhe agradava. Tanto a cabeleireira como a maquilhadora tiveram de se pôr de novo ao trabalho, manipulando espátulas, pentes e colheres de cremes. Afinaram-lhe o desenho dos lábios, sublinharam mais a linha das sobrancelhas com uma pasta azul-negra, azularam-lhe as pestanas e pintaram-lhe as unhas das mãos e dos pés de vermelho.

    Finalmente satisfeita, Nagsara aceitou o vestido de linho que lhe fora oferecido pelas tecedeiras de Tanis antes da partida. Deitou sobre os ombros uma estola de lã por causa da frescura da noite

    Salomão enviara-lhe alguns soldados da sua guarda pessoal, que Banaías comandava, e um carro de madeira dourada com um assento confortável e coberto por um pálio. O rei mandara abater duas paredes no interior do palácio, criando assim um espaço muito amplo onde tinham sido colocadas mesas baixas.

    O soberano recebeu os convidados um a um, dando-lhes o beijo da paz e lavando-lhes os pés. Sentaram-se no lugar que lhes fora indicado pelo mordomo-real, sentando-se uns com as pernas cruzadas em cima de almofadas e outros em cadeiras de madeira. No meio da sala aparecia, isolada e soberba, a mesa de honra, cujos dourados brilhavam e refletiam a luz das grandes tochas.

    Cozinheiros, escanções e saquiteiros tinham trabalhado com ardor para que o banquete fosse evocado como o mais suntuoso da história de Israel. Sobre as toalhas de cor estavam dispostas louças e taças de prata assim como colheres de marfim e de madeira. Nas travessas de barro viam-se alcaparras, hortelã-pimenta, rosmaninho, alho, cebolas, coentros e açafrão. Ninguém ousava tocar nestes acepipes. Todos tinham os olhos postos na sala de acesso ao salão das festividades.

    Nagsara, a filha do faraó Siamão, apareceu. A futura rainha de Israel pôs a ridículo as mulheres dos cortesãos com a magnificência do seu vestido de linho e das suas jóias de ouro. Assim penetrava em Jerusalém a beleza lendária do Egito, reduzindo-a de modo brutal à posição de pequena cidade de província.

    Através daquela mulher que despertava já invejas e cobiças, Salomão só via a paz que salvaria milhares de vidas. Nagsara apercebeu-se da frieza daquele que viria a ser seu esposo. O rei de Israel, vestido com uma túnica vermelha e azul bordada a fio de ouro, olhava-a sem ternura. Os seus pensamentos concentravam-se na ideia da aliança dos dois países e não no amor de uma jovem princesa.

    O poderoso soberano de Israel dignar-se-á escutar a voz do meu país? perguntou ela com doçura Os cantos e as danças lembrar-me-ão a terra em que nasci. Dissiparão também as minhas mágoas e espalharão a alegria nos nossos corações, fazendo-me esquecer que abandonei para sempre a minha família.

    Entraram tocadores de harpa, de alaúde e de tamboril, seguidos por bailarinas vestidas com uma simples tanga de fibras vegetais que se levantavam a cada um dos seus movimentos. Os movimentos cadenciados seguiam o ritmo enfeitiçador da orquestra. Os convivas, espantados com tanta audácia, não conseguiam afastar os olhos dos pequenos seios nem das ágeis pernas. Uma música suave começava a seduzir os ouvidos quando Salomão, pegando nas mãos da princesa, a convidou a sentar-se perto dele.

    Mandar-vos-ei construir uma bela morada no recinto do templo murmurou.

    Quando ficará pronta?

    Salomão não respondeu, fingindo admirar os movimentos das bailarinas. Nagsara, furiosa consigo mesma, mordeu os lábios. A sua pergunta idiota importunara o homem que começava a desejar conquistar. Seu pai, o faraó Siamão, contra o qual ela alimentara um sentimento de revolta, não lhe tinha afinal reservado um destino nefasto. Será que lhe saberia agradecer por lhe ter permitido viver aqueles momentos em que se tornaria na esposa de um monarca tão sedutor? Seria o amor, o êxtase que fazia desaparecer todos os seres com exceção de um único?

    Foram servidos uma gorda vitela, pombos, perdizes, codornizes assadas em carvão e, manjar dos manjares, um anho de leite em folhas de vinha. Mais delicados ainda eram os gafanhotos cozidos em água e sal a que os cozinheiros tinham tirado as patas e a cabeça depois de os terem secado ao sol. Uma parte tinha sido confeita em mel. Os escanções não paravam de encher as taças com um vinho rosado.

    Já quase no fim das festividades, o mordomo-real exigiu silêncio. Salomão pegou na mão de Nagsara. O arauto proclamou o casamento, selando assim o tratado de paz e de amizade que unia o Egito e Israel e os tornava aliados contra qualquer agressor eventual. O acontecimento foi saudado por aclamações. As ágapes continuaram ainda mais barulhentas e desenfreadas.

    Salomão retirara a sua mão, surpreendendo Nagsara.

    Não somos já marido e mulher, meu senhor?

    - A lei dos reis assim o estabelece. Mas como vos poderia obrigar a amar-me?

    - Nunca nenhuma mulher do Egito viveu sob a sujeição.

    Nagsara lamentou de imediato ter proferido tão vivas palavras. Comportava-se como um ser selvagem, indomável, quando no fundo desejaria manifestar a sua confiança. Que gênio mau estaria a obrigá-la a trair-se a si mesma daquela maneira?

    Salomão voltou a pegar na mão da sua esposa. O doce contato dos seus dedos fez estremecer Nagsara.

    - Tu, rainha de Israel - aconselhou - deves lembrar-te de que o sopro da nossa existência não passa de fumo que se dissipa no céu. Quando esse fumo desaparece, o nosso corpo reduz-se a cinzas e o nosso espírito desvanece-se como o ar mais leve. A nossa vida passará como o sulco de uma nuvem ou como o traçado invisível de uma sombra. Os nossos pensamentos não terão passado de fagulhas que brotam a cada batida do coração. Goza o instante e pensa apenas nele. Que interessa a miséria e a velhice? Aqui, não passam de ilusão. O vinho que te ofereço é o mensageiro do Sol que o amadureceu. Deixa-o deslizar pelas tuas veias e ser a luz que ilumina os teus gestos.

    Nagsara aceitou a taça que Salomão lhe estendia. Depois de ter bebido com deleite, apresentou-lha. Quando ele a levou aos lábios, experimentou um sentimento de comunhão. Com uma ligeira pressão do pé, libertou o perfume que escondera na sandália. Este formou um véu invisível entre o casal e os outros convivas.

    Nagsara estava só e sentia uma cruel desilusão. No fim do banquete, os seus servos tinham-na acompanhado até aos seus aposentos. Salomão ficara em companhia dos seus hóspedes. Não restam dúvidas de que fora acabar a noite na cama de uma das suas numerosas concubinas. O seu amor nascente fora esbofeteado. Em conseqüência, restava-lhe abafar o sentimento que sentia já e, caso aquele monstro tentasse aproximar-se dela, afastá-lo-ia com todo o vigor.

     

    Quando a cabeleireira anunciou a vinda do rei de Israel, Nagsara, desdenhando o protocolo, recusou-se a recebê-lo.

    Salomão forçou a porta da sua esposa.

    Furiosa, postou-se diante dele.

    Abandonai de imediato a minha casa! Ordenou.

    A vossa casa é também minha disse Salomão, com calma, enquanto apertava os pulsos de Nagsara, que tentava em vão bater-lhe.

    Parti, peço-vos!

    Com certeza, terna esposa, mas não sem vós. Tenho tantas maravilhas para vos mostrar. O nosso carro está pronto. Eu próprio o conduzirei.

    Quero ficar aqui.

    A agressividade de Nagsara começava a enfraquecer. O contacto de Salomão encantava-a. Resistia mal ao estranho calor que a invadia.

    Deixai-me só implorou.

    Porque me afastais?

    Porque vos detesto!

    Nagsara escapou às mãos de Salomão.

    Insultastes-me! Ridicularizaste-me! Tratais-me como se fosse uma das cadelas vossas concubinas! Fechai-me portanto neste palácio e abandonai-me.

    O rei pareceu surpreendido.

    Não compreendo, Nagsara. Cometi faltas assim tão graves? A princesa, amuada, voltou-se.

    A vossa ausência, esta noite...

    Foi então isso... Foi o protocolo, bela Nagsara, foi apenas o protocolo! Não tive escolha, mas os meus pensamentos estavam perto de vós. Ou ousais duvidar?

    As últimas resistências da egípcia tinham sido vencidas. Aceitou o braço de Salomão.

    Mas... Mal estou vestida, eu...

    A rainha de Israel está muito bela assim mesmo. Não percamos mais tempo.

    Nagsara subiu para o carro, sentando-se ao lado do seu esposo. Quando ele a agarrou pela cintura, o seu corpo ficou rígido. A vitória dele fora demasiado fácil. Manipulava-a como se fosse uma dessas bonecas de trapos de que as crianças gostam muito. Salomão não insistiu, contentando-se em atá-la ao carro para que não caísse.

    O casal atravessou pequenas planícies alegradas por moitas de arbustos que dissimulavam tranquilas aldeias. Entre os pequenos vales cheios de amoreiras e as encostas pejadas de pessegueiros estendiam-se numerosas vinhas. Salomão parou perto de terraços que impediam o terreno de deslizar.

    Conduziu Nagsara em direção a um lago que dominava uma colina arborizada. Numa das margens, via-se uns pescadores a reparar as suas redes, manejando a agulha com habilidade. Anzóis de cobre repousavam no chão. A tarrafa, com lastro de chumbo, era uma grande rede que só os mais habilidosos sabiam lançar com um só gesto de cima de barcas largas que resistiam às correntes. Os homens cantavam. Tinham tido uma boa pesca e estavam a atirar para dentro de água os peixes impuros, os que não tinham barbatanas nem escamas. O patrão perguntou ao casal real se queria comer um lúcio que assavam ao calor de uma fogueira. Nagsara recusou, mas o alimento satisfez o seu esposo.

    Depois, puseram-se de novo a caminho, atravessando uma charneca odorífera onde abundavam as giestas e os acantos. Em cima dos ramos das mostardeiras, cujo grão os cozinheiros esmagavam para obter a mostarda, esvoaçavam pássaros. Nagsara, deixando pender a mão por cima da carroçaria, picou-se num cardo gigante. Salomão depôs um longo beijo na picadela.

    Assim que viu surgir o mar da Galileia, a jovem esposa esqueceu a dor. Não era senão um lagozinho em forma de harpa. Um bom nadador conseguiria atravessá-lo em menos duma hora. Mas a sua beleza era tal, que mesmo o olhar mais insensível se iluminava ao vê-lo. As suas águas, de um azul-safira, eram sulcadas por pequenas barcas dos pescadores que moravam nas casas brancas construídas no meio dos jasmins e dos loendros que ornamentavam as margens. As colinas, verdes-claras, protegiam-nos das brisas, que naquele lindo dia faziam dançar as flores.

    - Aqui - revelou Salomão - nada mudou desde o aparecimento do mundo e a paz reina. Foi depois de ter visto este mar tranquilo, com cores de eternidade, que desejei oferecê-la ao meu povo e ao vosso.

    Nagsara deixou de lutar contra si mesma.

    Invadiam-na as mesmas emoções que já a tinham aflorado se bem que ao de leve, nos jardins do Faium, nas bordas dos lagos em cujas águas vogavam jovens príncipes de corpos perfeitos.

    Pousou a cabeça no ombro de Salomão. Sentindo-a abandonar-se, ele permaneceu imóvel por muito tempo antes de a enlaçar e de lhe oferecer o primeiro beijo.

    O olhar de Nagsara tinha mudado. Chorava e ria ao mesmo tempo. Nela morria o passado, apagado pela brisa que encrespava o curso do Jordão para onde o rei a conduzia. Guiou a esposa por um atalho que ladeava pântanos, depois subiram por entre blocos de basalto antes de se embrenharem numa paisagem de ribanceiras escarpadas e espessas moitas.

    Nagsara não ousou interrogar Salomão sobre o objetivo daquela saída. Sentia prazer em deixar-se guiar por quem a tinha enfeitiçado.

    Caindo do alto de uma falésia sobre uma ilhota povoada de íbis, brotava uma cascata que espalhava um som cristalino no ar agradável. O mundo tornava-se num sonho límpido mais suave do que o mel. Loendros fechavam o caminho. Salomão afastou os ramos deixando a descoberto um curioso charco de águas agitadas. Uma cegonha voou de uma colina. Nagsara teve um movimento de recuo ao pôr o pé numa terra mole e húmida de onde saíam juncos e papiros. Mas logo os seus pés foram acariciados por um líquido tépido.

    São nascentes quentes explicou Salomão. São as mais secretas de Israel. Vinde banhar-vos nelas. Apagarão a vossa fadiga.

    O rei tirou o vestido da princesa antes de se despir. A seguir, com os lábios sobre os dela, tomou-a nos braços e embrenhou-se com ela no coração das nascentes. Com os corpos, que o poente dourava, massajeados pela deliciosa efervescência, o rei e a rainha amaram-se na embriaguez do seu desejo.

     

    O sonho não se desvaneceu. Nagsara não se afastava de Salomão e este tinha esquecido as concubinas. A nova rainha de Israel tinha conquistado a corte com a sua distinção e elegância, se bem que a inveja que as senhoras da nobreza nutriam pela estrangeira não se tivesse atenuado. O rei, atento aos entusiasmos da sua jovem esposa, tinha entregado os assuntos correntes ao seu secretário e ao mordomo-real do palácio.

    Os dois homens não se apreciavam. De tanto se lançarem armadilhas, um dia rebentou um conflito aberto que exigiu a presença de Salomão.

    Quando este último se sentou no trono, depois de mais um dia de amor passado nas nascentes quentes, recusou-se a ouvir as recriminações dos dois dignitários. Foi então que tomou consciência de uma evidência: tinha capacidade diplomática excepcional, mas esquecia a sua missão nos jogos do amor.

    Salomão mandou embora o mordomo-real, mas conservou o secretário junto de si.

    Já estabeleceste o inventário das riquezas acumuladas pelo meu pai, Eliap?

    Já, meu senhor.

    São suficientes para financiar a construção de um grande templo?

    É claro que não.

    Existe algum arquitcto hebreu capaz de fazer um novo projeto e de organizar as obras?

    Bem sabeis que não, senhor. Temos falta de materiais de qualidade e de madeira de cedro. Os nossos carpinteiros e os cortadores de pedra são em número insuficiente e não têm experiência. Renunciai ao templo. Um fracasso empalideceria a glória de que beneficiais graças à vossa aliança com o Egito.

     

    Renunciai... A palavra causava horror a Salomão. Perdera toda a dignidade ao esquecer o templo. O corpo adorável de Nagsara e o orgulho de ter desposado uma filha de faraó tinham-no levado a negligenciar os deveres. Como tinha podido o filho de David comportar-se de maneira tão desprezível?

    O templo seria a garantia da união de Israel com Deus, isto é, da união da terra com o céu. Só ele tornaria duradouro o acordo com o Egito. Seria o lugar de paz que nenhuma barbárie ousaria destruir. Salomão não se contentaria com uma felicidade humana.

    Renunciar... seria destruir-se a si mesmo e aceitar uma morte horrível que lhe roeria o coração. Mas como conseguir, senão tornando Israel mais rico, e transformando um pequeno país numa potência comercial e encontrando algures os homens e os materiais de que necessitava?

    Salomão venceria aquele desafio impossível, nem que tivesse de partir para esse combate com menos possibilidades do que as que David tivera diante de Golias.

    A quem é que o meu pai comprou os metais preciosos que escondeu?

    Ao rei de Tiro respondeu Eliap.

    Manda preparar um navio. Parto amanhã mesmo para Tiro.

    Ao precipitar-se para a grande metrópole marítima, capital econômica da antiga Fenícia e situada a oeste do lago Méron e a sul de Biblp, Salomão tinha desrespeitado o costume que exigia que dois monarcas trocassem cartas e embaixadores antes de se encontrarem.

    O rei de Tiro, um homem prudente e astucioso, de cerca de sessenta anos, era tido como temível negociador. A prosperidade da sua cidade repousava no comércio e na hábil exploração das riquezas naturais que a região concentrava.

    Tiro era protegida por uma boa deusa, herdeira da sorridente Hátor egípcia que velava pelos marinheiros e pelos respectivos navios. O comandante que lhe oferecesse um sacrifício antes de ir para o alto mar tinha a certeza de escapar à cólera do mar e de chegar a bom porto. Apesar de a sua mãe ser uma israelita da tribo de Neftali, o rei de Tiro recusara-se a converter-se à religião de Jeová, que achava intolerante e belicosa. Isso não o impedira, é certo, de vender madeira de cedro a David para a construção do templo, projecto israelita que ele depressa abandonara. Salomão não se apressara a reanimar as relações com a Fenícia. Preparar-se-ia para invadir uma região tão próxima de Israel, depois de ter assinado uma aliança com o Egito?

    Quando a chegada de Salomão foi anunciada, o rei de Tiro constatou que o general do faraó Siamão que acabava de deixar o palácio não se tinha enganado ao prever para breve uma intervenção do monarca hebreu. O Egipto ditara ao fenício a conduta a observar, garantindo-lhe protecção em troca da mais perfeita obediência. O que fora pedido ao rei de Tiro não lhe manchava a honra. Assim, observaria as instruções recebidas, a fim de se não pôr em maus lençóis com o império das margens do Nilo.

    Salomão apresentava-se sozinho, sem navios de guerra, sem forças armadas e sem cortejo de servos. Atitude astuciosa, achou o fenício. Era uma maneira de se colocar sob a proteção do seu anfitrião que deveria assim velar por ele como se se tratasse de uma pessoa sagrada.

    O hebreu justificaria na verdade a reputação que o precedia? Não afirmavam os poetas que ele conhecia a linguagem do cedro e do hissopo, a dos pássaros do céu e a dos animais dos campos, assim como a das criaturas rastejantes e a das que nadavam nas águas? Não estariam a exagerar a sabedoria de um monarca tão jovem?

    O palácio do rei de Tiro fora construído com espessos blocos em cima de um promontório que dominava o porto, onde se erguiam muitos edifícios comerciais. As largas aberturas que possuía permitiam que o Sol lançasse os seus raios nas salas ornamentadas com mosaicos coloridos. A presença militar era fraca e discreta. Tiro afirmava-se como uma cidade aberta a todos e cuja neutralidade atribuía a todas as nações o direito de lá irem fazer comércio. Todos tinham interesse em preservar Tiro, e a sua frota, em deixar circular o ferro, a prata, o estanho e o chumbo e em aí, realizar frutuosas transações. Não era verdade que o porto fenício enriquecia os reis, fossem adversários ou não? Não eram os pilotos fenícios, possuidores de dons excepcionais, reclamados pelas marinhas mais ilustres? Mas isso não impedia que talvez Salomão, cujas ambições eram tão vastas como o oceano, tivesse decidido modificar tal situação em benefício do seu país.

    Salomão vinha apenas acompanhado pelo seu secretário, que se mantinha atrás dele e levava uma escrivaninha e um cálamo. O rei de Tiro recebeu-os no mais agradável terraço do seu palácio, que um suave sol de Inverno iluminava. Ofereceu-lhes vinho de palma e frutas cristalizadas.

    O encanto de Salomão depressa influenciou o espírito do rei de Tiro, apesar de este estar habituado a receber príncipes e monarcas. Ao rosto admirável, de uma espantosa serenidade, aliava-se uma voz inteligente e pausada. Devia ser difícil resistir a um mágico daqueles, pensou o fenício, ficando por isso ainda mais de sobreaviso. Possuindo um soberano daquela envergadura, não tentaria Israel estabelecer a supremacia sobre os Estados da região?

    - Não passo do neto de um camponês - declarou Salomão. - Israel é um país de camponeses que não conhecem nada dos perigos do mar. Os meus vassalos são pobres e os vossos são ricos. Não atingiu Tiro o apogeu da sua glória?

    O fenício ouviu o cumprimento com pouca atenção.

    - Não é verdade que depois do apogeu vem a queda? Eu entendia-me bem com David, o vosso pai. Depois das suas vitórias contra os Filisteus e os Moabitas, tratou-me como um aliado. E também essa a vossa intenção?

    - Não o revela a minha vinda?

    - O vosso império cresceu muito desde que subistes ao trono de Israel. Estende-se do Jordão até ao mar e, a oeste, atinge as águas do delta egípcio. A prosperidade e a tranquilidade de Tiro dependerão da vossa política.

    O fenício receou ter sido demasiado directo Aquele seu desafio não iria provocar uma reação de cólera? Salomão sorriu.

    - As vossas palavras enchem-me de alegria - disse. - A felicidade de Israel depende da vossa. Construiremos a nossa amizade numa paz sólida e duradoura.

    O rei de Tiro hesitou.

    - Gostaria de pôr à prova a vossa sabedoria.

    - À vontade.

    - Existe um ser vivo que não se pode mexer - disse o fenício. Só quando morre é que se mexe pela primeira vez. De que se trata?

    Salomão refletiu. Com um gesto que passou despercebido, fez rodar o anel de ouro que trazia no anelar da mão esquerda.

    - São as árvores - respondeu. - Vivas, não se deslocam. Cortadas aos bocados pelos lenhadores, morrem. Mas transformam-se em navios que se deslocam pelos mares.

    O rei de Tiro reconheceu a derrota.

    - Agradeço o vosso ensinamento - disse Salomão. - Ao fazerdes alusão ao vosso poder marítimo, acentuastes a fraqueza de Israel. É por essa razão que necessito da vossa ajuda.

    Enquanto o secretário tomava nota das intervenções dos dois soberanos, o fenício decidiu deixar-se conquistar pelo seu interlocutor. Acreditava no seu desejo de paz.

    - Corre o rumor de que tendes a intenção de construir um grande templo em Jerusalém.

    - É de fato essa a minha vontade - admitiu Salomão. - O meu pai fracassou. Eu consegui-lo-ei. Tenho a intenção de vos comprar muitos materiais, em particular metais, e madeira de cedro e de cipreste.

    - Que tendes a propor em troca?

    - Cereais, vinho, fruta, condimentos e mel.

    - Também necessitaria de trigo e de azeite - exigiu o rei de Tiro.

    - Acrescentarei a produção agrícola de vinte aldeias da Galileia. O fenício estava satisfeito. A transação era-lhe favorável.

     

    - Onde devo mandar entregar tudo o que pedis? Não dispondes de nenhum porto. As estradas são acidentadas.

    - Dentro de um ano existirá um porto - afirmou Salomão. - Associar-vos-ei aos benefícios que dele retirar, se observardes uma condição...

    - Qual?

    - Enviai-me cortadores de pedra e carpinteiros. Os melhores artesãos de todo o Oriente trabalham aqui em Tiro. Os Hebreus não conhecem os segredos técnicos para construir um templo do tipo do que eu imagino.

    - Que vantagens obterei com isso?

    - Ouro - respondeu Salomão.

    - Ouro - repetiu o rei de Tiro. - Isso significa que ireis exigir mais de mim.

    - Associar-me-eis ao tráfego marítimo. Graças à minha aliança com o Egito, posso garantir total segurança. Todos tiraremos vantagens deste acordo. A Fenícia não pode viver isolada.

    O rei de Tiro não precisou reflectir muito tempo. As ameaças latentes no discurso de Salomão não tinham nada de ilusório. A solução que ele propunha tinha tanto de razoável como de inevitável.

    - Negócio fechado, rei de Israel. A vossa reputação é bem justificada. Mas há ainda um pormenor... Que mestre-de-obras escolhestes para construir o vosso santuário?

    Salomão pareceu embaraçado.

    - Ando à procura - confessou. - Só que nenhum hebreu me parece qualificado para preencher uma função tão exigente.

    - Examinastes as paredes do meu palácio? Não foi obra fácil de realizar. Confiei-a a um jovem arquiteto que me muito satisfez e que abandonará. Tiro muito em breve.

    - Qual é o seu nome?

    - Mestre Hirão.

    - Enviai-mo - pediu Salomão.

    - Tentarei...

    - Porque essa reticência?

    - Porque mestre Hirão é um espírito independente e bastante sombrio cuja presença é desejada em numerosas capitais. Só dirige grandes obras, onde a sua arte se pode exprimir à vontade.

    Salomão estava intrigado.

    - Terá Jerusalém dimensão suficiente para o seu talento?

    - Ignoro-o - respondeu o rei de Tiro.

    - Tentai ser convincente - pediu Salomão. - Gostaria de conhecer esse homem.

    Assim que Salomão e o secretário partiram, o rei de Tiro mandou gravar uma placa dirigida ao faraó do Egito. Tinha cumprido a sua promessa e portanto podia reclamar a recompensa que lhe cabia por ter apanhado um peixe chamado Salomão.

    Nagsara maquilhou-se com um creme refrescante à base de folhas de alfena. Tinha pintado as unhas das mãos de amarelo dourado. Passava horas a vestir-se e a fazer-se bela para um rei que quase não via. A paixão de Salomão extinguira-se após o regresso de Tiro. Nagsara utilizara em vão as armas da sedução. O esposo, sem a prevenir, deixara Jerusalém e fora instalar-se numa casa medíocre situada na pitoresca Esiongaber, na extremidade do golfo elanítico, no mar Vermelho.

    Desejáveis ver-me, majestade? perguntou o mordomo real, inquieto.

    Onde está o meu marido?

    Em Esiongaber.

    Quanto tempo vai lá ficar? Esta ausência torna-se exasperante.

    O rei está a construir um porto explicou o mordomo-real, receando novo acesso de cólera por parte da egípcia. Que desejais para o jantar?

    Não tenho fome! gritou Nagsara.

    O mordomo-real eclipsou-se. A rainha atirou-se para cima da cama, chorando cálidas lágrimas.

    Do fundo da sua infelicidade, Nagsara jurou encontrar, de futuro, um meio para atrair a atenção de Salomão e para o manter junto dela.

     

    O vento vindo de África soprava com violência no porto de Esiongaber, impedindo a entrada dos navios de grande tonelagem e obrigando-os a ir fundear à distância. Os cabelos finos de Salomão esvoaçavam sob o efeito do vento desenfreado que levantava altas vagas.

    O rei de Israel estava satisfeito com o trabalho efetuado pelas equipas de operários colocadas sob a direção de Jeroboão, que ficara feliz por ter podido provar mais uma vez a sua competência. Tinham edificado uma cidade em cerca de setecentos hectares. Era certo que os materiais utilizados eram de medíocre qualidade e que as casas não tinham encanto nem conforto. No entanto, Israel possuía enfim um grande porto. Salomão, mesmo assim, não se iludia. Os Hebreus tinham medo do mar. Gostavam de sentir terra firme sob os pés. Nunca rivalizariam com os marinheiros fenícios nem nunca controlariam as estradas marítimas do Oriente e do Ocidente. Mas não era esse o objetivo. Atravessando as portas fortificadas de Esiongaber, protegida por muralhas de oito metros de altura, as caravanas começavam uma série de idas e vindas benéficas para a economia de Israel. Em breve desembarcariam os materiais comprados ao rei de Tiro. Esiongaber, escala para itinerários de África, da Arábia e da índia, atrairia muitos navios, que pagariam direitos de fundeagem.

    Estas medidas não chegariam para financiar a construção do templo. Salomão acariciava, entre o polegar e o indicador, uma pepita de ouro do tamanho de um caroço de azeitona. Existia uma grande quantidade delas, do tamanho de nêsperas e até do tamanho de grandes nozes, em terras de Ofir, a que os egípcios chamavam Pount e os Africanos Sabá. As suas montanhas eram ouro e o seu pó era prata. O povo trazia pulseiras nos pulsos e, no pescoço, colares de ouro tão puro que nem era necessário purificá-lo num cadinho. A rainha de Sabá, Balquis, era a mulher mais rica do mundo. Explorava minas de ouro vermelho, sem sinais de prata, de berilo ou de esmeraldas. Os Sabeus, famosos pelo seu caráter calmo, também vendiam ópio e especiarias. Tinham o costume de colocar uma mulher à sua cabeça, serva de um deus supremo. Salomão tinha necessidade do ouro de Sabá para pagar ao rei de Tiro e para construir o templo de Jerusalém. E como a terra das maravilhas só era acessível por mar, o rei de Israel tinha criado um porto, ordenado a construção de navios de mercadorias e obrigado os soldados dum corpo de infantaria a transformar-se em marinheiros.

    A frota de Salomão, carregada de azeite, vinho e trigo, estava pronta a partir para Sabá. Quando voltasse com o ouro vermelho, o jovem monarca saberia que a sua grande obra poderia ser levada a cabo.

    Eliap interrompeu a meditação de Salomão. O secretário, que não gostava nada de vento, foi obrigado a forçar a voz.

    Perdoai, majestade... Mas o mordomo-real do palácio deseja o vosso regresso imediato a Jerusalém.

    O que é que se passa?

    Há um motim acabou por dizer o secretário. O povo revoltou-se.

    Jarros de vinho jaziam, entornados, sobre peças de lã. Os talhantes brandiam facas e dilaceravam tecidos. Havia pedaços de carne no chão, pisados pelos que corriam em desordem para o bairro mais alto de Jerusalém. Mendigos aproveitavam a confusão para pilhar as bancadas dos peixeiros e roubar frutos no mercado. Os fabricantes de sapatos atiravam-nos à cabeça dos soldados da guarda, que, sob o comando de Banaías, impediam o acesso à ruela que subia até ao palácio. As mulheres e as crianças tinham-se refugiado nas casas.

    A multidão, furiosa, tinha atravessado a gritar a cerca de roseiras, que datava do tempo dos profetas. Os burros, enervados, davam saltos em todas as direções, deitando ao chão os seus carregamentos. Não havia uma única rua que não tivesse sido invadida por uma populaça desenfreada injuriando David e a sua linhagem.

    Com a ausência do rei, o general Banaías sentia-se perdido. Será que devia ordenar aos arqueiros que atirassem e desencadeassem uma guerra civil? Ver a ordem ser assim fustigada desesperava-o. Não, não entregaria a casa real àqueles bandidos. Mais valia morrer a combater.

    De repente, os cabecilhas voltaram-se. Acabava de se produzir um acontecimento imprevisto cujo impacto fazia estremecer as fileiras dos insurrectos. Desde a cidade baixa até à vizinhança do palácio, cessaram os gritos. Estabeleceu-se um pesado silêncio.

    Salomão, sozinho e sem guardas, atravessara a grande porta de acesso e subia em passo tranquilo ao longo das filas de revoltosos. Para muitos dos habitantes da capital era a primeira vez que viam o rei de tão perto. Nenhum deles ousou tocar-lhe com medo de ser fulminado.

    Nenhuma expressão de medo lhe marcava o rosto. Parecia tão sereno como se estivesse a passear sozinho no campo.

    Salomão dirigiu-se a um cabecilha muito excitado. Era um tanoeiro de mãos gastas.

    - Qual é a razão deste tumulto? O tanoeiro ajoelhou-se.

    - Senhor... É a egípcia...

    - Que censura tens a fazer à rainha de Israel?

    - Ela entrega-se a um culto à serpente do mal, à que nos fez sair do paraíso!

    - Quem o diz?

    - É a verdade, senhor! Tu, que és o nosso rei, não toleres que se faça tal ultraje a Jeová!

    - Volta para o trabalho. Reino pela graça de Deus. É dele que recebo o meu poder. Nunca o trairei.

    O tanoeiro beijou a parte de baixo da túnica do soberano. Levantando-se, gritou a plenos pulmões: ”Viva Salomão!” Esta aclamação encontrou eco na multidão. Uma hora depois, as transações atingiam o auge no recinto do mercado.

    Nagsara, maquilhada com a arte inimitável das mulheres do Egito, desafiou o esposo:

    - Israel é incapaz de admitir outros cultos? Jeová é ciumento e estúpido a esse ponto?

    - Ignorais que a serpente representa, aos olhos do meu povo, o símbolo do mal?

    - O vosso povo é inculto. No Egito, a cobra que venero protege as colheitas. Ao prestar-lhe homenagem estou a atrair a prosperidade para Israel.

    Salomão, indiferente aos olhares da filha do faraó, manteve-se severo.

    - A vossa cultura é vasta, Nagsara. Não ignorais, portanto, a fábula do réptil que tentou Adão e Eva. Ao oferecer um sacrifício público à vossa serpente sagrada, pusestes o meu trono em perigo.

     

    Nota: Trata-se da deusa serpente Renenutet, soberana do silêncio e garante da prosperidade. A palavra ”Eva” poderia provir do termo egípcio que significa soberana e que era escrito com uma serpente.

    (N. da T.)

     

    Sim. Provoquei Jerusalém, era o único meio de vos fazer regressar desse porto perdido no mar Vermelho. Condenai-me. Castigai-me. Mas pelo menos concedei-me um olhar.

    Salomão abraçou a rainha, convidando-a a estender-se perto dele num leito de almofadas.

    És injusta, Nagsara. A profissão de rei é exigente. Deus confiou-me a tarefa de construir Israel. Não deverá ser essa a primeira das minhas preocupações?

    A jovem egípcia pousou a cabeça no peito de Salomão.

    Aceito ser a segunda, senhor, mas quero ser amada... O fogo que espalhastes nas minhas veias só se pode apagar na vossa presença. Graças a ti, a minha dor transforma-se em felicidade. Amo-te, meu senhor.

    Salomão, com mãos hábeis, fez deslizar o vestido de Nagsara. Ela fechou os olhos, ébria de alegria.

    As andorinhas dançavam à luz da tarde. O seu voo era tão rápido que os olhos de Salomão não conseguiam segui-las. O rei de Israel lembrou-se da lenda segundo a qual aquelas aves eram as almas imortais dos faraós do Egito regressando à luz de onde provinham.

    Como se sentia longe deles, em momentos de solidão como aquele!

    Salomão pusera fim ao escândalo provocado por Nagsara. O povo continuava a conceder-lhe a sua confiança, apesar de ele ter permitido à rainha conservar a sua fé. Doravante, ela celebraria o culto num local retirado, numa das colinas da cidade, e ao abrigo dos olhares. Que todos o soubessem não tinha importância. O essencial, aos olhos da casta dos sacerdotes, era nada ver.

    Nagsara vivia uma felicidade sem nuvens. Dera ouvidos às concubinas mais sensuais e oferecia-se ao esposo com arrebatamento. Como poderia Salomão disfrutar sem moderação de um corpo, por mais perfeito que fosse, quando preocupações insuportáveis lhe assaltaram a mente?

    Após o desaparecimento de David e Natão, com a reclusão de Betsabé e o egoísmo de Nagsara, Salomão não podia apoiar-se em nenhum confidente no momento em que tinha de reconhecer um terrível fracasso, em que o grande feito do seu reino se quebrava de encontro à muralha de uma realidade implacável.

    Os seus navios não tinham atingido Sabá. A marinha egípcia, que considerava aquele território como uma presa a defender, tinha-os feito recuar com violência. Como podia Salomão protestar, depois de ter tentado iludir a vigilância da frota do faraó? Fora uma expedição precipitada e mal preparada... Salomão sobrestimara as capacidades dos seus soldados.

    O ouro de Sabá não viria. O rei de Israel perdia perante o rei de Tiro. O templo nunca seria construído.

    Salomão perdera a aposta com Deus.

     

    SEGUNDA PARTE

     

    Mandaste-me construir um templo sobre a tua santa montanha, e um altar na cidade onde assentaste a tua tenda, conforme o modelo da tenda santa que preparaste desde o princípio.

    Contigo está a sabedoria conhecedora das tuas obras, que estava presente, quando criaste o Universo.

    Livro da Sabedoria, 9, 8-9

     

    Vindo de Tiro, mestre Hirão seguia o caminho dos cumes. Nesse final de Inverno tivera o cuidado de marcar a partida para a noite do nono dia de Fevereiro, quando aparecera o quarto da lua nova. Nos cumes brilhavam luzes, advertindo todos da mudança de mês e facilitando as deslocações do viajante.

    A chuva caía dura e fria, como é frequente nessa época. A maior parte dos caminhos estavam desertos e transformados em lamaçais devido aos violentos aguaceiros. Dizia o provérbio: ”Antes do nascimento da Primavera, o boi tirita de madrugada, mas procura a sombra das figueiras ao meio-dia”. A frescura da noite obrigara mestre Hirão a munir-se de um pesado capote de lã, no qual se enrolava para dormir ao relento. Fora ele próprio a fabricá-lo, cosendo dois espessos cobertores e abrindo um buraco para a cabeça. No largo cinto, que lhe cingia os rins, metera umas moedas de prata.

    A seu lado caminhava um burro cinzento-claro, animal resistente que não se fazia rogado a qualquer esforço Sobre o dorso, levava dois odres, um com água pura e outro com água cortada com vinagre, um par de sandálias, roupas e uma cabaça, para tirar água. Capaz de caminhar mais de quarenta quilómetros por dia, o quadrúpede tomara amizade ao seu companheiro.

    Hirão atravessara com dificuldade as florestas nevadas do monte Carmelo, onde se refugiara o profeta Elias. Por sorte, o asno conhecia palmo a palmo a garganta muito estreita que ligava o Norte e o Sul da Palestina e permitia sair da zona de influência fenícia e entrar no reino de Israel.

    O mestre-de-obras tinha enveredado por um caminho serpenteante por cima da fortaleza que vigiava o local. Tendo forrado com lenços os cascos do asno, Hirão não despertara a atenção dos vigias. Restava-lhe apenas caminhar de cume em cume, subir e descer, sem cessar, passar o Tabor, o Gelboé, o Ebal e o Garizim. Sem dúvida que o monte mais alto não chegava a ter mil e duzentos metros, mas a caminhada era dura para as suas pernas.

    Hirão admirou os troncos centenários dos carvalhos, com copas culminando a vinte metros de altura, e plantados, diziam, por Abraão. Mais adiante havia uma floresta de terebintos com muitas ramificações. Em breve exalariam poderosos odores que purificavam a garganta e os pulmões.

    A fim de evitar encontros, o mestre-de-obras escolhera o período em que as caravanas descansavam nos acampamentos de tendas, até que a neve desaparecesse dos cumes. Hirão temia a Samaria, onde ainda rondavam bandos de salteadores. Os Hebreus mais piedosos consideravam a região como um território de hereges. Ao longe, no Ocidente, por detrás da planície de Sáron, pomares precediam as dunas que anunciavam a costa. O viajante pensou com nostalgia no deserto do Egito, onde aprendera os segredos do ofício, ao lado de mestres exigentes, que o levavam de templo em templo, de morada da eternidade em morada da eternidade. Mas Hirão não tinha nem direito nem tempo de se perder no passado. A sua missão importava mais do que ele próprio.

    Cansado, atravessou o laboque, afluente do Jordão, e chegou a uma estalagem, protegida por um fosso. Passando sob um pórtico de madeira, semiarruinado, deu com um pátio lamacento, cheio de animais de tiro. Uma ala estava ocupada por enxergões destinados às pessoas de passagem.

    O estalajadeiro acolheu Hirão com desconfiança.

    - De onde vens, amigo?

    - Pouco importa. Desejo comer.

    O mestre-de-obras deu uma moeda de prata. O estalajadeiro enfiou-a na cintura e; com um sinal da cabeça, indicou-lhe a direção da mesa dos hóspedes.

    Hirão jantou na companhia de dois homens tão pouco faladores quanto ele. Partilharam o pão de cominhos, uma sopa de funcho e beberam uma tisana de arruda macerada, com virtudes digestivas.

    Uma mulher desgrenhada irrompeu na sala, mal iluminada por uma tocha fumegante. Precipitou-se para um dos que jantava e tentou arrancar-lhe os olhos. De rosto ensanguentado, a vítima berrou. O companheiro veio de imediato em seu auxílio. Mas a mulher, que gritava injúrias, estava tresloucada. Agarrou-o pelos testículos e puxou com violência. O segundo homem rolou pelo chão. O homem ferido no rosto atacou a fera com um soco na nuca.

    A cena desenrolara-se em poucos segundos. Hirão tentara, em vão, levantar-se. A faca que o estalajadeiro lhe encostara à garganta impedia-o de se mexer.

    É uma questão de família. Não te metas, amigo, senão a tua viagem acaba aqui.

    A mulher foi arrastada lá para fora pelos seus dois adversários.

    Porquê esta violência? Perguntou Hirão.

    Aqueles dois bons rapazes servem-lhe de marido e de amante. A imbecil acaba de se aperceber que eles andam feitos um com o outro, e se divertiam à sua custa. Toda a Samaria o sabia há muito. Ela não devia ter levado isso a peito. Será duramente castigada pelo seu desprezível gesto. A lei obriga os meus amigos a cortar-lhe a mão tornada impura. O sangue tem de ser vingado.

    Gritos atrozes foram prova de que o castigo fora de imediato executado.

    Porquê tanta violência? repetia Hirão para si.

    O mestre-de-obras recusara-se passar a noite naquela estalagem, preferindo continuar o seu caminho em direção a Jerusalém. Seguindo os passos do burro, Hirão desceu uma encosta escarpada que ia morrer num planalto fértil de onde se avistava a capital de Israel, dominada por um rochedo nu. Um rebanho de ovelhas barrou o caminho do mestre-de-obras. Os animais eram numerosos e indisciplinados, aproveitando a sua primeira saída depois da hibernação nos redis da montanha. Alguns borregos tinham uma pata atada à cauda, para os impedir de fugir ou de se perder. Soltavam balidos, qual deles o mais alto, que punham o burro nervoso.

    Pela segunda vez, em menos de um dia, o mestre-de-obras sentiu uma arma na garganta. Um longo punhal de lâmina direita que lhe penetrava na carne. Caiu uma gota de sangue.

    - Tenho também um cacete ferrado - anunciou o agressor. - Se tentares defender-te, serei obrigado a matar-te.

    Hirão obrigou-se a respirar com calma, reduzindo o ritmo dos batimentos cardíacos, segundo a prática aprendida junto dos médicos da Casa da Vida egípcia.

    - Está quieto, meu príncipe, está bem, muito bem... És rico, com certeza, e eu sou pobre. Muito pobre. Um simples pastor que labuta todo o ano. Por isso tenho de fazer papel de salteador! Pelo menos, não me queres mal?

    O pastor passou a mão pela cintura de Hirão e tirou de lá as moedas de prata.

    - Formidável, meu príncipe! Uma verdadeira fortuna! Quando te avistei tive um bom pressentimento. Com isto, vou enfim sair da miséria. Por causa das hienas e dos chacais perco muitos borregos. A minha vida é um inferno. De noite o frio morde-me a pele. Os colegas roubam-me. E os animais doentes! E os partos! E a tosquia!

    Hirão esboçou um gesto. A lâmina enterrou-se um pouco mais.

    - Devagarinho, meu príncipe! Há muito que tenho vontade de cortar um rico às tiras, eu, a quem chamam Caleb, o cão! Tentei atacar caravanas, na estrada de Jerusalém a Jericó. Mas a Polícia de Salomão tornou-se demasiado eficiente. Até os comerciantes que me pagam para roubar os concorrentes se esqueceram de mim. As presas hoje são raras. És um presente do céu.

    O burro soltou um zurro formidável, que assustou os borregos. Por um momento, Caleb diminuiu a atenção. Esta falha ínfima foi suficiente para Hirão o atirar para trás, enfiar o cotovelo no estômago do agressor e desarmá-lo.

    O mestre-de-obras esperava maior resistência. Mas Caleb não passava de um velho incapaz de lutar.

    Trepou até um murinho de pedras e atirou uma, a que Hirão não teve dificuldade em esquivar-se.

    - Sou um pobre homem! - exclamou Caleb. - Não me façais mal! Como um verdadeiro crente, batia no peito e mantinha os olhos baixos.

    - Israel é o nosso deus - declamava. - Deus é o Eterno! Amá-lo-ás com todo o teu coração, toda a tua alma, todo o teu espírito. Grava em ti os mandamentos de Deus e sobretudo o mais importante de todos: não matarás!

    Respeitá-lo-ei respondeu Hirão. Todo o homem digno desse nome é um ser sagrado.

    Caleb ergueu-se e ajoelhou perante o mestre-de-obras.

    Feliz o ventre que te carregou rejubilou. Benditos os seios que te aleitaram! A paz de Deus está sobre ti, és mais glorioso do que o vento, mais luminoso do que o Sol!

    O rosto de Hirão manteve-se impassível. Caleb estava quase certo de ter escapado à morte, mas ainda temia que lhe cortassem o braço. O viajante não parecia nada dado à indulgência.

    O mestre-de-obras tirou uma pulseira, ornamentada com uma lâmina de ouro fino com a inscrição do seu nome em fenício.

    Toma isto, Caleb, e leva-o ao rei Salomão. Avisa-o de que o esperarei três noites e três dias ao fundo do Gor, perto dos poços da serpente. Se ele não vier, deixarei Israel para sempre.

    O pastor beijou os pés daquele que não conseguira destroçar. Recebeu o precioso objecto.

    Guarda as moedas de prata disse-lhe o mestre-de-obras. Mas livra-te de roubares a placa de ouro e de te esqueceres da tua missão. Senão, encontrar-te-ei onde quer que vás. E não te pouparei segunda vez.

    Caleb acabou com as manifestações de respeito e ergueu-se. Agora que se afastava, Hirão viu que coxeava. As ovelhas seguiram o pastor a balir e aos empurrões.

    Quando o caminho ficou livre, Hirão libertou o burro. O jumento aceitou uma carícia e seguiu o caminho que melhor lhe pareceu. Hirão dirigiu-se para o Gor, a região mais sinistra de Israel.

    Uma víbora surgiu a menos de um metro de Hirão e enfiou-se por um cerrado. O mestre-de-obras não se mexera. Havia três noites e quase já três dias, que estava numa imobilidade quase mineral, indiferente aos lagartos e às serpentes que visitavam o fundo do Gor, hostil a qualquer presença humana. Depressão estreita, mas profunda, o Gor era um sulco angustiante na carne de Israel, aberto desde o sopé do monte Hérmon até a Idumeia, onde rondavam os beduínos, inimigos de Israel e do Egito. No Verão, o calor tornava-se ali tão insuportável quanto o frio no Inverno. Segundo os velhos textos, era ali que haviam sido edificadas as cidades de Sodoma e Gomorra, que Deus amaldiçoara. Quando viesse o novo dilúvio, clamavam os profetas, águas furiosas revolver-se-iam na bacia do Gor para apagar os crimes da humanidade.

    Hirão sentara-se na base de uma tamareira, com as costas apoiadas contra o tronco rugoso, em frente do poço da serpente, seco já há muito. As palmas, a mais de vinte metros do solo, ofereciam um pouco de sombra quando o sol se tornava demasiado ardente. O mestre-de-obras gostava daquela paisagem violenta e descarnada, onde nada perturbava a meditação. Os insetos mais venenosos causavam menos devastação do que os homens. Não os importunar era suficiente para se proteger deles.

    Hirão estava habituado a estes períodos de isolamento. Eram impostos pela Casa da Vida a todos os mestre-de-obras, antes que começassem a delinear o plano de novos edifícios. Precisava de reunir as energias dispersas pelo quotidiano, colocar-se no centro de si próprio, reencontrar o fôlego do primeiro trabalho.

    Esses esforços não eram nada, comparados com o exílio. Hirão passara algumas semanas no estrangeiro, na Síria, em Tiro e na Núbia, para acabar fundações e estudar templos. Nunca pensara em deixar o Egito. Esperava passar o resto da sua carreira em Karnak, onde os santuários se embelezavam sem cessar, formando um corpo gigantesco em perpétuo crescimento.

     

    Porque o escolhera Siamão? Porque o enviara para aquele país hostil, onde tinha ao mesmo tempo de ajudar um rei e lutar contra ele? Falando através da pessoa do faraó, o destino punha-o à prova da forma mais impiedosa. Longe do Egito, de Tanis, de Karnak, dos seres que amava, Hirão estava condenado a triunfar em segredo. Restava-lhe uma única esperança, que Salomão faltasse ao encontro.

    O terceiro dia terminava. A luz etérea, de um dia que anuncia a Primavera, começava a desaparecer. Não havia outra explicação. O coxo estava demasiado assustado para não lhe ter dado o recado.

    Quando Hirão se levantou decidido a escalar a encosta lisa de quase um quilômetro que o levaria para fora do Gor, uma sombra surgiu ao lado da sua.

    - Bem-vindo ao meu país, mestre Hirão - disse Salomão. - Este local não é o mais propício para um encontro.

    - Gosto do silêncio, senhor.

    - Aqui vêm os magos que conhecem as plantas que curam e as que matam. Serás um desses?

    - O meu reino é o da pedra e da madeira - respondeu Hirão. Sei misturar os minerais e não os venenos.

    O mestre-de-obras voltou-se.

    A sua surpresa foi tal que conteve a muito custo uma exclamação.

    Por um momento julgou que Salomão era sósia de Siamão. Vestido com uma túnica púrpura, de cabeça descoberta, o rei de Israel não se parecia com o jovem faraó que fizera parte dos mais brilhantes alunos da Casa da Vida? Mas a luz era falsa. Hirão fora vítima de uma ilusão. O Gor criava miragens.

    - De onde vindes, mestre Hirão?

    - De Tiro. O rei disse-me que procuráveis um arquitecto. Salomão estava impressionado com aquele homem de olhar de fogo, testa grande e ombros largos. A cabeleira negra, as sobrancelhas espessas, o nariz muito direito davam-lhe ao rosto uma expressão de severidade. Robusto, seguro da sua força, mestre Hirão não pertencia à raça dos escravos e dos servos. O que Salomão tinha de sedutor e encantador tinha Hirão de distante, quase altivo. Ninguém na corte de Jerusalém possuía uma personalidade tão vincada como o arquiteto vindo de Tiro.

    Salomão sentia um misto de admiração e receio, como se aquele homem lhe anunciasse ao mesmo tempo a salvação e a perda.

    Hirão sentia-se intrigado com Salomão. O rei de Israel tinha o caráter de um faraó. Não se parecia com aqueles déspotas e chefes de clãs que usavam o poder para satisfazer as suas paixões, desprezando o país e o povo.

    Salomão não tinha o hábito de ceder a convocações de um inferior, mesmo que fosse um conhecido arquiteto. Durante dois dias, mandara fazer um inquérito sobre o passado de Hirão. Eliap, o secretário, soubera que o mestre-de-obras era filho de uma viúva da tribo de Dan e de um natural de Tiro. Tinha fama de ser um indivíduo esquisito e solitário, indiferente às honras e aos louvores, capaz de resolver as maiores dificuldades técnicas e dominar os materiais mais rebeldes. Hirão não era escolhido. Ele é que escolhia.

    Qual é a vossa ciência, mestre Hirão?

    A do traço.

    Para que vos serve?

    Para talhar as pedras, juntá-las e erguê-las, de forma a que sejam postas no seu lugar sem retoque e que o edifício resista ao tempo.

    A arte do traço: quem não ouvira falar dessa ciência misteriosa, que atravessara os tempos e sem a qual nenhum edifício podia ser concebido? Os artesãos hebreus ignoravam o traço.

    Aceitaríeis revelar-me essa arte?

    Não, senhor. Ou me contratais dando-me plenos poderes na minha obra ou então partirei.

    Não são palavras de diplomata, mestre Hirão.

    Não tenho intenção de sê-lo.

    Fazer concessões não será o princípio da sabedoria?

    Não é assim que a concebo, rei de Israel. A sabedoria não é criação de Deus, estabelecida com toda a eternidade, antes do nascimento da Terra? Não é fonte de todo o conhecimento humano?

    Um ronco interrompeu o diálogo.

    Enrolado, em cima de um rochedo, uns dez metros acima dos dois homens, um leopardo estava prestes a saltar sobre as duas presas fáceis. Corpulento, com mais de oitenta quilos, o magnífico felino era um verdadeiro acrobata, que saltava de encosta em encosta com a agilidade de um cabrito-montês. Atingindo em alguns segundos a velocidade de uma rajada furiosa, nunca voltava da caçada sem nada.

    Com os olhos amarelos e pretos, fitava as futuras vítimas.

    - Um de nós não sobreviverá - declarou Salomão sem que a voz lhe tremesse. - Sabereis defender a vida de um rei?

    - Defenderei primeiro a minha - respondeu Hirão. - Não sou vosso servo.

    - A partir deste momento, sois. Contrato-vos como mestre-de-obras e confio-vos a construção de um grande templo em Jerusalém. A vossa vida pela minha: tal é a partir de agora o vosso dever, se as circunstâncias o exigirem.

    Hirão colocou-se muito devagar frente a Salomão. O leopardo ergueu-se e roncou de novo, mostrando as presas.

    O rei de Israel rodou o anel que lhe dera Betsabé e passou o indicador sobre as letras que formavam o nome de Jeová.

    Amedrontado, o leopardo soltou um urro de dor. Com a pata dianteira direita tentou afastar um adversário invisível, que lhe picava o flanco. Irritado, saltou sobre um monte de pedras, perdeu o equilíbrio e desapareceu numa floresta de espinhos.

    - Deus vela por nós - comentou Salomão.

    - A vossa reputação não foi usurpada - observou o arquiteto.

    - Foi Deus quem vos trouxe ao fundo deste abismo. Foi Ele quem me pediu que vos escolhesse. Já não pertenceis a vós, mestre Hirão.

    Hirão subiu para o carro conduzido por Salomão, escoltado por uma dezena de homens comandados por Banaías, que suplicara em vão ao rei para que não se aventurasse a ir ao fundo do Gor. Quando viu o rei aparecer na companhia de um estranho, um pensamento sacrílego atravessou-lhe o espírito. Salomão não seria um anjo que manipulava o destino? Não trouxera um fantasma do poço da cobra, um demónio de poderes múltiplos, do qual se serviria para aumentar o seu poderio?

    Banaías sentiu inquietação ao ver Hirão. O homem que Salomão fora buscar à região proibida para os crentes trazia consigo um poder perigoso, semelhante ao de uma fera. O general assustou-se. Como ousar confessá-lo ao rei? Ele, o herói de Israel, o combatente capaz de matar um leão com as mãos, não tinha direito de ser escravo do temor. Numa profunda perturbação, Banaías prometeu a si próprio observar as atitudes e os gestos da inquietante personagem que depressa conheceu os favores do rei.

    Ao longe desenhava-se Jerusalém, azul e cinzenta sob um céu ameaçador.

    - Eis a minha capital - anunciou Salomão a Hirão. - Contempla-a, mestre-de-obras. Será o lugar da tua glória ou do teu infortúnio. Não admitirei o fracasso.

    - Contrataste-me pela astúcia - avaliou Hirão. - Não me obrigareis a produzir.

    - Não é essa a minha intenção. Olhai esta cidade... É um diamante surgido das terras altas da Judéia, lugar abençoado, onde se aliam nômades e sedentários, lugar privilegiado onde se cruzam as estradas que vão do Mediterrâneo às províncias do Este, da Fenícia ao Egito. Jerusalém é o coração de uma estrela cujos braços irrigam a Terra Santa. Ainda tem o aspecto de uma fortaleza. Amanhã, graças a vós, ela será o escrínio do templo dos templos.

    Hirão pensou em Karnak, onde conhecera a alegria de aprender e a felicidade de criar. Se começasse a construir o santuário do rei de Israel, quantos anos ficaria longe do Egito? Viveria até tão velho que voltasse a vê-lo? Tão pouco tempo após tê-lo deixado e já o exílio pesava tanto.

     

    Nuvens negras acumulavam-se sobre a capital. Uma chuva glacial caiu sobre o cortejo real. O rosto de Hirão foi fustigado pelo granizo. Manteve-se tão imperturbável quanto Salomão.

    Depois de ter ultrapassado a cintura da muralha, o carro parou numa praceta.

    - Abandono-vos aqui, mestre Hirão. O general Banaías conduzir-vos-á à vossa morada. Descansai, em breve nos veremos .

    O arquitecto não se inclinou. Banaías ficou chocado com este desafio à autoridade do rei de Israel. Porque o aceitava Salomão?

    Sem dizer palavra, o general guiou Hirão até uma casa de tijolo, situada numa rua que levava à parte alta da cidade.

    Um exame rápido elucidou o mestre-de-obras. Demasiada palha no tijolo e cozedura insuficiente. Contudo a construção era notável em comparação com os abrigos em adobe do bairro baixo e no interior não faltavam enfeites: um pátio central iluminado por aberturas no teto e, à volta, pequenas divisões. Uma sala de hóspedes, um escritório, dois quartos, uma cozinha, uma sala de águas e uma latrina. O vigamento demasiado leve não resistia ao tempo. As paredes estavam cobertas de um simples gesso. Mas este elemento, derivado da arquitectura egípcia, conservava o fresco no Verão e o calor no Inverno.

    O céu de trovoada tornava escuro o interior da casa. Hirão sentiu o cheiro característico do azeite que emanava da lamparina de barro, poisada num buraco da parede e cuja mecha de linho ardia dia e noite. Verificou que os reservatórios estavam cheios e, pegando na lamparina pela alça, explorou os seus domínios, enquanto Banaías se mantinha na soleira.

    Na sala de hóspedes havia um baú com dois compartimentos, um para os tecidos e roupas e outro para as provisões. Aquele móvel único ao centro da sala serviria de mesa em grandes ocasiões. O mais habitual era comer sentado no chão. Num dos quartos havia uma cama com pés; noutro uma dezena de almofadas, uma pilha de cobertores e uma cabeceira de madeira, na qual, como no Egito, se apoiava a nuca para dormir. Quanto às esteiras, seriam imprescindíveis para no Verão dormir no terraço. A cozinha está equipada com um braseiro de carvão de madeira, sinal incontestável de riqueza. Limpos e alinhados estão vários fornos alimentados a colmo. No exterior, perto da escada que conduz ao telhado, há um forno aquecido a turfa para assar peças de carne.

    Salomão dava assim provas da sua estima pelo mestre-de-obras. Sem dúvida devia ter tido de expulsar alguém importante para alojar Hirão de forma tão confortável. Mas um pormenor essencial incomodava o arquiteto. Observou a porta de entrada com mais atenção, fê-la girar no gonzo, accionou a fechadura.

    Preciso de uma chave disse a Banaías

    De uma chave? Mas porquê...

    Esta casa será a minha oficina. Guardará os meus planos e os meus desenhos. Deverá ficar fechada com segurança e ser vigiada de dia e noite.

    Essas exigências...

    Essas exigências devem ser satisfeitas de imediato. Senão deixo Jerusalém.

    Banaías tirou a espada da bainha.

    O olhar tranquilo de Hirão gelou-lhe o sangue. Havia uma magia nos olhos do estrangeiro, uma magia que não precisava da arma para matar.

    O general guardou a espada e tirou do cinto uma pesada chave que estendeu ao arquiteto.

    Quer a lei que seja eu o único depositário.

    A vossa lei, general, não é a minha. Banaías corou de fúria.

    Tem cuidado, estrangeiro. Israel não gosta de insolentes.

    E eu detesto curiosos e mentirosos. Que ninguém, nem mesmo vós, ultrapasse a soleira desta morada.

    Hirão bateu com a porta e fechou-se lá dentro à chave. Era-lhe indiferente que aquele soldado velho e estúpido se tornasse um adversário. Pelo seu comportamento o mestre-de-obras obrigaria a conceder-lhe total confiança ou a expulsá-lo.

    O mestre-de-obras instalou-se no escritório. O local agradava-lhe. Parecia-se com as celas dos sacerdotes que davam para o lago sagrado em Karnak. Os papiros que ali havia não tinham a bela cor dourada dos exemplares egípcios, mas a textura parecia correta. Os calamos, alinhados em cima de uma mesa baixa, tinham de ser afiados para traçar linhas perfeitas.

    Um barulho proveniente da cozinha alertou Hirão.

    Foi dar com uma jovem de uns quinze anos, enfarruscada como uma corça da Damaria.

    - Como entrastes?

    Ela acocorou-se mostrando uma portinha baixa que oferecia passagem a um indivíduo muito magro. Hirão percebeu porque Banaías não hesitara em dar-lhe uma chave que considerava inútil. O primeiro trabalho do mestre-de-obras era o de obturar todos os buracos, incluindo aquele que dava para a rua.

    - Que vens fazer aqui?

    - Servir-vos, meus senhor. Sou vossa vizinha. Tratarei de fornecer azeite e de vigiar a chama da lâmpada. Se a deixar apagar-se morrerei de parto. Preparar-vos-ei o pão, amassarei a massa, cozê-la-ei no forno...

    Bateram à porta com golpes redobrados.

    Hirão abriu.

    Irrompeu Caleb, o coxo, brandindo o bastão ferrado.

    - Já calculava - gritou. - Eu sabia! Esta diaba que saia daqui. Com rapidez, Caleb agarrou na jovem pelo braço e empurrou-a para o exterior.

    - Não vos intrometais, meu príncipe! Vim ajudar-vos. Jerusalém é uma cidade cheia de perigos. O primeiro são as mulheres! A sua maldade é pior do que as feridas do combate. Não existe serpente venenosa mais temível. Mais vale viver com um leão ou um dragão do que com uma mulher, mais vale ter um escorpião nas mãos do que esse corpo maléfico! Essa jovem ter-vos-ia levado à vossa perda. Salvaste-me a vida e eu salvo-vos a vossa!

    - Recebe os meus agradecimentos, Caleb, mas quem me servirá?

    - Eu, meu príncipe! Ninguém pega na vassoura melhor do que eu. Ninguém coze melhor um pão do que eu. A massa, amasso-a na amassadeira e cozo-a nas brasas. Faço um círculo que se deve romper e não cortar. Uma mulher não vos teria ensinado isto. Ter-vos-ia dito que a carne crua deve ser posta em cima do pão, em vez de em cima de uma pedra quente? Ter-vos-ia dito que não se apanha migalhas cujo tamanho é inferior ao de uma azeitona? As mulheres dissimulam. Eu sou um homem honesto. Guiar-vos-ei nas ruas de Jerusalém. Tenho muitos amigos aqui.

    - Gostaria de me barbear e lavar - disse Hirão

    Caleb sorriu, mostrando todos os dentes.

    - Sem mim é impossível! Apesar das canalizações de Salomão, a água ainda é rara. Apenas os reis e os ricos dispõem em casa dela. Irei buscar-vos água à fonte, em grandes jarros, tantas vezes quantas quiserdes. Do resto, também me encarrego.

    Caleb arranjou uma selha ao amo, encheu-a de água morna, uma pedra-pomes, natrão e um sabão à base de soda. Trouxe-lhe também uma esponja, uma escova, alecrim para aromatizar o banho e anis para limpar os dentes. Era um tratamento suntuoso.

    O dedicado servo barbeou Hirão com cuidado. A lâmina não provocou o mais pequeno golpe. Passou com delicadeza sobre a garganta que queria cortar, umas horas antes.

    O jantar foi excelente. Caleb tinha preparado um prato de lentilhas com cebolas e adicionado beringelas e pimentos verdes. Esfomeado, o coxo devorou a seguir uma salada de agrião.

    - Tenho os melhores fornecedores - explicou. - Cultivam pequenas hortas na zona baixa, ao abrigo dos ventos.

    Caleb soltou um grito de dor e pousou a mão na face.

    - Outra vez este maldito dente... Põe-me a cabeça à roda. Isto não pode durar. Tenho de arrancá-lo. Mas o ferreiro é caro... Se tivésseis uma moedita de prata...

    - Não existem médicos? - perguntou Hirão admirado.

    - Arrancar é trabalho para o ferreiro.

    Os dentistas da escola de Sais, no Baixo Egito, não teriam apreciado nada este costume, pois praticavam uma extração sem fazer sofrer o paciente e cobriam a chaga com uma substância vegetal que evitava a infecção.

    - Acompanho-te - disse Hirão.

    - A mim? Não vos deis a esse trabalho, senhor. A moeda de prata bastará.

    O mestre-de-obras abrira já a porta. O coxo percebeu que, quando o seu amo tomava uma decisão, ninguém podia interpor-se no seu caminho.

     

    Sentado perto da bigorna, o ferreiro, de pele avermelhada pelas chamas da fogueira, acabava de moldar uma relha de charrua. Ao aproximar-se, Caleb, o coxo, tentou falar-lhe em voz baixa. Mas Hirão interveio.

    O meu servo sofre de um dente. É preciso arrancar-lho.

    Caleb recuou. O ferreiro abandonou o trabalho e pegou numa tenaz que estava em brasa.

    Já não tenho dores declarou Caleb.

    Paga ao oficial ordenou Hirão.

    Meu príncipe... Ele não merece tanto...

    O ferreiro agarrou o coxo pela nuca como se agarrasse num gato. Deitou-o no chão de terra batida e abriu-lhe a boca.

    Não serve de nada comentou. Tem os dentes podres, cairão sozinhos.

    Caleb rebolou para o lado, feliz por escapar à tortura.

    Quantos ferreiros há em Jerusalém? Perguntou Hirão.

    Uma dezena.

    A que tarefas se dedicam?

    Ao fabrico de utensílios para os camponeses.

    Não há nenhuma forja do Estado?

    Nenhuma.

    Elucidado, Hirão meteu por uma ruela que subia até ao palácio. Caminhava depressa. Caleb seguiu-o com dificuldade. O mestre-de-obras parou em frente de um homem só com uma perna, seminu, amparado à parede de uma casa miserável.

    - Pão, senhor... não como há três dias... Caleb deu um pontapé no flanco do infeliz.

    - Avancemos, meu príncipe - disse a Hirão. - Não vos deixeis importunar por estes maltrapilhos. Há centenas como este, piolhosos, enfermos, que sujam a nossa bela cidade.

    Hirão estendeu uma moeda de bronze ao homem sem perna. Este arrancou-lha, com um arranhão. De imediato, vindas de recantos escuros, dezenas de criaturas sujas e malcheirosas lançaram-se sobre o novo-rico para lhe arrancarem a bolsa. Travou-se uma batalha furiosa. Caleb obrigou Hirão a afastar-se.

    - Não fiqueis aqui, meu príncipe. Podeis sofrer algum golpe traiçoeiro.

    Perturbado, Hirão ignorou outros mendigos, outras mãos estendidas, outros olhares turvos. Caminhou direito ao palácio real e esbarrou com a guarda de Salomão. Apresentando-se como arquitecto contratado pelo monarca, pediu uma audiência.

    Caleb eclipsara-se. A visão dos uniformes, das lanças e das espadas inspirava-lhe um enorme terror. Alguns soldados poderiam reconhecê-lo como salteador de caravanas, cuja cabeça fora reclamada por muitos mercadores.

    Hirão não esperou muito tempo. O mestre do palácio veio buscá-lo e conduziu-o a uma sala aquecida por duas braseiras, onde Salomão estava a ler, sentado numa cadeira de madeira forrada de tecido castanho. O rei de Israel estudava provérbios, que pensava reunir em livro.

    - O vosso repouso foi de curta duração, mestre Hirão. Pegai num tamborete.

    - Prefiro ficar de pé, majestade. O que vi nas ruas de Jerusalém não me incentiva a ficar mais tempo.

    Salomão enrolou o papiro.

    - Esses infelizes que sofrem a fome e a sede... Julgais que este espetáculo me alegra? Pensais que esta miséria me é indiferente?

    No Egito, pensou Hirão, não se fazia nenhuma festa se houvesse um pobre na aldeia. As famílias entreajudavam-se. E todos podiam dirigir-se ao faraó, garante da felicidade do seu povo. O ideal proclamado pelos nobres não consistia em alimentar o faminto, matar a sede ao sedento e vestir os nus?

    Salomão ergueu-se.

    Deixai-me governar o meu povo e preocupai-vos com as vossas novas funções. Desde que sejais, de fato, digno delas, mestre Hirão. Olhai este bastão de marfim, fixado entre duas pedras. O palácio de David foi construído em volta dele, por indicação de um profeta. O que for capaz de pegar-lhe será o próximo mestre-de-obras. A sua mão ficará intacta. Se assim não for, queimar-se-á. Aceitais a prova?

    Hirão dirigiu-se para o bastão. Não temia fracassar? Não estando disposto a oferecer uma parte do seu corpo para voltar sem demora ao Egito? Reconhecido como indigno por Salomão, restar-lhe-ia regressar ao seu país.

    Hirão empunhou o bastão de marfim.

    Sentiu logo uma sensação de calor muito forte, quase insuportável. Uma imensa esperança encheu-lhe o coração. O sofrimento parecia-lhe leve. Mesmo que a pele tivesse de ficar colada àquele símbolo de poder dos Hebreus, mesmo que tivesse de perder o uso da mão, tinha de aguentar. O seu fracasso seria o anúncio da sua felicidade próxima.

    Salomão viu uma vaga dor perpassar no olhar do arquiteto. Um cheiro a carne queimada chegou-lhe às narinas. Mas o mestre-de-obras não largou a presa.

    De repente um frio intenso sucedeu à queimadura. Hirão afastou-se do bastão, olhando a palma da mão com surpresa.

    A glória de Deus está em esconder as coisas comentou Salomão. E a dos reis está em revelá-las. Esta prova revela-vos a vós próprio. Duvidáveis ainda do vosso destino, mestre Hirão?

    O monarca acendeu um candeeiro de bronze com sete buracos. O seu pé, cinzelado com arte, representava um leopardo da Judéia. O cheiro a azeite espalhou-se pela casa. O magnífico objecto, uma das poucas belas peças do palácio, havia pertencido a Natão. Salomão prestava assim homenagem ao preceptor que lhe transmitira a luz.

    O rei agarrou Hirão pelos ombros, deu-lhe um abraço e beijou-o nas faces como a um igual. O mestre-de-obras deveria ter-se ajoelhado e beijado as mãos e os pés do monarca. Contentou-se, porém, em receber o sinal da sua estima.

    Sois aquele que espero desde o primeiro dia do meu reinado confessou Salomão. Sereis vós quem construirá o templo da paz.

    Que cada momento da vossa vida seja a partir de agora orientado nesse sentido único.

    - Essa vida, roubais-ma vós, senhor.

    Hirão não acreditava na sinceridade de Salomão. A sua demonstração de afeto não se destinava senão a abrandar-lhe o caráter rabujento. A única glória que o arquiteto serviria seria a do mais ambicioso dos reis.

    - Os sinais celestes designaram-vos, mestre Hirão. Estais predestinado. Não foi o acaso que conduziu os vossos passos até Jerusalém. A vossa tarefa é sobrenatural. Não o esqueçais nunca.

    Salomão abriu uma arca de madeira de acácia e tirou de lá um manto púrpura com que cobriu o arquiteto.

    - Eis o vosso traje de profissão, mestre Hirão. Usá-lo-eis no dia em que terminardes o vosso trabalho.

    - Prefiro a tanga de couro. Se vendesse esse manto, quantos pobres poderia alimentar?

    O insulto era cortante. Salomão conservou a calma.

    - Se o templo não for construído, aumentará a miséria. Os homens não se alimentam apenas do mundo material. É preciso oferecer a um povo um centro espiritual. Este não será senão um espaço sagrado onde a presença divina se afirma em cada dia. Só ela guia a alma de um país para uma alegria fora do tempo, uma alegria que é a chave da felicidade de cada um. Vencer este manto solene seria um atentado contra o espírito. Encontrai antes o ouro que me falta para financiar as obras.

    - Não sois rico, majestade?

    Salomão olhou de frente o seu mestre-de-obras, esplêndido no traje purpúreo.

    - Não o suficiente, mestre Hirão. Posso abrir as fundações, mas não tenho o suficiente para levar a obra a cabo. Um rei mais avisado mostrar-se-ia mais paciente. Mas insisto em que é chegada a hora, que toda Israel se deve unir na busca da sua grandeza.

    Salomão não era nem exaltado, nem utópico. A paixão de criar iluminava-lhe a voz. Era certo que o seu deus não era o de Hirão. Mas a empresa começava a seduzir o mestre-de-obras.

    - Porque não pedir ouro à rainha de Sabá? - sugeriu. - O ouro transborda nesse país, mas não o trigo.

    Salomão sentou-se pensativo.

    Inútil. Esse reino é inacessível a Israel.

    Mas não a mim.

    Salomão observou Hirão com uma atenção misturada com espanto.

    Que quereis dizer?

    Vivi e trabalhei nesse país. Um dos arquitetos da rainha é meu amigo. Os membros da nossa corporação são pouco numerosos. Unem-nos laços muito estreitos. Juramos auxílio uns aos outros, em situações difíceis. Se lhe pedir que interfira junto da rainha para levar a cabo uma transação comercial, ele fá-lo-á.

    E a rainha?

    Não posso prometer nada. Salomão estava incrédulo.

    Falai-me de Sabá.

    É a ilha de onde sai o Sol, a colina primeira na qual pousou a fênix, ardendo numa fogueira de incenso e mirra. Nas florestas vivem leopardos, rinocerontes, panteras e girafas. Os habitantes prendem os babuínos. As montanhas são atravessadas por galerias profundas onde afloram o ouro e a prata. Rebanhos pastam nas encostas. Não existem pobres. Todos têm baixela de ouro. Os pés das cadeiras são de prata. A rainha não é avara. Paga com generosidade os alimentos de que o seu povo precisa. Mas escolhe os países que lhe fornecem esses gêneros. Dizem que a sua beleza é a de uma deusa.

    Conheceste-a?

     

    Não. Na altura em que vivi em Sabá, era apenas um jovem mestre do traço, indigno de ser recebido por ela. Vi-a passar na sua liteira, coberta de ouro vermelho, mas apenas lhe avistei a tiara.

    Salomão hesitou em dever um favor a Hirão. Pedir-lhe ajuda correspondia a descer do trono e a considerar o arquiteto como soberano de um universo que o senhor de Israel não dominava. Mas o templo de Deus não era mais importante do que a vaidade do monarca?

    Não gosto de gabarolas, mestre Hirão. Se sois capaz, mandai vir o ouro de Sabá.

    Durante mais de duas semanas Hirão melhorou a casa que lhe fora atribuída por Salomão. Consolidou as paredes, destruiu a pequena porta que dava acesso à cozinha pelo exterior, reforçou a fechadura. Trabalhava com lentidão, como se o tempo não existisse.

    Na continuação da sua conversa com Salomão, o mestre-de-obras fora recebido pelo secretário do rei. Juntos tinham redigido uma missiva a um arquiteto residente em Sabá. Eliap tratara do texto protocolar, Hirão de uma mensagem codificada composta por sinais indecifráveis para um leigo. Do resultado desta tentativa dependia o futuro dos alicerces da construção de Salomão.

    Caleb tratava dos dentes doentes, que o obrigavam muitas vezes ao repouso. Contudo preparava refeições com um cuidado tanto maior quanto o seu apetite não diminuíra. O coxo dormia na casa, enroscado em frente do quarto de Hirão. Nunca beneficiara de melhor alojamento, nem de um telhado que não deixava passar nem chuva nem vento. O mais profundo voto de Caleb era de que Hirão se demorasse o mais possível em Jerusalém. Todos os dias agradecia a Jeová por ter encontrado um amo tão generoso e pouco exigente.

    Numa noite de tempestade, enquanto a chuva que batia aumentava os riachos e abria sulcos nas montanhas, Hirão ouviu um ruído esquisito. Como de costume, o sono de Caleb era profundo. O mestre-de-obras saiu do seu gabinete, onde desenhava grelhas geométricas, e caminhou para a porta. O soldado mandado por Banaías devia ter abandonado o seu posto e ter-se abrigado sob um portal vizinho.

     

    Nota: Grelhas Tipo de planos utilizados pelos geômetras egípcios. O desenho apresenta-se sob a forma de grelha onde estão inscritas as proporções. (N. da T.)

     

    Alguém tentava introduzir-se por arrombamento em casa do mestre-de-obras.

    Hirão abriu de repente.

    Na sua frente estava um cão molhado e famélico, saído do cruzamento entre lobo e chacal. Os olhos castanhos imploravam, sem fraqueza nem servilismo.

    - Vem - disse Hirão.

    O cão vadio pousou as patas da frente na soleira e farejou o ar da casa. Achando-o a seu gosto, olhou de soslaio para o mestre-de-obras e entrou, com prudência, no pátio interior.

    Quando soltava latidos de satisfação, lambendo as mãos de Hirão, Caleb acordou. A visão do animal deixou-o furioso.

    - Expulsai-o, meu príncipe! É um daqueles monstros que devoram imundícies!

    Hirão impediu que o coxo batesse no animal.

    - Ele fica conosco - decidiu. - Chamar-se-á Anup.

    Anup, diminutivo de Anúbis, chacal do deserto, rondando nas profundezas da noite para purificar a terra dos seus despojos. Anúbis, que mumificava o defunto, transformando o cadáver em corpo de ressurreição.

    Não era o espírito de Anúbis que vinha sob forma de cão oferecer a Hirão a presença do Egito e recordar-lhe que no final do seu percurso terrestre, começavam os belos caminhos do Além?

    Nagsara saiu sozinha dos seus aposentos, levando uma caixa de lume cheia de brasas e uma taça de incenso fresco. Meteu-se por um antigo caminho de ronda, cujas pedras cobertas de musgo estavam prestes a ser desalojadas pelas ervas daninhas. O mínimo deslize condenaria o caminhante imprudente a escorregar por uma encosta muito lisa e a partir os ossos. A Lua, rompendo as nuvens, iluminava o caminho da rainha de Israel.

    Nagsara não tremia. O seu pé era firme. Meteu por um carreiro que levava ao cimo de um pico rochoso, em frente daquele em que Salomão decidira construir o templo. Naquele fim de noite, Jerusalém estava mergulhada na escuridão. Em Tanis, capital egípcia onde a princesa vivera, as luzes permaneciam acesas nos telhados dos santuários onde trabalhavam os astrólogos.

    Este torpor favorecia os desígnios da rainha. Em cada fase da Lua podia celebrar um culto a Hátor, longe dos olhares de ódio dos sacerdotes que haviam jurado a sua perda. Nagsara sabia-se amada pela maior parte do povo, orgulhoso do casamento estrondoso do seu rei, e detestada pela casta eclesiástica. Esta não admitia que a esposa de Salomão conservasse a sua fé nas divindades estrangeiras, cuja existência Jeová negava.

    Nagsara não se importava com essa opinião. O seu coração sofria com a indiferença de Salomão. O tempo não atenuava o sentimento violento que alimentava por aquele rei, cuja presença bastava para a enfeitiçar. Salomão não a amava. Aproveitara-se dela como de uma concubina. Se ainda lhe testemunhava respeito, era devido ao seu papel diplomático. A mulher apaixonada e oferecida, essa já não existia. O seu espírito estava preso àquele templo maldito, àquele edifício ainda oculto no nada.

    A egípcia atingiu a plataforma estreita. Ao meio havia um altar tosco. O vento soprava com força. No seio do frio, contudo, brotavam os primeiros odores de Primavera.

    Nagsara tirou a capa. Por baixo, trazia o hábito das sacerdotizas da deusa Hátor. Uma túnica branca de alças, que deixava os seios a descoberto, moldava o corpo fino da jovem que abriu a caixa. As brasas rubras espalharam uma luz secreta que só seria vista pelo céu e pelos olhos da deusa. Sobre o modesto braseiro, a rainha espalhou uns grãos de incenso. Os perfumes dissipavam-se depressa na aragem noturna, mas recordavam a Nagsara as festas sagradas de Tanis, durante as quais o faraó fazia subir para o deus oculto, Amon, a essência sutil de todas as coisas.

    A Lua resplandecia com um brilho invulgar, provando a presença da senhora do céu no centro da sua corte de estrelas...

    Escutai-me, Hátor suplicou Nagsara, erguendo as mãos acima do altar. Que a tua magia se apodere da alma de Salomão. Que os seus olhos me contemplem e se prendam a mim. Expulsai a idéia daquele templo que me rouba o homem que eu amo. Escutai, Hátor, a prece da vossa serva. Que a vossa luz rasgue as trevas, que me devolva a alegria de viver! Que Salomão se torne meu escravo dócil, que os seus pensamentos me pertençam!

    O sangue da alvorada espalhava-se para oriente. Para Nagsara a esperança renascia.

    As espigas de cevada amadureciam. A meio desse mês de Março, as chuvas não passavam de uma má recordação. Os campos estavam alvos. Os gladíolos estendiam o seu manto purpúreo pelas colinas, rivalizando em esplendor com milhares de anêmonas vermelhas que ornamentavam os campos. O Inverno morria, dando lugar às dezenas de espécies de narcisos, jacintos e túlipas. Nos bosques, Hirão pisara tapetes de açafrão de um amarelo tão forte que parecia vindo do Sol. Voltava o tempo dos cantos dos camponeses, do arrulhar das rolas, dos primeiros frutos nas figueiras, das flores das vinhas, por onde deambulavam raposas.

    Desde o fim das chuvadas que o mestre-de-obras passeava todos os dias pelo campo; observava com grande atenção as árvores, altos zimbros, pistáceas, amendoeiras atarracadas, sicômoros de bagas suculentas, romãzeiras com frutos que simbolizam a multiplicidade das riquezas divinas e os dons inesgotáveis do amor. Parou junto de oliveiras de folha prateada, tratadas com dedicação pelos quinteiros. Não ofereciam as azeitonas o óleo tão precioso utilizado na preparação dos pratos, dos medicamentos, dos produtos de higiene, esse óleo que ardia nas candeias e se tornava santo nas mãos dos sacerdotes? Mas era na madeira das oliveiras que o arquitecto estava interessado, um material robusto, que lhe forneceria troncos de dez metros de altura e com quinhentos anos de idade. A árvore exprimia uma paz alegre que conviria a estátuas cuja beleza atingiria talvez a das obras egípcias. Hirão marcou com giz as árvores que escolhera. A segunda espécie indígena que seleccionou foi o cipreste maciço, de fibras cerradas, que conviria às mil maravilhas para revestimento do chão.

    - Porque vos empenhais tanto, se nem sequer sabeis se começareis a abrir os cabocos? - perguntou Caleb. - O templo é uma miragem, um sonho de rei louco. Essas caminhadas são esgotantes. A nossa bela casa de Jerusalém não nos serve?

    Hirão não respondeu e continuou a escolher os seus fustes. Anup não o deixava. O cão saltitava a seu lado, não aceitando que o coxo se aproximasse muito do seu dono. O cão desconfiava de Caleb, que não ousava bater-lhe, com medo de desagradar ao mestre-de-obras.

    Por fim, chegou a manhã tão desejada por Caleb.

    Quando Hirão quis passar a soleira para empreender novo passeio, esbarrou com um rio de homens e mulheres que invadiam Jerusalém. Tratava-se de hebreus vindos da província, mas também mercadores da Babilônia e comerciantes asiáticos. Ricos e pobres misturavam-se em igual exaltação.

    - Que se passa?

    - É Páscoa, meu príncipe! Israel inteiro está em festa. Os crentes vão comer e beber em glória a Deus. Hoje somos todos crentes!

    Hirão resignou-se. Não iria até aos bairros baixos, já que a multidão que subia para o palácio era densa. Muitos gritavam ”Pesah, pesah!”, evocando o milagre da ”passagem” que marcara a saída dos Hebreus do Egito. Saberão que pronunciam um nome egípcio, pensou Hirão, e que prestam assim homenagem à terra que detestam?

    Agricultores e padeiros caminhavam lado a lado, uns mostrando as espigas, os outros o pão, sem fermento. Carniceiros arrastavam centenas de cordeiros que seriam imolados e alimentariam os milhares de convivas presentes no banquete, onde, durante algumas horas, abastados e mendigos se sentariam lado a lado.

    Ao passar em frente da morada do mestre-de-obras, um sacerdote aspergiu a porta com o sangue do animal que acabava de degolar. O líquido viscoso e colante atingiu o rosto e o peito de Hirão.

    O arquiteto voltou para casa e lavou-se. Caleb desaparecera. O coxo não queria faltar à distribuição de vinho, pão e carne. Restava apenas o cão, que detestava tanto a multidão como o seu dono. Este trabalhava sobre o plano que começara a conceber. Inspirou-se no traçado do antigo templo de Edfu, no Alto Egito, criado por Imotep e depositado nos arquivos da Casa da Vida.

    Pancadas na porta e gritos interromperam a reflexão de Hirão. Mal abriu a porta, Caleb com os braços atafulhados de vitualhas enfiou-se em casa.

    - Participai na Páscoa, meu príncipe! Aqui está cordeiro assado, com louro e basilisco, pão ázimo ensopado em molho de pimenta e vinho da Samaria... vinho muito bom... de...

    O coxo caiu perdido de bêbado.

    Hirão afastou-se.

    As ruas tinham-se esvaziado, saiu com o cão, insinuando-se por entre corpos caídos. A refeição de festa fizera inúmeras vítimas, que só retomariam consciência após várias horas de sono comatoso.

    Anup ladrou, prevenindo o seu dono do perigo iminente.

    A uma centena de metros apareceu Banaías à fente de um destacamento de soldados. O rosto grosseiro do general arvorava satisfação de mau augúrio.

     

    Hirão imobilizou-se. O cão encostou-se-lhe às pernas. De espada junto ao corpo, Banaías interpelou o estrangeiro com voz rouca:

    - O rei Salomão exige que te apresentes a ele de imediato, mestre Hirão.

    Salomão recebeu Hirão na sala de audiências, onde acolhia os dignitários estrangeiros. Sentado no trono, o monarca tinha um rosto severo, quase hostil.

    Sem dar sinais de submissão, o arquiteto manteve-se à distância.

    - Quem sois, de fato, mestre Hirão?

    - Um artesão, tornado perito na sua arte.

    - Como acreditar em vós depois do que acaba de acontecer? Como poderia um simples operário obter uma missiva da rainha de Sabá anunciando-me o envio próximo de um carregamento de ouro vermelho?

    - Graças à amizade, majestade. A nossa confraria é mais poderosa do que imaginais. A rainha quer um palácio esplêndido e um templo de formas perfeitas. Por isso, enche de honrarias o seu mestre-de-obras, que para mim é como um irmão. Ele deu atenção ao meu pedido e interveio junto da soberana, de quem é também primeiro-ministro.

    As explicações de Hirão pareciam convincentes, se bem que fossem apresentadas com uma ironia que feriu Salomão. A diplomacia israelita mostrara-se incapaz de convencer a rainha de Sabá. A expedição marítima organizada pelo rei saldara-se por um triste fracasso. E eis que um estrangeiro acabado de se instalar em Jerusalém dava uma lição de eficácia a todo o país.

    - Devo ficar-vos reconhecido, mestre Hirão. Desejareis ficar à frente da minha diplomacia?

    - Um mestre-de-obras não abandona a sua confraria majestade.

    Salomão levantou-se e veio pôr-se na frente de Hirão. Parou a um metro dele, fixando o olhar no do seu interlocutor...

    - Nem para ser rei?

    Os olhos de Hirão não se desviaram.

    - Nem para ser rei.

    - Que desejais, mestre Hirão?

    - Começar a obra. Amanhã mesmo partirei para o porto de Esiongaber.

    - Com que intenção?

    - Organizar o estaleiro de construção segundo o meu ponto de vista. O nosso pacto não o previa assim?

    - Ide, mestre Hirão, e agi.

    O arquiteto partiu, Salomão leu a surpreendente carta da mulher mais rica do mundo. Entregaria nada mais nada menos que vinte e três toneladas de ouro aos marinheiros fenícios que as escoltariam até Israel. Com um agudo sentido das relações internacionais, a rainha de Sabá evitara solicitar a frota mercantil egípcia.

    Refletindo bem, a coligação com os Fenícios provava a intervenção do rei de Tiro. Hirão gabara-se. Não foram ele e o colega quem haviam modificado a posição da rainha, mas o astuto monarca da cidade mercantil. Decerto obtivera um bom preço pelo transporte. Enriquecer Salomão permitir-lhe-ia embolsar uma boa parte desse ouro, em troca dos materiais de construção destinados ao templo. Além disso, não era o rei de Israel obrigado a utilizar os barcos fenícios para entregar o trigo a Sabá?

    Um hábil negociador, ávido de bens materiais, julgava ter brincado com Salomão. Um mestre-de-obras pretensioso atribuía-se poderes que não possuía. Nem um nem outro se apercebiam dos verdadeiros desígnios de Salomão. Não compreendiam que a construção do templo mudaria o curso do tempo e o pensamento dos homens.

    Hirão ficou vários meses em Esiongaber. Caleb, o coxo, ficara em Jerusalém para guardar a casa, onde passava a maior parte do tempo a dormir. O arquiteto tinha levado o cão e os planos. Antes de desenvolvê-los tinha necessidade de cobre, que serviria entre outras coisas para a fabricação de ferramentas, como o cinzel dos canteiros.

    Quinhentos hectares de terreno disponíveis proporcionavam ao mestre-de-obras um inesperado campo de experiências. Com o acordo de Salomão, requisitou centenas de soldados de infantaria desocupados que não se acostumavam a ser marinheiros. O arquiteto repartiu-os em pequenas equipas. Construíram altos-fornos, fundições e uma refinaria para metais. A madeira proveniente de Edom era utilizada como combustível.

    Assim, o porto mercantil foi transformado em cidade industrial.

    Hirão não usava qualquer jóia que denunciasse a sua profissão. As ordens eram dadas em público por Eliap, o secretário do rei, que se apresentava como o verdadeiro motor da empresa. O alto dignitário andava num vaivém contínuo entre Jerusalém e Esiongaber, velando pelas somas investidas e pelo andamento dos trabalhos.

    Hirão tratava da organização de cada oficina. Retificava os gestos dos operários, orientava o trabalho, socorria o menos hábil e afastava o incompetente. Os operários admiravam e temiam aquele estranho contramestre que falava pouco e parecia infatigável.

    O tratamento do minério de cobre deu excelentes resultados. Uma boa quantidade de ferramentas foi armazenada em barracas e uma boa parte da produção foi exportada.

    Até àquele primeiro dia de Outono. Eliap e Hirão não tinham tido nenhuma conversa a sós. Naquela tardinha em que o Sol incendiava as águas calmas do mar Vermelho, os dois homens saíram do último alto-forno, há pouco acabado. No dia seguinte entraria em atividade.

    Caminharam por uma imensa praia deserta, até ao promontório arenoso, de onde contemplaram o drama calmo do poente. Hirão tinha a pele queimada em vários sítios. Ao sentar-se teve a sensação de poder saborear a sua primeira hora de repouso ao fim de muitas luas. Era uma ilusão perigosa à qual não cedia. Apesar da beleza enfeitiçante de uma paisagem que lhe recordava as franjas marítimas do delta do Egito, apesar desta beleza serena, que preparava o caminho de luz do Além, Hirão obrigava-se a estar tão vigilante quanto uma fera perseguida pelos caçadores.

    O homem que estava a seu lado cruzava nervosamente os dedos, como para esconjurar os azares.

    - Esta mascarada acaba por fim - diz Eliap. - Autorizais-me, pois, a voltar a Jerusalém. Não tenho de continuar a dar ordens ditadas por vós.

    - Não atingimos o resultado esperado? Esiongaber produz muito cobre e de excelente qualidade. Israel possui o centro industrial que lhe faltava. Este êxito é-vos atribuído, Eliap.

    - Salomão não é tolo. Além disso, está descontente.

    - Por quê?

    - Porque não liga a essa indústria e às riquezas que ela proporciona. O rei só tem uma idéia em mente: construir o templo. Acha que perdeis tempo.

    - Concordou em levar a bom termo a construção destes altos-fornos. Aqui comecei a conhecer o povo de Israel. Vi-o ao trabalho, numa tarefa difícil, inédita para a maior parte dos operários. Tentei dar-lhes o sentido da obra acabada, mesmo grosseira. Estai certo de que não desperdicei um segundo. Amanhã será preciso abrir um estaleiro maior. Se não tivesse preparado uma primeira equipa de tarefeiros, ia, decerto, fracassar.

    Saltando da água de reflexos de ouro, um golfinho anunciou as brincadeiras de um cardume saltitante que celebrava o fim do dia. Aquele que seguisse o golfinho, que vinha em socorro dos náufragos, não corria o risco de se perder no oceano do outro mundo. Hirão tinha assistido muitas vezes à chegada deste amigo do homem, nos braços do Delta. Subia muitas vezes o Nilo até Mênfis e para grande alegria das crianças aceitava o alimento que lhe davam e as suas carícias.

    Um amigo... O mestre-de-obras devia renunciar a encontrá-lo entre os homens que o rodeavam.

    - Deixai Israel - exigiu com secura Eliap.

    Hirão não respondeu. Eliap, o egípcio, introduzido pelo faraó na corte de Israel para espiar, cumprira a sua missão, ultrapassando todas as esperanças. Devia assistência a Hirão, sob pena de perder a vida, mas ignorava o verdadeiro nome do mestre-de-obras e a sua origem egípcia. Deveria ter sido um aliado seguro, com o qual Hirão podia ter-se aberto.

    - Deixai Israel - repetia o secretário de Salomão. - Ninguém gosta de vós na corte. Nesta terra, a infelicidade espreita-vos. Voltai a Tiro, retomai a vossa existência errante, ide construir edifícios noutros locais.

    - Seríeis hostil ao nascimento de um grande templo em Jerusalém?

    - É uma loucura - afirmou Eliap. - Arruinará Israel e levará à perda de Salomão. Quando a catástrofe for evidente, sereis o primeiro a ser acusado. Não quero nem a vossa morte nem a perda deste país. Apesar de ter nascido no Egito, e de ainda acreditar no deus Ápis, que me protege, tornei-me hebreu. Este povo é hoje o meu. Sou o servo de Salomão. Se não sucumbir à sua vaidade e esquecer esse templo maldito, será um bom monarca.

    - Se eu partir - disse Hirão - Salomão escolherá outro mestre-de-obras.

    - Não - opinou Eliap. - O rei está convencido de que fostes designado por Deus. Se renunciardes, ele admitirá o seu erro e abandonará o seu funesto projeto.

    O disco desaparecia no horizonte, o cardume de golfinhos chegava ao alto mar. Iluminando a noite, o fogo das forjas fazia de Esiongaber uma imensa mesa rubra.

    - E se vos enganardes? Se o templo de Salomão for a chave da felicidade de Israel? - indagou Hirão.

    - Não me engano. Este povo é um mosaico de tribos que tem necessidade de confrontos constantes sob a proteção de um deus que eles julgam único. Salomão é demasiado grande para este país. Pensa e age como um faraó. Mas Israel não é o Egito. É bom que o rei se agarre a uma paz relativa. Que tente criar um templo e um império, é fracasso certo e o fim dos Hebreus. Uma infelicidade de que seríeis o principal responsável, mestre Hirão. Salomão espera-vos em Jerusalém, mal o vosso trabalho esteja terminado. Se pudésseis nunca lá chegar!

    Eliap afastou-se, silhueta obscura na noite crescente.

    Eleito por Deus, predestinado... Quem poderia sucumbir a tal vaidade? Não passavam de historietas para convencer crianças crédulas. Mestre Hirão gostava dos desafios. O Egito fora construído sobre um gigantesco desafio ao invisível. Salomão não era nem seu irmão nem seu amigo. Contudo, a partida de xadrez que ele iniciara com o destino começava a interessar o mestre-de-obras. Servir um ser da estatura de um faraó, mesmo em terra estrangeira, não impunha um dever semelhante à luz que desfazia as nuvens?

    Hirão deixou Esiongaber em meados do Outono, pouco depois do início do ano religioso celebrado do equinócio, durante a festa das colheitas. O sol tornava-se suave. Os dias, longe da canícula, deixavam correr um tempo de perfumes nostálgicos. A natureza preparava-se para o repouso. O mar, por vezes encapelado, vestia-se de tons de verde cantando litanias longínquas, que remontavam aos primórdios do mundo. O arquiteto contemplou-o durante toda a manhã, como se não devesse voltar a vê-lo.

    De trouxa ao ombro, bengala na mão, vestido com a tanga dos operários, saiu da cidade sem falar a ninguém Anup saltitava a seu lado. Esiongaber tornara-se uma cidade próspera, onde mercadores e exportadores tinham sabido tomar o poder. Muitos jovens tinham-se habituado a trabalhar o cobre. Hirão conhecia-os pelo nome. Amanhã, quando precisasse deles, não iriam desiludi-lo.

    Mal o caminhante acabara de abordar a encosta da primeira colina, uma nuvem de poeira anunciou a aproximação de um cavaleiro.

    Anup ladrou.

    Hirão parou, de mãos cruzadas e apoiadas na parte superior do cajado.

    O homem fez o cavalo empinar-se, ameaçando o mestre-de-obras.

    - És tu a quem chamam mestre Hirão?

    - Sou eu, sim.

    O cavaleiro de cabelos ruivos e corpulento, puxou as rédeas com fúria a fim de dominar a montada rebelde.

    - O meu nome é Jeroboão. Salomão encarregou-me de construir as suas cavalariças. Todos os estaleiros de construção do país ficarão sob a minha alçada.

    - Exceto o meu - retificou Hirão.

     

    - Não haverá exceção - garantiu Jeroboão. - Ou te submetes à minha autoridade ou regressas a Tiro.

    - Não reconheço outra autoridade senão a do rei de Israel. Tu, que queres comandar, conheces ao menos a arte do traço?

    O colosso ruivo exaltou-se.

    - Os teus segredos não são mais do que miragens, mestre Hirão. Não te levantes contra mim e sai do meu caminho, senão...

    - Senão?

    O cavalo empinou-se, de novo.

    Dando uma reviravolta, Jeroboão partiu a galope.

     

    A noite estava branca e vermelha. Uma Lua avermelhada iluminava os olhares inquietos dos habitantes de Jerusalém. Não será um mau presságio? Este lugar sinistro não traduzia a cólera de Jeová? No entanto, a paz reinava em Israel. O país enriquecia. Os vizinhos respeitavam-no. A glória de Salomão não parava de aumentar. Mas havia a sua mulher, aquela egípcia, que continuava a oferecer sacrifícios aos seus falsos deuses. Se não fosse esposa do rei, uma mão vingadora teria já cortado o fio dos seus dias.

    Nagsara rezava a Hátor cada vez com maior frequência. No seu quarto, agitava os sistros, instrumentos de música que espalhavam um som metálico agradável ao coração da deusa. Os seus esforços não eram vãos. Salomão passara uma noite com ela, reencontrando um ardor que ela julgava perdido para sempre. Nagsara nada pedira. Muda, contentara-se em dar prazer a seu esposo, como qualquer concubina. O rei, que temia uma catadupa de protestos, de insultos até, apreciara a atitude comedida de sua mulher. Para terem êxito, os jogos do amor não suportavam azedumes.

    Salomão sabia que Nagsara praticava magia com a intenção de dominar os seus sentimentos. Por várias vezes, ordenara a Eliap que a seguisse e observasse os ritos a que se entregava. O rei de Israel não subestimava os talentos de sua esposa. Quando ela entrava em comunhão com Hátor, ele tomava a precaução de girar a marca de Jeová. Assim, afastava os feitiços da egípcia, que se perdiam no solo.

    Porque é que Hirão demorava tanto em Esiongaber? Produzir cobre não era desprezível, mas o porto encontrava-se muito longe de Jerusalém.

    Quando lhe entregaria o arquiteto um primeiro plano? Quando trataria de abrir o estaleiro de que dependia o futuro de Israel? Salomão pensara em contratar outro arquiteto. Hirão era demasiado esquisito e demasiado misterioso, mas conhecia a arte do traço, que tão poucos construtores conheciam. Quem seria capaz de substituí-lo?

    Contudo, a paciência de Salomão, esgotava-se. Aquela noite iria marcar o limite máximo. A partir do dia seguinte ia pedir a Jeroboão que procedesse ao recrutamento de trabalhadores. O rei recebera o ouro vermelho de Sabá. Podia pagar a centenas de empreiteiros e obter os materiais mais perfeitos. Ceder mais tempo à inatividade seria uma falta imperdoável. Hirão não deixara Israel, desiludido ou azedo?

    Salomão dirigiu-se à base do rochedo sobre o qual desejava construir o seu templo. Ergueu os olhos para o ponto mais elevado, um espigão que dominava a colina de Ofel. A cerca de oitocentos metros de altura, a saliência coroava Jerusalém dando à cidade a direção do céu. David fortificara a sua capital. Salomão sacralizava-a. Talharia o rochedo por três lados, ao norte, ao sul e a oeste. Arrasaria a plataforma superior e abriria os edifícios em direção ao este.

    - Não julgais, majestade, que seria preciso primeiro ligar a cidade de David ao rochedo, por um terrapleno? Facilitaria a tarefa dos construtores.

    Salomão reconhecera a voz de mestre Hirão.

    - Ter-me-íeis seguido?

    - Sabia que viríeis aqui.

    - Ledes também nos meus pensamentos?

    - Sou apenas um arquiteto, não um adivinho.

    - Porque essa estranha atitude, mestre Hirão?

    - Interrogai a pedra mágica que tendes na mão esquerda. Ela não vos confere poderes sobre os elementos?

    - Basta de impertinência - respondeu Salomão irritado. - O vosso êxito em Esiongaber não é o de um engenheiro, nem de um mestre-de-obras. Exijo explicações.

    Hirão olhou a Lua. Nela cantavam os velhos textos do Egito, se escondia a lebre de Osíris, que detinha os segredos da ressurreição. Pelo seus quartos crescentes e decrescentes, o sol da noite ensinava ao observador a arte das metamorfoses. A luz azulada banhava o grande rochedo de Jerusalém, atenuando a rudeza da sua nudez. Traria no seu brilho a promessa de um santuário?

    - Conheceis as tradições de Sabá, majestade?

    Salomão temia uma forma de chantagem. Hirão iria por fim tirar a máscara.

    - Os habitantes de Sabá adoram o Sol - continuou o mestre-de-obras. - É na sua luz que eles colhem sabedoria e felicidade. Como reconhecimento, o astro divino faz com que o ouro cresça sem parar no coração das montanhas.

    - São ímpios. Rejeitam o deus único.

    - Não se chama Eloim, nos vossos livros sagrados? Eloim não é um plural que significa ”os deuses”?

    - Sereis perito em teologia, mestre Hirão? Ignorais que o nosso deus também se chama Jeová, ”aquele que é”, e que o seu nome inefável não é revelado senão ao rei de Israel?

    - O que sei, majestade, é que o culto dessa divindade requer poucos sacrifícios e não exige a presença de um templo. Decidistes modificar essa situação. Desejais pôr fim à mediocridade dos vossos ritos, dar-lhes o brilho digno de um grande reino.

    Salomão não negou. O que os Egípcios tinham realizado, realizaria ele também. Jeová já não podia residir em lugares miseráveis. Ele, que era o maior, o único, devia beneficiar de uma glória mais vasta do que Amon de Karnak.

    - Exprimireis, por fim, as vossas exigências, mestre Hirão? O arquiteto agachou-se e tocou na base do rochedo.

    - Esta pedra é boa - disse. - É quente, fraterna. Será um bom suporte para as magníficas construções. Mas será preciso juntar-lhe a proteção mágica dos Sabeus, a fim de torná-la inalterável. Eles detinham uma taça e um cetro de ouro que me foram oferecidos pelo mestre que me ensinou o traço. A sua presença no coração da rocha será garantia de solidez.

    Salomão refletiu. Tais objetos desagradariam a Jeová? Trairiam a fé de Israel?

    - Isso não será chantagem, mestre Hirão?

    - Uma tal empresa não depende apenas dos homens. Se o céu não estiver favorável, o fracasso será certo.

    - Essa taça e esse cetro são virgens de qualquer inscrição?

    - São de ouro puro - respondeu Hirão. - Ouro nascido no fogo secreto das montanhas de Sabá. O arquiteto que o utiliza nas suas fundações coloca ali uma luz que jamais se apagará.

    - Se eu aceitar a vossa proposta, quando começaríeis? O mestre-de-obras pareceu contrariado.

    - Fui ameaçado. Intimaram-me a deixar Israel.

    - Quem ousou?

    - Eu não sou um delator, majestade.

    Salomão não perdeu a contenção. Não acreditava em Hirão. O homem de Tiro inventava uma história para lhe lançar novo desafio.

    - Fica ao vosso critério - considerou o rei. - Não espereis mais concessões da minha parte. Hoje sois livre de deixar Israel. Dentro de três dias dar-me-eis a resposta definitiva. Depois, ser-vos-á impossível retomar a palavra. Que a noite vos seja favorável.

    Hirão ficou na base do rochedo quase até de madrugada. Se invocasse, junto dos seus pares, uma recusa de Salomão, para justificar o seu regresso ao Egito, nenhum deles poria a sua palavra em dúvida. Mas poderia um mestre-de-obras mentir sem se destruir aos seus próprios olhos?

     

    Ao experimentar a rocha com a ponta dos dedos, Hirão sentira que ela revelava um daqueles lugares de eleição, em que o divino encarna na matéria. Salomão tinha escolhido bem. Era ali, e em nenhum outro lugar, que deveria erguer-se o grande templo. O rei tinha em si essa vontade capaz de triunfar da infelicidade, prendendo a visão do homem ao eterno. Hirão já não duvidava de que o futuro santuário era o destino de Salomão. Mas permitiria a sua própria infelicidade, um exílio que o magoava tanto como uma condenação à morte?

    Com a alma pesada dirigiu-se para a sua morada, metendo por ruelas desertas, onde as últimas trevas lutavam contra o dia que nascia. Anup ia a seu lado.

    Hirão entrou. Reinava na habitação um forte odor a incenso e a azeite. Várias lamparinas iluminavam as salas. Uma dezena de sacerdotes ajoelhados rezavam. Ao ver Hirão, um deles levantou-se.

    Sou Sadoc, sumo-sacerdote de Jeová, declarou com ênfase. Sois mestre Hirão?

    O arquiteto avançou. O interior tinha sido devastado, o chão levantado, o escritório revolvido. As paredes haviam sido lavadas, os baús esvaziados e as camas quebradas.

    Este local tinha de ser purificado explicou Sadoc. Estava prisioneiro de espíritos malignos. Apenas um verdadeiro crente habitará nela de agora em diante.

    De busto muito direito, o sumo-sacerdote rejubilou. A barba negra, sem os cantos cortados, dava-lhe um ar severo ao rosto, fazendo-o parecer um juiz do Além. Mas os seus olhos demasiado brilhantes continham a febre de um homem ciumento, ávido de vingança.

    Não volteis aqui, mestre Hirão. Não espereis encontrar outra casa em Jerusalém. Praticastes magia negra, temos provas.

    Com um gesto, Sadoc chamou um dos seus acólitos. Este trouxe uma estatueta de barro que representava uma mulher nua de seios e ancas monstruosos.

    Esta imagem diabólica estava guardada no vosso estojo dos calamos. Se não fôsseis protegido de Salomão, teria exigido a vossa lapidação.

    O que aconteceu ao meu servo, Caleb?

    Não estava ninguém neste antro do demônio.

    Com um simples olhar, Hirão apercebeu-se de que os seus magros bens tinham sido feitos em bocados. Caminhou para a porta, sob o olhar irônico de Sadoc. No momento de deixar para sempre a casa destruída, voltou-se.

    Estai descansado, sumo-sacerdote, que nunca mais residirei nesta cidade odiosa. Mas livrai-vos de me acusar outra vez de feitiçaria: essa mentira virar-se-ia contra vós.

    Sadoc não se importou com aquele aviso. A sua vitória era total. Hirão partia. O templo nunca seria construído. Todos saberiam que Jeová expulsava os mestres-de-obras estrangeiros e que não desejava modificar a cidade de David.

    Perturbado, Salomão consultou os livros sagrados, de que era, enquanto rei de Israel, fiel depositário. Ensinavam como o homem podia ter lugar no trono celeste, se seguisse o caminho da vida e não o da morte. Falavam da alma, de Deus e dos elementos. Mas não respondiam à pergunta que o perseguia havia dias: deveria, na verdade, confiar em mestre Hirão para a construção do templo? O fascínio que sentia por aquele homem não lhe mascararia a realidade? O estrangeiro não seria um revoltado, um vagabundo, que se gabava de possuir uma ciência afinal ignorada?

    Nunca o rei fora vítima de angústias tão lancinantes.

    Quando Nagsara ousou entrar na biblioteca, onde ele consultava os rolos de papiro escritos com caracteres indecifráveis por um profano, a sua primeira reação foi de repeli-la com veemência. Mas a rainha, apenas vestida com um véu transparente, soubera tornar-se desejável.

    - Ignorais, minha esposa, que este lugar vos é proibido? Nagsara deixou aflorar-lhe aos lábios vermelhos um sorriso febril.

    Contemplava Salomão com uma paixão mal contida. Ele ficou comovido com isso. A egípcia, de peruca perfumada, tão cara à alta sociedade de Tanis, tirou os ganchos que prendiam o seu traje nos ombros.

    - Este local é a morada dos livros, não a do amor...

    A objeção de Salomão perdeu-se num beijo, ao mesmo tempo doce e fogoso. O rei resistiu mais ao corpo nu que se apertava contra ele. Durante alguns minutos de intenso prazer ela fez-lhe esquecer Hirão.

    - Possuis grandes poderes, minha esposa.

    - São vossos, meu rei. Pedi e recebereis.

    Uma filha de faraó... Não fora educada por sacerdotes que possuíam feitiçarias invejadas por todos os povos?

    - Saberíeis consultar os oráculos?

    - Observei meu pai, nas salas cobertas do templo de Tanis. Ensinou-me a lavar a boca e a purificá-la com natrão, antes de rezar aos deuses. Possuo a arte de afastar as dores de cabeça colocando uma chama na cabeça de uma serpente de bronze.

    - Aceitaríeis consultar o invisível?

    Nagsara estava resplandecente de felicidade. Finalmente, provaria a Salomão que não devia reduzi-la a um objeto de prazer.

    - Qual é a vossa pergunta?

    - Quero um nome. O do melhor arquiteto para o templo.

    Ainda nua, Nagsara pegou num dos candeeiros e pousou-o no canto norte da sala. Apagou os outros e inclinou-se sobre a luz fraca a ponto de queimar a cara. As palavras que pronunciou protegiam-na.

    - Chama, que conheces o ontem, o hoje e o amanhã, tens de me responder! Se te calasses, o céu e a terra desapareceriam! Se te calasses, as oferendas não mais subiriam ao céu! Se te calasses, o Sol não mais nasceria, os rios secariam e as mulheres ficariam estéreis! Eu, que sou filha do fogo, tenho o direito de te interrogar.

    Nagsara pousou o indicador direito na fronte e agarrou a chama com a mão esquerda. A carne não se queimou. Com a unha traçou hieróglifos na alça da lamparina. A rainha fechou os olhos.

     

    - Aproxima-te, Salomão. - O rei obedeceu. - Estende-te de costas. Ele viu desenharem-se ondulações no teto da biblioteca. As paredes esboçaram uma dança frenética.

    - Pergunta à lamparina, Salomão.

    O rei não reconheceu a própria voz, de tal modo era grave.

    - Quem deve ser o arquiteto do templo?

    A chama aumentou, invadindo a divisão, atacando os rolos de papiro, abrasando Salomão e Nagsara. Mas o rei não sentiu qualquer dor. Aceitou aquele desfraldar das velas do fogo, como um benefício. Viajava sobre um rio de sangue que atravessava altas montanhas.

    De repente sobreveio a calma.

    Nagsara deitada a seu lado dormia.

    Com a chama da lamparina, Salomão acendeu as outras. A sua decepção era cruel. O invisível recusara-se a falar.

    Impossível acordar a egípcia, cuja respiração era regular. O rei tomou a rainha nos braços.

    Na garganta branca da jovem havia uma inscrição em caracteres hebreus.

    A leitura foi fácil.

    Na carne da rainha de Israel estava gravado um nome: Hirão.

     

    O rebanho de ovelhas agitou-se com a aproximação de Hirão. Este reconheceu a pobre habitação do coxo, que, na soleira, cozia em lume brando uma sopa de ervas.

    Meu príncipe! Escapastes-lhes?

    Por detrás da casa, havia um imponente monte de lã, de melhor qualidade do que a da Primavera e que serviria para confeccionar capotes para o Inverno.

    Fugi, quando vi irromper aquele bando de sacerdotes fanáticos. Eles não hesitam em lapidar os que os incomodam.

    Sem passar pelo julgamento de Salomão?

    O rei não pode tratar de tudo...

    Porque não tentaste prevenir-me?

    Não tive tempo, meu príncipe.

    Caleb perguntou-se se o arquiteto não se tornava um adversário mais perigoso do que os adoradores de Jeová.

    Atraiçoei-vos um pouco, concordou. Mas não tinha alternativa. Jerusalém deixa de ser uma cidade segura, quando os sacerdotes estão demasiado presentes.

    Anup, que seguira Hirão a certa distância para lhe proteger a retaguarda, aproximou-se do dono. Ao ver Caleb, rosnou.

    Outra vez esse maldito cão... Onde contais ir, meu príncipe?

    Hirão passou à frente do redil e desceu uma encosta cheia de ervas, que acabava num campo abandonado, onde cresciam figueiras de copas frondosas. Ofereciam, em abundância, figos de Outono de polpa açucarada. Não estavam podados em forma de guarda-sol, mas cresciam em liberdade, ao sabor das estações.

    O mestre-de-obras sentou-se à sombra de uma velha figueira solitária. Anup estendeu-se a seus pés. Seria ali, sob a árvore mais vulgar em Israel, que Hirão tomaria a sua decisão. Muitas vezes, perto do templo de Karnak, saboreara horas de meditação sob a folhagem de um sicômoro ou de um tamariz, na orla do deserto. Os pensamentos afogavam-se-lhe no silêncio, os sonhos perdiam-se-lhe na luz. Em criança, Hirão trepava aos ramos mais altos e via passar os camponeses, empurrando os burros carregados de fardos. Caminhavam à beira da terra vermelha antes de voltarem a entrar nas culturas e entoavam uma cantiga que datava da época dos construtores das pirâmides. Quando viu uma confraria de escribas com os seus calamos e paletas, o jovem Hirão sentiu vontade de compreender e conhecer tudo. O saber embriagara-o de modo mais forte do que a cerveja das festas. Não parara de interrogar os seus pais sobre as características dos animais, das plantas, sobre as cheias do Nilo, a força dos ventos, a leitura dos hieróglifos. No dia em que tivera a certeza de que eles eram incapazes de lhe dar respostas, o rapaz de catorze anos deixara a sua aldeia, com um saco ao ombro. Conseguiu ser aceite num navio de mercadorias e chegou a Tebas. O seu destino: o lugar do Conhecimento, o templo, onde entravam os escribas.

    Depressa perdera as esperanças. Se a grande corte era acessível aos nobres aquando das festas, as salas de ensino do templo coberto permaneciam hermeticamente fechadas.

    Hirão saíra da cidade e meditara durante muito tempo, sentado à sombra de um leve tamariz. Assistindo ao percurso do Sol e ao desdobrar das cores do dia, desde as da aurora ao ouro do pôr do Sol, fixara a regra da sua existência: ir até ao fim do seu desejo, não renunciar sob nenhum pretexto, acusar-se sempre dos seus fracassos e não aos outros, nem a acontecimentos exteriores. Munido desse viático, exercera vinte profissões: mercador de legumes, reparador de sandálias, escolhedor de peixe, cesteiro, fabricante de jarras, antes de nele ter reparado um instrutor de cavalaria. Depois de ter tratado dos cavalos, aprendeu a montar e a conduzir um carro. Depois chegou o momento da escolha: ser soldado ou escriba.

    Para seu próprio espanto, apoderara-se dele a hesitação. A vida militar não era a mais brilhante, exaltante fonte de prestígio e de riquezas? Ao fim de nova meditação sob um tamariz, frente ao deserto, onde se erguiam as moradas da eternidade, Hirão seguira o caminho do templo. A seus olhos esse ser de pedra, imenso e misterioso, era a própria vida.

    Veio o período mais feliz da vida de Hirão, a dos estudos dirigidos por mestres severos, exigentes, mas dotados daquele conhecimento ao qual o seu coração aspirava havia muito. Aprender foi o mais saboroso dos prazeres, trabalhar uma paixão, descobrir uma alegria sem limites. O jovem escriba orientou-se para a arquitetura. Manejava todas as ferramentas, desde a enxó de carpinteiro ao cinzel do canteiro, conheceu a camaradagem dos estaleiros, onde o trabalho do espírito e da mão era um só, iniciou-se na realidade da pedra, familiarizava-se com os granitos, o grés, os alabastros, os calcários, a fim de escolher, apenas pelo contato com a palma da sua mão, os blocos dignos de entrar num edifício.

    Depois foram as viagens, no Egito e ao estrangeiro, os encontros com outros arquitectos, outras técnicas, outros credos. Hirão calava-se e escutava. Durante este período, permanecera uns tempos em Sabá, onde a influência egípcia, ainda que muito forte, não era acompanhada de colonização. Longe do seu país, sofrendo já um exílio, embora temporário, Hirão ligara-se por amizade a um mestre-de-obras egípcio com quem a rainha de Sabá simpatizara. No cume de uma das montanhas de ouro, Hirão recebera a revelação da arte do traço.

    Remexera o solo à procura de uma pedra pontiaguda. Gestos lentos, precisos, eficazes. A taça e o cetro de ouro saíram da terra branda, onde Hirão tivera a precaução de os esconder antes de habitar em Jerusalém. Como confessar a Salomão que aqueles símbolos tinham sido oferecidos ao faraó Quéops pela primeira rainha de Sabá, quando da construção da grande pirâmide? A soberana que venerava o Sol, como o faraó, achara bom estabelecer uma associação mágica na construção daquela maravilha do universo. Assim, deslocara-se em peregrinação a Mênfis e, numa noite de Inverno em que brilhava a Estrela Polar, rodeada da sua corte infatigável de estrelas, depusera na câmara baixa da grande pirâmide o ceptro de Sabá e, sob a esfinge, uma taça que continha orvalho da primeira manhã do mundo.

    Eram esses objetos que o faraó Siamão entregara a Hirão, antes da sua partida do Egipto para Israel. Eram esses que o mestre-de-obras deveria colocar nas fundações do templo de Salomão, a fim de que fosse erigido sobre a antiga sabedoria.

    Salomão aceitaria.

    Se Hirão levasse a cabo esse ritual, se chamasse assim o templo à vida, não poderia jamais abandonar a obra. Dando vida a um santuário, o arquiteto consagrava-lhe a sua.

    Hirão tudo tentara para provocar a cólera de Salomão. O rei de Israel obstinara-se na sua escolha. Tal como o mestre-de-obras, também ele seguia o caminho do seu coração e não se detinha perante obstáculos, em aparência intransponíveis.

    Se Hirão aceitasse tornar-se o mestre-de-obras de Salomão, se desempenhasse a função que lhe fora confiada pelo faraó Siamão, conheceria a maior solidão. A quem pedir conselho, a quem confiar as suas dúvidas e as suas interrogações? Os senhores de Karnak estavam muito longe, na luminosa serenidade do templo do Alto Egito. Obrigado a calar o segredo das suas origens, a calar o seu verdadeiro nome, a sofrer os rigores do exílio, seria Hirão capaz de suportar tal peso durante vários anos? Nada o havia preparado para esta tragédia. Educado numa comunidade de sacerdotes, iniciado na sua arte por uma confraria de artesãos, o arquiteto gostava da fraternidade, por vezes áspera, que presidia às tarefas quotidianas da Casa da Vida. Também a essa alegria era preciso renunciar. Hirão teria de reinar sobre um povo de operários sem conceder a sua amizade a ninguém.

    À sombra da figueira, sob o terno sol outonal, na calma campestre da Judéia, Hirão teve vontade de renunciar.

    A distância era demasiado grande, entre o futuro de um mestre-de-obras egípcio a quem era prometida uma velhice calma e o de um arquiteto de Salomão, contado com uma aposta impossível. Como privar-se da beleza da terra negra e fértil das margens do Nilo, da exaltação do deserto, da cumplicidade do vento do Norte?

    Não tinha atingido o seu objetivo, tornar-se um dos arquitetos do faraó, trabalhar ao lado dos seus irmãos na harmonia da Casa da Vida, embelezar todos os dias as pedras da eternidade indiferentes às tribulações humanas? Nenhuma outra ambição habitava a sua alma. Porque o obrigavam os deuses a perder a felicidade servindo o rei de um país estrangeiro e construindo um santuário em honra de uma divindade muda para o seu coração?

    Renunciar era reconhecer a sua fraqueza. Rever o Egito, saborear de novo a brisa que inchava as velas dos navios exigia um sacrifício. Hirão sentia-se disposto a aceitar esta humilhação perante os seus confrades.

    Perante Salomão, recusava-a.

    Depois de ter desconfiado do rei, de tê-lo quase detestado, Hirão participava na sua paixão. Tal como ele, Salomão estava só... Sozinho, desafiava um povo inteiro, a casta dos sacerdotes, os cortesãos e os costumes. Sozinho queria criar uma obra-prima correndo o risco de perder o seu trono.

    Salomão era o último ser humano a quem Hirão se podia confiar, mas encarnava aquela vontade ardente, que um dia animara um jovem egípcio ávido de conhecimento. Uma impossível fraternidade nascera entre os dois homens.

    Furioso, Hirão teve vontade de atirar para longe o cetro e a taça.

    Iluminados pelo sol do fim de tarde, brilhavam com uma intensidade selvagem que atraiu a atenção de Caleb. O coxo aproximou-se, hesitando em apoderar-se deles. O olhar de Hirão dissuadiu-o.

    O mestre-de-obras fixava o ouro de Sabá com intensidade, como se aí decifrasse o seu futuro. Uma chama inquietante ensombrava os seus olhos azul-escuros.

    Quando os últimos raios pintaram de cor de laranja as folhas da figueira, Hirão levantou-se. Ninguém diria que um mestre egípcio fugia perante a obra a realizar.

    Construiria o templo, ainda que fosse o de Salomão.

    Saturno reinava no alto do céu; ele tornaria o edifício sólido e durável. Salomão, vindo do palácio, e Hirão, do campo, chegaram ao mesmo tempo à base do rochedo.

    O mestre-de-obras apresentou ao rei o cetro e a taça. O ouro vermelho tingia-se de prateado devido à luz da Lua.

    Com uma verruma a que torcia com rapidez a rosca, Hirão furou a rocha e abriu uma cavidade, onde depôs os objetos preciosos. Depois tapou-a hermeticamente, com pedras cuja presença dissimulou. Com exceção de Salomão e do mestre-de-obras, ninguém saberia que o embrião do templo de Jeová era o Sol de Sabá. Além de Hirão, ninguém saberia que o Egito era mãe do maior santuário de Israel e que o deus escondido nas pirâmides ressuscitaria em Jeová.

    Salomão continha com dificuldade a sua emoção. Segundo os formulários de magia que consultara, o local escolhido pela mão de Hirão correspondia à porta de um mundo secreto. Para lá dela partia um caminho que conduzia a um abismo cheio de água que ocupava o centro da Terra. Aí se reuniam os espíritos dos mortos, a fim de que o Além estivesse presente no coração do Aqui.

    O rei teve, assim, a certeza absoluta de que o oráculo consultado por Nagsara não mentira. Quem mais, senão o arquiteto escolhido pelo invisível, teria vencido o acaso? Quem mais teria feito o gesto certo, no momento certo?

    Salomão rodou no dedo o rubi dado por Natão. Dirigiu uma prece muda aos espíritos do fogo, do ar, da água e da terra, a fim de participarem na criação do edifício como na de todo o ser vivo. Pediu-lhes que fossem guardiões da soleira do santuário, que o rodeassem de uma presença permanente.

    Hirão observava o cimo do rochedo onde se jogaria o seu destino.

    Salomão saboreava a felicidade de um nascimento. Neste quarto ano do seu reino iniciava-se a construção do templo.

     

    A cólera de Salomão era tão terrível que Eliap, que julgava gozar da confiança do seu senhor, temeu pela sua vida. Nunca o rei de Israel cedera àquele destroçamento da alma que os sábios condenavam. O monarca não cessava de evocar Jeová como deus vingador e prometia castigar os culpados do desaparecimento de Hirão.

    Não há nenhum culpado afirmou, tímido, o secretário quando o rei pareceu acalmar-se.

    Hirão não é localizável e ninguém é responsável? Estás a troçar de mim, Eliap?

    Por vossa ordem mandei procurar o mestre-de-obras, por Banaías e os vossos melhores soldados. Revistaram as casas, as caves, as oficinas, os entrepostos. Não há vestígios de Hirão.

    A casa onde ele habitava?

    Vazia.

    O testemunho dos vizinhos? Eliap hesitou.

    Fala exigiu Salomão.

    Viram entrar sacerdotes e depois levar objetos. O tom gélido de Salomão foi ainda mais alarmante.

    Que o sumo-sacerdote compareça de imediato perante mim. Eliap correu a avisar Sadoc.

    Salomão percorria em todos os sentidos o seu gabinete de janelas estreitas. Que se passava na capital? Há três dias que esperava a vinda de Hirão. O arquiteto não dera mais sinal de vida desde a cerimônia secreta da fundação do templo. A hipótese de uma partida precipitada era absurda. Por aquele ato ritual, Hirão dera a sua palavra de que iria até ao fim da empresa desejada por Salomão. Este tinha conhecimento suficiente dos homens para estar convencido de que o mestre-de-obras não trairia o juramento.

    Se não vinha ao palácio era porque estava impedido de o fazer. De que forma e por quem? A menos que se tivesse de pensar no pior...

    Salomão recebeu o sumo-sacerdote, Sadoc, mal este pediu audiência. Eliap, num dos cantos da sala, munido do cálamo e de uma pedra preparava-se para tomar notas da conversa.

    O rei desdenhou das regras de cortesia.

    - Porque é que os teus sacerdotes invadiram a casa do meu mestre-de-obras?

    Sadoc vestido com uma túnica violeta de belo aspecto, sorriu com desdém.

    - Esse Hirão é um ímpio, majestade. Pratica magia negra.

    - As provas.

    - O rei contentar-se-á com a minha palavra. Não será preferível esquecer as suas sinistras ações? O essencial era afastar esse homem perigoso, que teria manchado a glória de Israel.

    Salomão empalideceu.

    - Que fizeste contra Hirão?

    - Nada, majestade. Esse necromante é um covarde. O meu aviso foi suficiente para o fazer fugir.

    - Se me mentiste, sacerdote, arrepender-te-ás.

    Sadoc seguro da sua boa causa, inclinou-se. O rei esqueceria depressa. A obsessão que lhe perturbava o espírito desapareceria. Hirão e o templo não passariam de maus sonhos.

    Salomão desceu ao jardinzinho arranjado por sua esposa, na extremidade de uma ala do palácio. Tinha necessidade de respirar, de escapar ao torno que o apertava. Opor-se aos sacerdotes iria gerar uma revolta subterrânea que poria o seu poder em perigo. O inquérito sobre o desaparecimento de Hirão não lhe trouxe nenhuma informação. Obstinar-se-ia Deus em contrariar os planos do seu rei?

    Nagsara, sentada em almofadas, entaladas entre dois ciprestes anões, tocava uma harpa portátil que assentava no seu ombro esquerdo. Desde de o oráculo que o rei partilhava o seu leito todas as noites. Os encantamentos da deusa Hátor tinham-lhe devolvido o marido.

    O amor de Nagsara não parava de aumentar. Não faltava nenhuma qualidade a Salomão. A beleza e a inteligência tinham gerado a união perfeita, neste monarca destinado, pelo seu gênio, aos mais altos desígnios. Nagsara estava orgulhosa de ser sua esposa. Saberia ser uma serva dedicada, feliz por viver à sombra de um monarca favorecido pelos deuses.

    A contrariedade que lhe marcava o rosto suscitou a de Nagsara. Ela parou de tocar e ajoelhou-se na sua frente.

    Poderei aliviar o vosso desgosto, senhor?

    A tua magia poderá encontrar um homem que julgamos perdido?

    Talvez, consultando a chama... Mas o exercício é difícil e falha muitas vezes.

    Nagsara arrastou Salomão para o seu quarto, que pôs às escuras.

    Possuís um objeto que lhe pertença?

    Não.

    Nesse caso enchei o vosso espírito dos seus traços fisionômicos. Vede-o como se estivesse na vossa frente e, sobretudo, não o percais por um instante.

    Nagsara acendeu um candeeiro. Fixou a chama até ficar encandeada, quase cega.

    Falai, deusa de ouro, levanta o véu que pesa sobre o meu olhar. Não faças sofrer o meu rei, não o tortures com o silêncio. Revela-lhe o lugar onde se encontra quem ele procura, traça os seus contornos na chama.

    Nagsara ergueu as mãos em sinal de súplica, antes de perder a consciência. Não revelaria a Salomão que as suas viagens a um mundo povoado de forças imateriais lhe arrancariam vários anos de vida. Haveria maior felicidade do que sacrificá-los àquele a quem amava?

    Uma forma curiosa apareceu na chama que se tornara de uma brancura quase irreal. Era composta de espirais entrecruzadas. Depois o quadro simplificou-se, deixando aflorar uma espécie de antro rochoso.

    Uma gruta reconheceu Salomão.

     

    Com os seus latidos, Anup preveniu Hirão e Caleb da chegada do intruso. O coxo precipitou-se para uma estaca de metal que empunhou com determinação.

    - Tinha-vos avisado, meu príncipe! Não vos deixarão em paz. O arquiteto continuou a polir a rocha.

    - Estais aqui, mestre Hirão? - perguntou a voz rouca do general Banaías.

    O arquiteto saiu da gruta que arranjava em companhia de Caleb. Talhada no flanco de uma colina situada fora dos muros, revelava-se saudável. O coxo levara para lá cobertores, utensílios. Hirão iniciara-o no manejo do cinzel e do brunidor. A mão de Caleb depressa se cansara. Preferia exercer os seus talentos de cozinheiro e dorminhoco.

    Hirão saiu da gruta. Durante um instante, a luz cegou-o.

    Banaías, que seguira as instruções de Salomão ao explorar as grutas das redondezas, ficou satisfeito por conseguir encontrá-lo. Embora detestasse aquele estrangeiro, devia obediência absoluta ao rei.

    O mestre-de-obras foi conduzido ao palácio sob escolta. Salomão recebeu-o com entusiasmo.

    - Porque vos escondíeis?

    - Estava a tornar habitáveis os meus novos domínios. Ninguém poderá censurar-me por ocupar uma casa em Jerusalém. Nenhum sacerdote vos acusará de me terdes dado guarida. Não é isso sensatez?

    Salomão não suportava ver o seu poder diminuído por uma casta, ainda que intocável. Mas Hirão tinha razão. Residindo fora da capital, permaneceria um estrangeiro e não contrariaria Sadoc.

    - Esta gruta é indigna de vós.

    - Estar no coração da pedra não me incomoda.

    - Porque não me prevenistes?

    - Farei a minha tarefa. Não espereis relatórios administrativos sobre as minhas atividades. Dei-vos a minha palavra. Porei uma última condição: que a construção do templo seja acompanhada pela de um palácio. Se a gruta condiz comigo, a pobre residência do rei David é, na verdade, indigna de Salomão.

    Não havia subserviência nas palavras de Hirão, ao alargarem o projeto inicial. Os grandes monarcas não associavam a sua morada temporal à morada divina? Não devia ser o palácio uma parte do templo, lembrando ao rei que desempenhava a função de primeiro sacerdote de Deus?

    Comunicar-me-eis os vossos planos?

    Não respondeu Hirão. Devem manter-se secretos. A arte do traço é uma ciência reservada aos arquitetos.

    David não teria admitido tanta insolência.

    Vós sois Salomão e eu sou um estrangeiro. Não somos nem da mesma raça nem da mesma religião. Mas estamos associados na mesma criação. Comprometo-me a construir e a dar-vos a minha ciência. Vós comprometeis-vos a dar-me meios de consegui-lo.

    Seja. Quanto tempo estimais a duração das obras?

    Pelo menos sete anos.

    Eis o meu próprio plano, mestre Hirão. Só vós o conhecereis. Os dois homens fecharam-se todo o dia no gabinete do rei, onde Eliap, o secretário, não foi convidado a entrar.

    Salomão decidira orientar o conjunto da sociedade israelita para a edificação do templo. Por decretos que os prefeitos das regiões fariam cumprir, trabalhadores e criadores por-se-iam ao serviço dos operários enviados para o estaleiro do templo. Os produtos alimentares ser-lhes-iam entregues com prioridade. Os trabalhadores de Esiongaber deixariam o porto no mais curto espaço de tempo, a fim de formarem um primeiro corpo de tarefeiros e dez mil hebreus partiriam para o Líbano, para fazerem a recolha da madeira cortada pelos lenhadores do rei de Tiro. Ao fim de um mês de trabalho, durante o qual efetuariam um transporte perigoso e penoso, Salomão dar-lhes-ia dois meses de descanso.

    O monarca fixara o número de efetivos necessários: oitenta mil cabouqueiros, setenta mil carregadores, trinta mil artesãos afectos em permanência no estaleiro. Exigia que de uma forma ou de outra, no decurso de um ano, todo o israelita participasse na grande obra. O templo seria a criação de todo um povo.

    Esta modificação total da economia impunha nova subida de impostos e a organização de uma faina como dever nacional. Isso implicava o risco de um levantamento, mas o rei achava que teria forças para o dominar.

    Hirão manifestou as exigências. Os vendedores de tecidos e os alfaiates tinham de fabricar milhares de aventais de lã grosseira para os tarefeiros atarem em volta dos rins. Para os contramestres, os curtidores arranjariam aventais de couro pintados de vermelho; para os pedreiros e os aprendizes, de branco. Aos construtores seriam fornecidas esteiras, peneiras, fueiros, macetes, enxadas, alavancas, formas para tijolos, machados, enxós, serras e buris. Os cinzéis de cobre viriam dos entrepostos de Esiongaber. Hirão seria o próprio a escolher os cabouqueiros que extrairiam com picaretas os blocos de basalto e de calcário. Instruiria os talhadores de pedra que até ali se limitavam a dar forma a mós ou a prensas de lagar. Os melhores, que manejavam com habilidade o aparelho de brunir, tinham construído as casas dos ricos. Mas nenhum tinha sondado os mistérios da arte do traço. Entalhadores de madeira que trabalhavam por conta própria em cada aldeia iam ser transformados, por Hirão, em carpinteiros capazes de talhar grandes traves e efetuar estruturas complicadas. Faltava formar pedreiros que não se contentariam com erguer muros de quinta, mas tinham de manejar cordel, nível e fio-de-prumo para passarem do plano ao volume. Seriam ajudados por alguns especialistas fenícios instalados na costa e requisitados por Salomão.

    O rei e o mestre-de-obras estavam conscientes da enormidade da sua tarefa. O templo revolvia todo o país e até, sem dúvida, a vizinhança. Apagaria o passado e fundearia o futuro na glória de Deus.

    - Os estaleiros são colocados sob a vossa exclusiva autoridade, mestre Hirão. Quanto ao imposto braçal, será organizado pelo melhor arquiteto hebreu.

    Hirão aprovou a decisão. Não lhe cabia encarregar-se da contratação e controlo dos tarefeiros.

    - Quem é?

    - O que construiu as minhas estrebarias, Jeroboão.

     

    O aspecto dos terrenos que antecediam as muralhas de Jerusalém sofrera profunda modificação. Os camponeses que tinham hortas tinham sido expulsos. Louvavam Salomão por lhes ter atribuído quintas e campos de uma zona rural próxima. Com os talhadores de madeira, Hirão construíra uma paliçada que escondia aos profanos o local de construção do templo. Uma única porta, guardada dia e noite, lhe dava acesso. Cada trabalhador recebia do próprio Hirão uma palavra senha.

    Lá dentro, o mestre-de-obras mandara construir várias casas de tijolo: reservas de utensílios, dormitórios, refeitórios, armazéns que continham alimentos e roupas. A mais importante de todas era a oficina do traço, onde Hirão passava a maior parte do tempo. Duas caixas de madeira continham uma, óstracos, lascas de calcário nas quais ele executava os desenhos preparatórios, a outra, rolos de papiro, onde seriam traçados os planos definitivos. O arquitecto cosia ele próprio as folhas que enrolava em volta de um cilindro, a fim de obter um papiro de mais de cinqüenta metros de comprimento. Desenrolado no chão conteria a estrutura da obra.

    Desde o início efetivo dos trabalhos que Hirão quase não voltara à gruta, onde se sentia tão bem. O seu cão, Anup, fazia-lhe grande festa, gemendo quando ele o deixava. Por seu lado, Caleb, o coxo, perdia a jovialidade. Era certo que beneficiar de teto e comida, estando ao abrigo da necessidade, eram vantagens apreciáveis. Mas sentia saudades da bela casa de Jerusalém e do seu conforto. Ser obrigado a alimentar o cão e a zelar pela sua saúde não lhe agradava nada. Mas temia a ira de Hirão, em caso de negligência.

    O mestre-de-obras trabalhava noites seguidas, desenhando centenas de figuras de que não aproveitava senão uma ou duas. Reencontrava a energia inesgotável que devia presidir a uma criação. Hirão identificava-se com o templo futuro e preparava a sua génese como a de um ser vivo. Apoderara-se dele uma estranha febre que lhe queimava a fadiga.

    O aluno dos mestres de Karnak media a dificuldade da tarefa: dar à luz um santuário, que seria o de Jeová, mas cujas arquitetura e simbologia prolongariam as dos templos egípcios. Transcrever sem trair, transmitir sem divulgar, encarnar o céu na Terra... A ambição era imensa, o dever esmagador.

    Uma nova noite de labor acabava. Desta vez o esgotamento apoderava-se da mão de Hirão. Poisou o cálamo, limpou os godés que continham tinta preta e vermelha, enrolou o papiro e empilhou os óstracos depois de os ter numerado.

    Ao sair da oficina do traço, contemplou o estaleiro. As diversas construções estavam quase terminadas. Os operários dormiam. Hirão soubera insuflar-lhes entusiasmo, dar-lhes a certeza de participar numa aventura fora do comum. Naquele local fechado, protegido, reinava uma harmonia secreta que aqueles homens rudes, a aprenderem a trabalhar juntos, descobriam hora a hora.

    O mestre-de-obras passou em frente do posto da guarda, onde acabara de se efetuar a rendição. Caminhou em direção à base do rochedo, erguendo mais uma vez os olhos para o cimo. A obra deveria começar mesmo lá por cima, por muito irrealizável que parecesse.

    Um galope cortou a brisa fresca da aurora.

    Jeroboão deteve-se a um metro do arquiteto e saltou para terra. O colosso ruivo estava furioso.

    - O rei confiou-me a responsabilidade do imposto braçal anunciou. - Sou um servo fiel. Obedecerei, mas recuso as vossas ordens.

    - Impossível - considerou Hirão. - O imposto braçal não é uma decisão arbitrária. Faz parte de um plano da obra. Salomão não pode ter empregado outra linguagem. Prestar-me-eis contas todos os dias. Quero saber o número excto de homens que são empregados e a natureza do seu trabalho. Uma única falta de cumprimento desta regra e sereis destituído.

    Impressionado pela severidade das palavras de Hirão, Jeroboão compreendeu que o mestre-de-obras tomava uma dimensão oficial que lhe seria incômodo abalar. Simples ameaças seriam inoperantes.

    Sois um homem autoritário, mestre Hirão.

    A minha função assim o exige. Estais, na verdade, decidido a servir-me, com a fidelidade que o rei exige?

    Podeis ter a certeza respondeu Jeroboão, cujo olhar de ódio desmentia as palavras.

    Por um momento Salomão ficou sem saber se o mestre-de-obras não estaria a ficar demente. O projeto que ele lhe apresentava, no cimo do rochedo, desafiava a razão.

    Estais certo de não vos expordes a uma catástrofe?

    Os meus cálculos não podem enganar-me. Conseguiremos atulhar a ravina de Melo e fechar a brecha que separa a cidade de David do local onde será edificado o templo. Assim será criada uma encosta suave que facilitará o transporte dos materiais e permitirá que a cidade baixa comunique com o novo coração da capital.

    O rei examinou o plano que o arquiteto traçava na areia. A visão era tão simples quanto grandiosa. Impunha-se, tornava-se evidente. Tal como Salomão previra, o templo, apenas pela sua presença, modelava uma nova Jerusalém, uma cidade celeste prometida aos justos nas Escrituras.

    Hirão pensava nos enormes trabalhos que haviam precedido o nascimento das pirâmides de Guizá: escolha de vários hectares de terreno sobreelevado, abertura de pedreiras gigantescas, arrasamento e nivelamento do planalto, colocação de rampas de acesso e preparação de técnicas de alavanca cujo segredo não fora divulgado, organização rigorosa de um estaleiro onde trabalhava um grande número de tarefeiros e um pequeno número de geómetras e talhadores de pedra. Unir por atulhamento um esporão rochoso a uma colina habitada parecia-lhe quase fácil em comparação com os antigos prodígios.

    - Não arriscareis a vida dos vossos operários? O mestre-de-obras revirou os olhos exasperado.

    - Nunca me acheis capaz de uma tal baixeza. Se assim tivesse de ser, abandonaria já o meu cargo. A segurança dos homens que trabalham sob a minha direção é a minha preocupação primordial. Se me forem imputados acidentes, despedi-me sem demora.

    Salomão arrependeu-se de ter magoado Hirão.

    Na hora seguinte, o mestre-de-obras reuniu centenas de trabalhadores que já tinham chegado ao estaleiro, cujos anexos não cessavam de crescer em torno do nó inicial, a oficina do traço. Alguns tinham experiência, outros desempenhavam a sua primeira tarefa. Hirão enquadrou-os por técnicos que formara em Esiongaber. Era ainda demasiado cedo para os distribuir segundo os grandes rituais aplicados no Egito. Para além das directivas diárias, Hirão exercia uma constante vigilância. Distinguia os corajosos dos preguiçosos, os atentos dos negligentes, os hábeis dos inaptos. Atulhar a ravina não exigia grandes competências, mas sim uma organização perfeita. Por isso, Hirão nomeou contramestres capazes de fazer cumprir as suas ordens.

    Algumas semanas depois, Jerusalém mudara de rosto. O rochedo já não campeava num soberbo isolamento. Tornara-se acessível por uma grande encosta que ia dar às casas da parte baixa da cidade. Todos estavam orgulhosos do resultado obtido, sentindo que o sonho de Salomão podia tornar-se realidade. Ao dominar o rochedo selvagem, Hirão modificara-lhe a natureza. O pico orgulhoso tornava-se humilde plataforma do futuro santuário.

    Salomão não encontrara qualquer resistência. Não houvera sombra de desânimo. Do povo não saíra qualquer protesto. Israel era transportado por uma vaga mágica, que o levava para um novo horizonte, resplandecente e grandioso. Das terras vizinhas chegavam mensagens de felicitação. A paz desejada por Salomão consolidava-se todos os dias. O pacto de não agressão concluído com o Egito e a presença da filha do faraó na corte de Israel dissuadia os agitadores de se manifestarem.

    Uma era de felicidade estaria a começar? A Cidade Santa tomava forma sobre o ponto culminante de Jerusalém? Uma nova fé avassalava os corações. Se não fosse ímpio venerar um homem como se fosse um deus, teriam dado graças a Salomão.

    Hirão permaneceu na sombra sem ter descanso, nem distracção. O trabalho absorvia-o. Precisava de avançar, formando bons operários, na esperança de fazer deles os melhores dos artesãos, de que, em breve, iria precisar. Era impossível contar com os aprendizes formados com paciência pelos geômetras dos templos do Egito. Hirão procurava caracteres fortes, equilibrados, receptivos. Nalguns meses eles teriam de aplicar uma ciência que os adeptos costumavam aprender em vários anos. Era o aspecto mais inquietante daquela louca empresa: confiar no gênio nascente de alguns e constituir uma confraria de artífices no próprio local de aprendizagem. Como Hirão teria gostado de beneficiar da ajuda de outros mestres-de-obras! Mas era utopia. A fraternidade da pedra ensinara-lhe o real. Sonhar com recursos ilusórios era mera perda de tempo.

    O mestre-de-obras acabou de fazer uma lista com uns cinquenta nomes. Os dos aprendizes que iniciaria no conhecimento das leis de criação do templo, no manejamento das ferramentas e no assentamento da pedra. Relia-a quando lhe chegaram os ecos de uma altercação que se travava na única porta da cerca.

    Alguém tentava entrar à força no estaleiro.

    Hirão precipitou-se para fora da oficina do traço, chamou uns operários que estavam a descansar e encaminhou-se para o guarda da entrada, que repelia um intruso.

    Latidos saudaram a aproximação do mestre-de-obras. Hirão reconheceu os latidos do seu cão, que furou até chegar junto dele, abandonando Caleb à fúria de vários operários. Os apelos de socorro do coxo não foram vãos. Hirão salvou-o das mãos agressoras antes que fosse maltratado.

    - Ignoras que este local é proibido aos profanos?

    - Deixai-me falar, príncipe! O vosso cão entrou...

    Caleb lançou-se numa longa súplica em que se queixava de ser abandonado, de sofrer frio, de ser incapaz de prover às suas necessidades, de mergulhar na miséria, de ser amaldiçoado por Jeová em pessoa.

    Interrompendo o fluxo de palavras, Hirão levou-o até junto da construção cuja porta estava fechada à chave. Abriu. Caleb distinguiu um compartimento duas vezes mais comprido do que largo, iluminado por três janelas com grades.

    - Se desejas entrar no estaleiro, terás de passar por uma prova. Aqui e agora.

    Caleb recuou um passo.

    - A minha vida... estará em perigo?

    - Há perigo - avisou Hirão.

    - Mas ajudar-me-eis, a mim, vosso servo?

    - A regra do estaleiro não mo permite.

    - Essa prova é indispensável?

    - Indispensável. Caleb desta vez avançou.

    - Prefiro não ver nada.

    - Como queiras.

    Hirão vendou os olhos do coxo.

    - Não te movas - ordenou.

    O mestre-de-obras entrou na sala das provas. Colocou, ao meio, dois blocos cúbicos, um sobre o outro. Depois colocou sobre eles uma prancha comprida e estreita e foi de novo ter com Caleb.

    - Pega-me na mão - recomendou. - Não temas. Se fores corajoso sobreviverás.

    Caleb tremia todo.

    Coxeando mais, avançou. De repente, teve a impressão de escalar uma encosta lisa. Hirão largou-o.

    - Tenho medo! - berrou.

    - Continua - recomendou Hirão. - Não voltes atrás! - Sob o peso do caminhante, a prancha balançou. Desequilibrado, Caleb soltou um grito de desespero e caiu para a frente, certo de que ia partir os ossos.

    Hirão apanhou o coxo antes que ele chegasse ao chão. Pousou-o, arrumou as pedras e a tábua encostadas à parede e tirou-lhe a venda.

    - Conseguiste. Agora pertences à confraria. Caleb recuperou o fôlego com dificuldade.

    - Se existem outras provas como esta, prefiro desistir.

    - Está descansado. Destino-te a uma missão precisa.

    - Qual?

    - Serás os meus olhos e os meus ouvidos no estaleiro. Circularás por todo o lado, observarás e escutarás. A tua memória é excelente. Não sejas um delator. Esquece os elogios. Retém apenas as críticas e as insatisfações.

    À porta da sala das provas, Anup, a abanar o rabo, esperava Hirão. Saltou-lhe para os braços. Também ele saberia espreitar. Hirão já não estava só de todo. Podia contar com dois vigilantes.

     

    Por ordem de Hirão, Caleb contatou um a um, os operários que constavam da lista feita pelo mestre-de-obras. Informou-os da senha ”a minha força é a do mestre” e convocou-os para a sala de provas. Apresentaram-se ao cair da noite. Hirão interrogou-os e deu-lhes o abraço. Depois de estarem reunidos no ângulo nordeste explicou-lhes o que exigia deles: não apenas um trabalho igual ao dos seus camaradas mas ainda uma iniciação na arte de construir, que lhes seria transmitida nas horas em que os seus companheiros dormissem. Os futuros adeptos deveriam prometer calar-se sobre tudo quanto vissem e ouvissem, sob pena de perderem a vida.

    Três deles preferiram renunciar e deixaram a reunião. Os outros prestaram juramento. A instrução começou de imediato. Caleb, encafuado numa manta de lã, montara guarda no exterior do edifício. Assim faria durante várias noites seguidas, em que, por favor de Hirão, beneficiaria de um jarro de leite e pão com figos. Anup auxiliava-o na sua tarefa.

    Os operários sentaram-se no chão. Hirão entregou-lhes ardósias e giz. Com paciência ensinou-os a traçar sinais da confraria dos construtores, ponto, linha recta, quadrada, rectângulo... Ele impunha uma mão segura, que com um traço atingisse a perfeição. Depois fez-lhes tomar consciência de que o corpo humano era construído segundo proporções geométricas que testemunhavam a acção de um arquiteto divino. Assim permitia-lhes experimentar a eternidade de formas saídas do espírito e transcritas pela mão. Por fim, comunicou-lhes os primeiros preceitos da regra dos construtores: trabalhar para a glória do princípio criador, não procurar benefício pessoal, privilegiar o interesse da confraria, saber calar-se e respeitar os utensílios como seres vivos.

     

    Durante a consolidação da via de acesso ao rochedo e do seu arrasamento, Hirão proporcionou um ensino intensivo. Os neófitos, com dotes desiguais, testemunhavam uma mesma vontade de avançar no caminho que o mestre-de-obras lhes traçava. Ao receio que sentiam dele sucedera uma admiração sem limites. O arquiteto sabia dirigir-se a cada um dos alunos nos termos que lhe convinha. Severo, intransigente, não aceitando nenhum desleixo, mostrava-se, contudo, caloroso, quando era dado um novo passo

    Dois meses mais tarde, tiveram a impressão de ter mudado de mundo. Falavam uma outra linguagem, estimavam-se como irmãos partilhando um mesmo ideal, os mesmos segredos, os mesmos deveres. Hirão atingira o seu primeiro objetivo: estabelecer uma coerência no interior de um pequeno grupo destinado a enquadrar os outros operários.

    Uma etapa decisiva anunciava-se: a celebração do rito de aprendizagem. A cerimónia teve lugar numa noite de lua cheia e durou até de madrugada. Cada neófito, após um período de isolamento, foi posto perante uma pedra angular talhada pelo cinzel do mestre e aplicou-se a prolongar a obra participando com humildade na construção do templo. Em completa nudez, os aprendizes foram aspergidos com uma água purificadora. Depois Hirão fê-los contemplar a chama de um archote que servia para cauterizar as chagas depois de terem misturado o sangue.

    Quando o mestre-de-obras cingiu a tanga de couro branco, em volta dos rins dos aprendizes, deu-lhes um novo nome. Assim simbolizava o seu novo nascimento no templo futuro em que seriam pedras vivas.

    Os adeptos, ébrios de cansaço e de felicidade, haviam adormecido. Caleb voltara para a sua cama de palha fresca, feliz por ter enfim terminado este penoso período de instrução. O próprio Anup dormitava. O estaleiro estava deserto. Só se animaria aos primeiros raios de Sol, quando as estrelas regressassem ao corpo imenso da Viúva de Osíris, envolvendo o mundo com uma luz invisível, ísis coroada de constelações.

    Hirão saudou o guarda da entrada e passou a cerca. Caminhou ao longo das tendas, onde pernoitavam os contingentes de trabalhadores temporários, requisitados para o imposto braçal. Ao vazio silencioso sucederia, em breve, uma barulhenta agitação. O acampamento acabava numa zona de silvas onde se aventuravam as raposas.

    Em frente de uma árvore seca estava uma mulher, vestida com uma longa túnica branca, de cabelos negros flutuando sobre os ombros.

    - Sou a rainha de Israel - disse Nagsara. - Vinha visitar o vosso estaleiro, mestre Hirão.

    - Apenas esta parte é acessível, majestade.

    - Porquê esta paliçada, por quê estes segredos?

    - Assim o exige a nossa regra.

    - E não sofre nenhuma exceção?

    - Nenhuma.

    - Também eu tenho um segredo. Mas sou menos avara do que vós. No azul rosado dos primeiros instantes do dia, Hirão julgou ver uma silhueta que se esgueirava por detrás de uma tenda. Não tendo ouvido nenhum ruído, concluiu que era um dos últimos espectros noturnos que regressava ao nada

    Nagsara chegou perto do mestre-de-obras. Descobriu a garganta.

    - Olhai - disse. - Os deuses gravaram o vosso nome na minha carne. Porquê? Que mistério acalentais que me inflige tal sofrimento?

    As letras brilhavam como se a pele branca da rainha fosse iluminada por um fogo que lhe corria nas veias. Hirão não vira a pequena Nagsara senão nas festas em que o faraó aparecia ao povo rodeado da família. Descobria uma jovem de encanto frágil, condenada como ele ao exílio, mas vivendo na intimidade de Salomão, o homem que se tornava um igual a um rei do Egito. Quem não ficaria perturbado por aquela beleza desnudada na claridade incerta da manhã, por aquela visão irreal de uma rainha proclamando um milagre em detrimento do seu pudor?

    Nagsara apercebeu-se da perturbação de Hirão. Tapou o colo e pousou as mãos no peito do mestre-de-obras.

    - O meu destino é indissociável do vosso - disse ela. - Tenho de esclarecer este enigma. Recusais ajudar-me?

    - Que os deuses me livrem da covardia.

    As palmas das mãos de Nagsara eram suaves. Hirão teria gostado que aquele momento se prolongasse, mas a rainha afastou-se, de súbito consciente da sua audácia.

    - Voltaremos a ver-nos no palácio. Israel é rico em profetas. Um deles levantará o véu.

    A silhueta branca pareceu dissolver-se na nuvem de areia erguida pelo vento do deserto. Hirão fechou os olhos. O que significava aquela aparição? Até ali só tivera de lutar contra Salomão e contra si mesmo. O templo invadira a sua alma suprimindo o mundo exterior. Nagsara lembrava-lhe os seus amores das margens do Nilo, os passeios de barca nos canais, nas florestas de papiro, os ardores das paixões nos palmares, onde os macacos domesticados saltavam de galho em galho. Tão ardente, mas tão breve, fora a sua juventude...

    Um grito lancinante arrancou-o as suas recordações.

    Dissimulado por trás de uma tenda, um homem saltara precipitando-se sobre a rainha e atingindo-a com um punhal. ”Morre, cadela ímpia!”, berrava no seu delírio.

    Com alguns passos, Hirão alcançou o local da agressão. Dominou sem dificuldade o criminoso, um indivíduo franzino, que abateu com um golpe na nuca.

    O sangue cobria o colo da rainha. Com os olhos no vazio, ela tentou em vão falar e desmaiou. Com voz forte, Hirão chamou os aprendizes.

    Um triste cortejo passou nas ruas de Jerusalém, em direção ao palácio de Salomão. Hirão levava nos braços uma jovem inanimada, incapaz de reter a vida que lhe escapava. Seguiam-no os operários, que empurravam um assassino que os injuriava.

    Salomão acabava de expor ao sumo-sacerdote, Sadoc, as novas disposições adotadas para estabelecer o financiamento do templo. Decretou um imposto que impunha aos sacerdotes, como a qualquer hebreu, oferecer a décima parte das riquezas naturais, quer se tratasse da décima ovelha de um rebanho quer do décimo ovo posto por uma galinha. No reino, dividido em doze províncias, cada uma delas proveria por sua vez às necessidades do estaleiro.

    Sadoc protestou com energia. Só, por força do seu estatuto e da sua posição, podia ainda resistir a Salomão.

    - Por quê desperdiçar tanta riqueza apenas para construir mais uma capela? Jeová está satisfeito com o abrigo que lhe demos. O exagero desagradar-lhe-ia.

    O templo não é nem uma capela nem um capricho real, objetou Salomão. Será o centro sagrado do nosso país. É ele que manterá a presença de Deus nesta terra e a paz entre os Estados. A unidade de Israel afirmar-se-á em torno do santuário.

    Será verdade que Deus vive cá em baixo? ironizou Sadoc.

    Quem ousaria afirmar que o rei dos Hebreus propaga tal heresia? Aquele que o céu não pode conter continua a ser invisível, mas o Seu esplendor é-nos perceptível. É a Sua presença e não Ele mesmo que habitará na sua nova morada.

    Não é essa a doutrina dos Egípcios?

    E é contrária a nossa fé, Sadoc? O deus único não se manifestará pela obra dos construtores, que coroará com a Sua luz?

    O sumo-sacerdote amuou. Não julgava Salomão tão sabedor em assuntos de teologia. Prosseguiu o combate noutro campo.

    O povo não aceitará sofrer impostos tão pesados. Revoltar-se-á.

    O templo traduzirá de forma material a ordem espiritual que reina no nosso país sugeriu o soberano. O coração do povo e o do santuário baterão em uníssono. Ele poderá observar a transformação do seu labor. Saberá que cada parcela do imposto se tornou pedra do templo, que a cidade santa foi reconstruída pelo Senhor. Os campos até ao Cedron ser-lhe-ão consagrados. Nunca mais serão devastados ou destruídos, porque a missão do templo é propagar a fé.

    Não haverá falta de subsídios para o exército?

    Um sumo-sacerdote preocupa-se com a estratégia? O nosso exército é forte, a nossa segurança está garantida. Já não nos lançamos em guerras ruinosas. O templo proteger-nos-á.

    À falta de argumentos, Sadoc preparava-se para opor uma recusa categórica ao projeto de Salomão quando o secretário, Eliap, irrompeu pela sala do trono.

    Senhor... Um drama abominável...

    Hirão, segurando pelo pescoço o assassino de Nagsara, atirou-o sobre o lajedo.

    Eis o miserável que tentou matar a rainha de Israel.

    O homem lançou um olhar implorativo a Sadoc antes de cobrir o rosto com as mãos. Mas Salomão tivera tempo de reconhecê-lo.

    - O criminoso não é um sacerdote? Não faz parte dos ritualistas? Sadoc não negou. O seu acólito chorava.

    - Retiro-me - disse Hirão. - A justiça pertence ao rei. Salomão levantou-se.

    - A rainha...

    - Os vossos médicos estão tentando salvá-la. O estaleiro chama-me. O rei voltou-se para Sadoc.

    - Tu não estás em situação de emitir o mínimo protesto, sumo-sacerdote. Desempenha melhor as tuas funções religiosas e vela pela integridade dos teus subordinados.

     

    Nagsara beijou a mão de Salomão e apertou-a contra as suas. Como era bom vê-lo sentado ao lado da cama onde ela repousava! Todos os dias ele passava pelo menos duas horas junto dela, contemplando-a com os seus olhos de um azul-escuro que espelhava toda a beleza do mundo. A rainha bendizia o seu agressor. Graças a ele, graças à ferida que lhe infligira, ela fruía da presença do seu senhor, da sua atenção, da sua inquietação ainda mais cara do que o amor.

    Imaginava assim a ternura cúmplice dos velhos casais, que entendem as intenções, sem dizerem uma palavra. Escutar-se, respirar, saborear o instante da comunhão, que nenhum destino lhes roubaria. Se lutava para não morrer era para prolongar essas estadas vividas em espaços paradisíacos longe de um quarto de moribunda.

    Nagsara não tinha outra ambição senão a de ressuscitar milhares de vezes no coração de Salomão. Aqui estendia-se o seu jardim de sombras tranquilizadoras, aqui crescia o sicômoro de ramos cobertos de aves alegres, aqui resplandecia um sol que os demônios da noite não atingiam.

    Amava mais o rei do que a própria vida, venerava-o com a loucura da sua juventude embriagava-se de uma felicidade fulgurante como o salto de uma gazela.

    Nagsara esquecera que a lâmina do punhal a atingira no local preciso onde o nome de Hirão lhe estava gravado na carne.

    Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, chaga por chaga, vida por vida: tal era a lei de Israel. O sacerdote que tentara matar a rainha devia ser sacrificado como vítima expiatória. Assim, conforme sentença de Salomão, foi lapidado em presença da corte.

    O sumo-sacerdote, Sadoc, não prestou nenhuma atenção ao público. O seu olhar permanecia pregado em Salomão.

     

    Sadoc exultava. Atirou sobre o lajedo da sala de audiências uma dezena de amuletos representando estrelas, íbis que representavam o deus Tot, colares de fecundidade, olhos mágicos, serpentes de prata e hipopótamos em lápis-lazúli.

    - Aqui tendes, rei de Israel, o que descobrimos no estaleiro de mestre Hirão. Estas figurinhas monstruosas provam que existem idólatras entre os operários. O responsável deve ser punido.

    Salomão compreendia bem demais. Através da pessoa do seu mestre-de-obras era a ele que o sumo-sacerdote queria atingir.

    - Ousarás dizer o seu nome, Sadoc?

    - Caleb, o coxo, o servo de Hirão. Os amuletos estavam escondidos na palha da sua cama.

    - O autor do achado?

    - Fui avisado por um operário fiel a Jeová.

    - Uma denúncia...

    - Um ato de bravura, majestade.

    - Caleb reconhece ser o proprietário desses objetos?

    - Não pára de insultar os sacerdotes que o têm bem guardado.

    - Os sacerdotes ter-se-ão tornado polícias?

    - Velam pela segurança de Israel. Exigem que seja feita justiça e que Jeová reine sem partilha.

    Um trono de madeira folheado a ouro foi transportado até diante da porta do estaleiro. Salomão tomou ali lugar, rodeado de uma corte de sacerdotes. Sadoc propagara a notícia: havia pagãos contratados na construção do santuário de Jeová, maculando o templo do deus único. Portanto, era preciso interromper essa empresa tornada satânica ou então aplicar severos castigos. Os religiosos exigiam que se chicoteassem os culpados com chicotes de couro e que lhes queimassem os pés e as mãos. Os mais extremistas queriam que os atirassem do cimo do rochedo.

    Salomão estava triste. Sadoc levava a cabo um jogo destrutivo cujo fim seria o abandono do projeto ao qual o rei dedicara a existência. Ao atingir Caleb, fosse ele ou não culpado, uma condenação desqualificaria Hirão aos olhos dos seus operários. Todos saberiam que Hirão favorecera um idólatra. Hirão manchado pelo escândalo, Salomão ridicularizado... tal era o objetivo do sumo-sacerdote. E o soberano não tinha direito de se esquivar, tinha de fazer justiça em função dos fatos.

    Um boato inquietante vinha aumentar o temor do rei: Hirão teria recusado o livre acesso à guarda. Banaías exultava. Avançar ao assalto, arrasar a paliçada, exterminar os maltrapilhos e abater a soberba do mestre-de-obras seriam feitos de que se falaria durante muito tempo em Jerusalém.

    Salomão estava apanhado na ratoeira. Mesmo que a confraria defendesse o seu ponto de vista, ainda que tivesse a certeza de que Sadoc preparara uma maquinação, não podia tolerar que a sua autoridade fosse contestada. Se a porta do estaleiro não se abrisse, seria obrigado a agir com violência.

    Um gosto amargo encheu a boca de Salomão. Porque se fechariam os seres humanos sempre no passado, porque se agarrariam a privilégios irrisórios, esquecendo que a celebração presente da grandeza divina era a própria condição da sua salvação? Teria de se resignar à pequenez, às intrigas do palácio, à divisão das províncias, as querelas intestinas e as guerras estúpidas, das quais só a dor saía vencedora? Salomão tomava consciência da fragilidade de um trono que muitos julgavam inabalável. Os sacerdotes de Israel conspiravam, instalando um Estado dentro do Estado, que o rei queria desmantelar criando um novo templo, uma nova hierarquia religiosa, um novo entusiasmo de todo o povo pelo sagrado. Sadoc conhecedor das subtilezas do poder, fortalecido com a prática de um cargo invejado, percebera as intenções do monarca e inventara um chamariz.

    Abri em nome do rei gritou Banaías.

    A guarda tinha-se espalhado de um lado e de outro do único acesso ao estaleiro. As lanças ergueram-se. A fúria dos sacerdotes crescia. Sadoc sorriu. A interrupção daquela construção maldita valia bem alguns cadáveres. Israel reconheceria a vontade de Deus e saberia que um rei, mesmo chamado Salomão, não governaria sem o consentimento do sumo-sacerdote.

    O monarca hesitou em dar a ordem de assalto. Destruiria a esperança do seu reino, reduzi-lo-ia a traço irrisório na história dos homens. O cume permaneceria deserto, fortaleza hostil desafiando um jovem rei que acreditara na proteção do Senhor. Salomão tinha a certeza de que Hirão não cederia perante o perigo. Galvanizaria os seus operários e preferiria precipitá-los numa luta insensata do que sair humilhado.

    Banaías olhou para Salomão. Este estava condenado a intervir. Adiar por mais tempo, arruinaria o seu prestígio.

    A porta da paliçada abriu-se devagar.

    Hirão apareceu, de tronco nu, rins cingidos por um avental de couro vermelho e um pesado maço na mão direita.

    Quem ousa perturbar o meu trabalho?

    Não me reconheces? perguntou Banaías. Sou o chefe real, venho prender o teu servo ímpio.

    Para lá desta soleira não és nada. No estaleiro de construção do templo não reina senão a lei dos construtores.

    Banaías tirou a espada da bainha. O arquiteto não manifestou o mínimo receio. Os seus dedos apertaram o cabo do malho.

    Caleb, o coxo, é acusado de guardar amuletos sacrílegos. O crime é uma injúria para Jeová. Merece um castigo exemplar.

    Quem acusa?

    Sadoc fez sinal a um sacerdote para sair da fila.

    Eu rosnou ele.

    Tu não és operário. Como entraste no meu estaleiro? O sacerdote pareceu atrapalhado.

    Não importa comentou Sadoc.

    Pelo contrário opinou Hirão. Como julgar sem conhecer toda a verdade?

    Fala, sumo-sacerdote ordenou Salomão.

    - Ninguém pode pôr em dúvida a palavra de um servo de Jeová. Este sacerdote conseguiu introduzir-se no estaleiro e obter a prova do sacrilégio. O arquiteto procura atrasar a sentença de Salomão.

    - Mentira - afirmou Hirão. - Ninguém passou a porta do estaleiro sem consentimento do guarda da entrada. Que compareça perante esta assembléia.

    - Inútil - protestou o sumo-sacerdote.

    - Assim se faça - ordenou Salomão.

    O guarda da entrada, um homem idoso e de maxilar forte, avançou hesitante.

    - Deixaste passar este sacerdote? - Perguntou Hirão.

    O guarda da entrada prostrou-se aos pés do mestre-de-obras.

    - Eu... Eu aceitei o siclo de prata que ele me ofereceu. Ele não ficou muito tempo... Foi na noite passada...

    - Que importa! - interrompeu Sadoc. - Os amuletos existem! Hirão caminhou até aos pés do trono.

    - Que juiz poderia aceitar uma prova obtida por corrupção? Sadoc interpôs-se.

    - Majestade, não ouvireis...

    - Basta - cortou Salomão. - O rei de Israel não sujará a justiça de que ele é o garante. Este processo não pode ter lugar. Os que tentaram comprometer-se arrepender-se-ão.

    O sumo-sacerdote não ousou pronunciar-se contra o julgamento do soberano.

    - Estes acontecimentos são deploráveis - prosseguiu o rei. Não se repetirão. Quem passar a entrada do estaleiro sem autorização de mestre Hirão sofrerá amputação do pé.

    A palavra do rei tomava força de lei.

    Do jardim onde repousava, Nagsara ouvia os ruídos que subiam da cidade baixa e do imenso acampamento ocupado por centenas de homens alistados para o imposto braçal. Fora de perigo, a rainha recompunha-se lentamente dos seus ferimentos... À medida que a sua convalescença avançava, Salomão ia espaçando as suas visitas. A vida mostrava-se mais amarga do que o sofrimento. A força que lhe voltava aos membros afastava-a do seu senhor. Como todo Israel, Salomão não se preocupava senão com o futuro templo, esquecendo o amor de uma jovem egípcia de olhos demasiado febris.

    Contudo, Nagsara tinha a certeza de que a paixão não desaparecera do coração de Salomão. Ela continuaria a lutar contra esse rival de poder crescente, esse santuário de um deus cioso da Sua solidão. Ela, uma estrangeira perante o símbolo da glória de Israel. Ela, um ser de carne oposto a um corpo de pedra.

    Por várias vezes Nagsara interrogara a chama para conhecer o seu próprio destino, mas não decifrara mais do que sombras incertas, como se a deusa Hátor recusasse dar-lhe a chave do futuro. A rainha não se resignaria.

    Não deixaria Salomão chegar às margens da indiferença. Fosse qual fosse o preço, amarraria a si, o seu rei neste e no outro mundo.

    A lua cheia do equinócio da Primavera abrira, como todos os anos, as festas da Páscoa. Mais de cem mil homens vindos das províncias tinham deixado vilas e aldeias para se dirigirem a Jerusalém e ver o estaleiro do famoso mestre Hirão. Invadindo ruas e ruelas, os peregrinos não deitavam mais do que um olhar distraído às espessas muralhas e aos velhos palácios de David. O rochedo, a nova via de acesso, o acampamento das tendas, a paliçada que isolava os artesãos qualificados do mundo exterior excitavam a curiosidade.

    Circulavam mil e um boatos. Cada um sabia mais do que o vizinho, conhecia uma parte do plano secreto do arquiteto, descrevia o edifício futuro e os ritos misteriosos praticados no interior da paliçada. Não havia pacóvio que não estivesse informado dos desenhos de Salomão, nem um passante que não conhecesse um discípulo de mestre Hirão que lhe revelara a chave de vários enigmas. Esqueciam-se que a Páscoa celebrava o feito de Moisés salvando o seu povo da perseguição e arrastando-o para fora do Egito. Já não se pensava na presença do anjo exterminador que ameaçava os ímpios. O país inteiro não se identificava com um templo ainda invisível, o mais belo e grandioso que um rei jamais concebera?

    As orações subiam, a Jeová. Cordeiros foram degolados, o sangue aspergiu as portas das casas e o cheiro a carne queimada empestou a capital. ”Bendito seja o nome do Senhor pela sua bondade”, cantavam os crentes no momento do banquete, ”seja Sua a glória e não nossa!”

    A rainha Nagsara, ainda fraca, não assistira senão ao início das cerimônias. Quanto mais avançavam, menos alegres eram.

    Uma notícia espalhara-se com a rapidez da lebre do Egito: mestre Hirão renunciara a construir o templo de Deus. De fato, Salomão presidia sozinho à festa, quando toda a gente esperava a presença do arquiteto a seu lado. Procurava-se Hirão por toda a parte. Não o encontraram em lado nenhum, porque o estaleiro estava fechado durante a Páscoa. Os operários confirmavam que não se escondia na oficina do traço.

    A expressão radiosa do sumo-sacerdote confirmou os piores temores. Povo e nobres conheciam o ódio que Sadoc acalentava contra mestre Hirão. Sem dúvida conseguira que ele partisse. Não querendo reconhecer a sua derrota, Salomão ocultava-a no silêncio. Os que foram empregados ao abrigo do imposto braçal seriam despedidos um a um, os artesãos voltariam para as suas províncias, a paliçada seria desmontada dentro de alguns meses ou apodreceria no lugar. O rochedo, na sua nudez, continuaria a zombar de Jerusalém.

    Quando circularam as taças de libação, de mão em mão, já não havia lugar para a dúvida: mestre Hirão deixara o estaleiro, cedendo às ameaças dos sacerdotes. Decerto regressara a Tiro.

    Os profetas que haviam predito que nenhum monarca modificaria a cidade de David tinham visto bem.

    A ordem antiga triunfava.

    Avançando por um campo dourado, pronto para a ceifa, Hirão provou uma espiga de cevada já madura. Não longe dali os camponeses manejavam as foices, cujas lâminas pontiagudas cortavam os altos caules. Os enfeixadores atavam os molhos, deixando atrás de si o que os pobres que mais não tinham do que as sementeiras apanhavam.

    Anup saltitava à frente de Hirão, saboreando o ar luminoso da Primavera. Na extremidade do campo, uma área lavrada por bois pacientes recebia as primeiras espigas. Situada numa elevação exposta aos ventos, era visível de longe. Camponeses preparavam o engenho espigado que utilizavam para debulhar, deixando para trás, ao passar, uma massa dourada de grãos, de folhelhos e de palha. Os joeiradores afiavam as pontas das forquilhas, antes de atirarem a mistura ao ar, confiando à brisa o cuidado de fazer a triagem. A palha voaria para longe, na eira amontoar-se-ia o grão purificado pelo espírito do vento. Os caseiros guardá-lo-iam sob os seus tetos, ao abrigo das chuvas e dos ratoneiros, animais ou vagabundos.

    Precedido pelo seu cão, o mestre-de-obras passou junto da eira, onde os dias de labor se pareciam uns aos outros. Atravessou o jardim, cheio de flores silvestres, que bordejava a casinha onde morava há vários dias. Da cave escavada ao lado da casa tirou um odre de água fresca e vinho. Depois, num forno ao ar livre, assou grãos de trigo e preparou bolos com farinha da mais fina perfumados com cominhos e bolachas com mel. Anup bebeu e comeu com voracidade. Hirão sentou-se debaixo de uma figueira para saborear a refeição.

    Em Jerusalém deviam circular as piores acusações à sua pessoa. Não era considerado um cobarde e um fugitivo? Não traíra Salomão? Não sofria o desprezo dos operários, abandonados, cruelmente desiludidos por aquele que tinham considerado como um pai? A veneração de que o mestre-de-obras beneficiara transformava-se em desprezo. A sua fama empalidecia para sempre.

    Anup ladrou, avisando Hirão da chegada de um vendedor ambulante que puxava um burro carregado de tapetes, túnicas e louças. Quase calvo, de membros esguios, voz rouca, o regatão ambulante andava de terra em terra.

    De que precisais, senhor?

    Segue o teu caminho respondeu Hirão.

    O vendedor ambulante tinha olho vivo. Se aquele homem não era um cliente, pelo menos necessitava dos seus talentos.

    Também sou barbeiro, o melhor de Israel! Corto o cabelo, perfumo-o e faço a barba. Pela parte que vos toca, senhor, cheguei a tempo. Amanhã já não pareceríeis um ser humano.

    Hirão sorriu e entregou-se às mãos do barbeiro.

    Viveis aqui sozinho?

    O silêncio é o meu único amigo respondeu Hirão.

    O barbeiro, guloso de conversa, prendeu, no entanto, a língua. Sentia naquele homem tranqüilo uma força perigosa que era melhor não despertar. Por isso concentrou-se no corte.

    Há bastante tempo que não vejo Jerusalém comentou Hirão. Que se passa na capital?

    - Um escândalo terrível! O arquiteto do templo deixou o estaleiro ao abandono. Voltou a Tiro, sua pátria, porque era incapaz de fazer planos que correspondessem aos desejos de Salomão. O rei renunciou aos seus projetos. Os sacerdotes estão satisfeitos e mais poderosos do que antes. Salomão não passa de um prisioneiro nas mãos deles.

    - O que pensas desse tal Hirão?

    - É um estrangeiro... O destino de Israel pouco lhe importa. E, para mais, um novo templo... para que serviria?

    Quando o Sol se punha e um novo dia começava com o nascer das estrelas, Hirão dirigiu uma oração do Egito à luz que orlava a santidade da noite. Acendeu uma lâmpada de azeite, cuja luz cor de laranja respondia a outras luzes, que nasciam em cada casa e formavam uma imensa cadeia, que vencia as trevas. Sentado no terraço da sua casa provisória, o arquitecto contemplou a Estrela Polar, pela qual passava o eixo do mundo, em volta do qual giravam, incansáveis, os planetas. Da terra quente subia um aroma a tomilho e a flores selvagens, que invadia a paz vestida de lápis-lazúli de um céu imenso. Como Jerusalém devia estar azeda, julgando-se enganada por um mestre-de-obras infiel!

    Hirão saboreava a sublime quietude de um crepúsculo, ao qual faltava, contudo, a cintilação das águas do Nilo, a majestade dos templos erigidos pelos antepassados, o mistério do deserto, onde nasciam as linhas purificadas dos monumentos futuros. A tentação de uma verdadeira fuga envolveu o espírito de Hirão. Era a riqueza serena de momentos como aquele que desejava e não a luta encarniçada levada a cabo na cidade de Salomão. Poisar as ferramentas, esquecer o plano da obra, meter-se pela estrada que conduzia ao Egito, a terra amada pelos deuses...

    Hirão atravessou um veio de água no qual fora construída uma pequena barragem. Inspirando-se nos métodos inventados pelos faraós, os camponeses hebreus tinham criado uma rede de canais de irrigação eficazes contra a seca. Era ali, na fronteira com a Samaria, a norte de Jerusalém, na confluência do laboc e do Jordão, que o arquiteto encontrava o que viera procurar. A missão confiada por Salomão deveria ser cumprida no mais absoluto segredo. Por isso, o mestre-de-obras partiu a pé durante a noite, não levando consigo senão o seu cão.

    Os sacerdotes exultavam com a fuga de Hirão. Esta vitória ilusória acalmava-lhes a má disposição e enfraquecia-lhes a vigilância. Salomão procurava não fazer frente a Sadoc. O plano de obra de Hirão atin-gia um dos pontos mais delicados, o rei pedia-lhe que agisse com a maior discrição a fim de que a sua acção não fosse boicotada por qualquer manigância da casta eclesiástica.

    O terreno caótico que Hirão examinava escondia uma mina de cobre evocada em textos de geógrafos antigos. Oferecia, sobretudo, um local perfeito para fundir o bronze. A argila forneceria excelentes moldes. Os operários disporiam de água à vontade. O vento seria suficiente para a tiragem dos fornos de palha, cuja utilização seria reservada aos artesãos especializados. O bronze correria pelos canais de areia, para receber as batidas cadenciadas dos martelos. Quem, senão Hátor, senhora da turquesa, ensinava a arte aos fundidores?

    Mas o mestre-de-obras esbarrava com uma dificuldade: o terreno pertencia a um camponês cuja mulher era filha de um sacerdote da tribo de Sadoc. Uma intervenção autoritária da parte do rei teria desencadeado a ira do sumo-sacerdote e o seu recurso ao tribunal, atrasando o bom andamento dos trabalhos. Por isso Hirão se empenhara em levar o assunto a bom termo com uma compra em devida forma.

    O camponês trabalhava um pedaço de terra. O cheiro da terra, de odor forte e tranqüilizador, encantava as narinas. Quando viu Hirão, parou o trabalho.

    O mestre-de-obras pousou numa pedra achatada uma bolsa com alguns siclos de prata e um contrato. A quantia era muito superior ao valor do terreno.

    Sem pressa, o camponês foi até à quinta, de onde trouxe uma balança com fiel e pesos de basalto. Um objeto preciso que lhe permitia fazer as transações mais difíceis com toda a segurança. Leu o contrato redigido em termos simples e pesou as moedas de prata para verificar a validade. Satisfeito, tirou as sandálias e estendeu-as ao comprador. Dali em diante, não pisaria mais, como proprietário, uma terra que lhe oferecia uma fortuna inesperada.

    O camponês desapareceu. Nem uma palavra fora pronunciada. Hirão acabava de adquirir o local das fundições do templo.

     

    No sítio em que Jacob lutara com o anjo, centenas de trabalhadores manejavam os moldes de metais e comprimiam enormes foles para atiçar os fornos. Eram entregues todas as semanas quantidades consideráveis de madeira.

    O primeiro bronze fundido, posto nas mãos dos escultores guiados por Hirão, transformou-se num casal de leões. Hirão assistiu a todas as etapas da criação desses animais que iria ornamentar os acessos ao templo, tal como velavam pelos caminhos que subiam do vale do Nilo para os santuários secretos.

    O mestre-de-obras andava num vaivém entre as fundições nas margens do Jordão e as pedreiras próximas de Jerusalém. As camadas que era preciso desbastar estavam assinaladas por um símbolo de pedreiro egípcio muito parecido com a cruz alada. Hirão mostrara aos aprendizes como extrair blocos, escavando em sua volta sulcos suficientemente largos e profundos para introduzir cunhas de madeira dispostas em intervalos regulares. O essencial era a escolha do leito, de que dependeria a solidez da construção. Exploradores de pedreiras e cortadores de pedra, depois de terem feito trabalho sem jeito e estragado ferramentas, trabalhavam com uma mão cada vez mais segura. Extraíam as pedras camada por camada, recortando os blocos sem provocar fendas.

    Quando se ergueram as primeiras colunas de cobre e de calcário, Hirão soube que os aprendizes tinham assimilado os preceitos elementares da arte de construir. Por isso, convocou os melhores para a oficina do traço e iniciou-os na arte dos pedreiros, que lhes permitiria erguer paredes e repartir com harmonia blocos correctamente talhados. Usavam um avental de couro branco, limpo com cuidado no fim de cada dia de trabalho e juraram nada revelar, nem aos aprendizes nem aos profanos. Tornando-se depositários de uma sabedoria antiga que transformava os planos em volumes, começavam a reinar sobre a matéria, no coração da qual se escondia o espírito. Na sala das provas, sempre mergulhada na penumbra, Hirão traçou um quadrado duplo. Uniu dois dos seus ângulos por uma diagonal. Assim representava o espaço onde se inscrevia a proporção divina, esse número saído do ouro que os arquitetos egípcios consideravam como o maior dos tesouros. Perante os olhos maravilhados dos novos companheiros, Hirão desdobrava o universo do cubo, dos poliedros, da espiral, das estrelas dos sábios, cujas pontas flamejavam e que indicava o bom caminho ao viajante perdido nas trevas. Mostrava-lhes como resolver a quadratura do círculo, entender a lei das proporções sem cálculo, manejar o cordel de doze nós, dando-lhe ora a forma de um esquadro ora de um compasso. Transmitiu-lhes o conhecimento das formas eternas da vida, inscritas no universo e que integrariam o corpo do templo, a fim de lhe dar um crescimento harmonioso.

    Ao cabo de cinco dias e cinco noites de ensino, os companheiros estavam cheios de um saber que ultrapassava o seu entendimento, mas sentiam por mestre Hirão uma gratidão que as palavras não podiam exprimir. A fraternidade que os ligava a ele tinha o brilho do sol de Verão.

    O arquiteto avançava passo a passo no seu caminho. Desenvolver os estaleiros, formar os homens, preparar o nascimento do edifício constituíam etapas do plano da obra de que devia conservar o domínio em todas as circunstâncias. Desejava não se ter enganado ao confiar nos companheiros. Mas quem podia gabar-se de sondar o coração dos homens tão profundamente como o das pedras?

    Os trabalhadores convocados para o imposto braçal recebiam o que lhes era devido no final da semana de trabalho. O mesmo não acontecia com os pedreiros e aprendizes, premiados com um salário aquando da festa da lua nova no interior da muralha e frente à porta da oficina do traço. Os aprendizes formavam uma primeira fila silenciosa, os pedreiros uma segunda. Um a um apresentavam-se perante Hirão e murmuravam-lhe ao ouvido a palavra de passe correspondente ao seu cargo. O mestre-de-obras alterava-a várias vezes por mês, para desencorajar qualquer tentativa de fraude. Pagava-lhes em moedas de ouro e prata lançadas nos cofres que a guarda pessoal de Salomão colocara no estaleiro.

    Hirão fazia questão de ser ele próprio a desempenhar esta função, de forma a que não fosse cometida qualquer inexatidão ou injustiça. De fato, cada membro da confraria recebia uma soma diferente, correspondente à qualidade e à intensidade do trabalho efetuado durante uma lunação. Quem se achasse lesado tinha o direito de reclamar junto do arquiteto.

    Quando esta cerimônia acabava, Hirão, levando na mão uma tocha, descia ao mais fundo da pedreira. Ali, ele próprio talhava uma sala subterrânea no coração da rocha. Trabalhando até à exaustão, não aceitava ninguém nesse local secreto, cujo destino só dele era conhecido.

    Quando poderia utilizá-lo?

    Nagsara enfiou um vestido amarelo-claro, ornamentado com um cinto dourado que realçava a sua cintura delgada. Pintara de um cor-de-laranja claro as unhas das mãos. Calçava umas sandálias de couro branco, com elegantes correias e sola em casca de palmeira. Do vestido pendiam fitas de seda. Nos pulsos da soberana havia pulseiras de ouro e nos dedos anéis de prata maciça.

    Assim trajada, a rainha de Israel saiu do palácio à hora do meio-dia. Os servos acorreram e apresentaram-lhe uma cadeira, que Nagsara recusou. Afastou os guardas da sua segurança, exigindo ficar sozinha.

    O sol encandeou-a. Caminhava sem pressa pelo caminho íngreme que ia dar à barreira que impedia o acesso ao caminho largo que levava ao rochedo, reservado ao transporte dos materiais. Naquele dia de sabbat ninguém trabalhava. Um aprendiz de escultor e um soldado designado por Banaías, sentado e encostado a uma rocha de calcário, impediam quem quer que fosse de entrar.

    - Afastem-se - ordenou Nagsara.

    O soldado e o operário levantaram-se. O primeiro reconhecera a rainha.

    - Que nos perdoe Vossa Alteza, mas é impossível.

    - Desejais a morte por terdes injuriado a soberana?

    O aprendiz desapareceu a correr. O militar cedeu perante a determinação de Nagsara. Como poderiam as ordens dadas por Salomão aplicar-se à sua esposa?

    Nagsara constatou a vastidão da plataforma nivelada. O rochedo aceitara aquela primeira domesticação. Mas não havia sinais de fundação. Nada mais do que pedra nua, esmagada pela luz. Teria, na verdade, o arquiteto intenção de construir um templo? Não estaria a enganar Salomão anunciando-lhe maravilhas que era incapaz de realizar? Era certo que atulhara a ravina, mas isso não estaria ao alcance de um contramestre hábil? A dúvida gelou o coração da jovem. Não teria o seu marido enveredado por um caminho sem saída, cego por uma vaidade que julgava ser a vontade divina?

    Pouco importava. Salomão agiria de acordo com o seu desejo. O de Nagsara não se orientava para o santuário de Jeová. Não desejava senão a felicidade do rei, já que o seu rosto radioso iluminava o curso tranqüilo dos anos que passava a seu lado.

    Uma mulher do Egito instruída pelos magos não ficava passiva perante um destino adverso. Modificava-lhe a natureza. Aceitar a fatalidade seria estúpido e cobarde. Nagsara devia abafar aquele templo na casca, desviar Salomão daquela obsessão e trazê-lo de volta a ela. Pelo jogo do seu corpo e o fervor da sua paixão saberia retê-lo.

    Indo até à extremidade do rochedo, na direcção oposta da cidade de David, Nagsara contemplou, à direita, o vale do Cedron e, ao longe, as planícies de Samaria. A beleza da Primavera de Israel fez-lhe sentir saudades da do Egipto. Naquela época a jovem princesa costumava passear de barca pelos canais de Tanis, bordejados de tamargueiras. Era ela própria quem manejava o remo, divertindo-se a perseguir bandos de patos. À noite, em pavilhões montados nas ilhotas, ouvia concertos de flauta e harpa dados por músicos da corte.

    Aqui, nesta solidão selvagem, a música da natureza tinha um som rude. Israel era um país jovem, a que faltava aquela maturidade que conferia uma sabedoria marcada pelas rugas dos séculos. Os Hebreus possuíam o ímpeto de um povo inexperiente, ignorando ainda a atitude serena dos velhos escribas de ventre redondo, que desenrolavam sobre os joelhos os papiros, onde viviam as palavras imortais. O fracasso do estaleiro de Hirão ensinar-lhe-ia a humildade.

    Um bloco nitidamente saliente sobre o vazio chamou a atenção da rainha. Tinha uma marca de cabouqueiro semelhante à cruz alada. Decerto um operário que passara algum tempo no Egito. Nesse local, esperar-se-ia antes o selo de Salomão, os dois triângulos entrecruzados, assegurando a perenidade de uma obra. A linguagem das confrarias só delas era conhecida, mas não teria qualquer força contra os feitiços de uma rainha.

    Nagsara tirou os anéis e as pulseiras. Depositou-os na sua frente, em círculo. Depois desapertou as sandálias e o cinto, formando um segundo círculo a envolver o primeiro. Ajoelhando-se, abriu os braços e dirigiu uma invocação aos ventos dos quatro orientes do espaço para que desagregassem a rocha e a condenassem a permanecer estéril. Como oferta, lançou as jóias no abismo. A fim de selar o feitiço pronunciado, atou os atacadores e o cinto, criando uma corda que ligava o seu pensamento ao da deusa Sekhmet.

    Vã façanha, se Salomão permanecesse afastado dela. Nagsara conhecia o preço do seu ato. A terrível leoa, Sekhmet, ávida de sangue, abandonava vários anos da sua existência. Não valia mais uma vida breve e ardente, consumida pelo fogo de um amor louco?

    Nagsara despojou-se do seu vestido amarelo. Estendeu-o sobre a corda dos sortilégios. Nua, abandonada ao Sol, não lhe restava senão derramar o seu sangue.

    Os dedos acariciaram o punhal na bainha de prata, proveniente do tesouro de Tanis. Pensara servir-se dele para se defender dos assaltos de um rei terrível que pensara detestar... E eis que se tornava instrumento de amor, traço sangrento de luz.

    Nagsara não suportava já sentir na sua carne inscrito o nome de Hirão. Trespassando-o com a lâmina, transformava essas letras em lágrimas vermelhas e libertava-se do malefício que impedia Salomão de amá-la.

    Desferiu o golpe.

    O punhal escapou-lhe. A lâmina deslizou na pele, traçando um sulco brilhante. Um nevoeiro ocre toldou a visão da rainha.

    Ouviu o seu nome. Alguém a chamava na outra extremidade do rochedo. Alguém que lhe suplicava que não se matasse.

    Ainda tinha tempo de ser a vítima a quem Salomão quereria, mas tremia. O nevoeiro tornou-se mais denso. Uma mão agarrou-lhe o pulso e obrigou-a a largar a arma.

    Hirão apanhou o vestido amarelo e cobriu Nagsara. Com o pé atirou a corda para o abismo.

    - Não - protestou em voz débil a rainha. - Não tendes o direito...

    - Ninguém impedirá o nascimento do templo. Apenas a vontade celeste poderia ser mais forte do que a minha. Destruirei os malefícios.

    A rainha inclinou o pescoço para trás, absorvendo de novo a vida, que havia pouco a abandonava.

    - Quem sois, mestre Hirão? Porque gravais um sinal egípcio nas pedras dos alicerces do templo?

    - Não deveríeis ter visto aquela marca, majestade.

    - Um arquiteto não tem de encarar a realidade? E se fôsseis traidor, se enganasseis Salomão?

    - Vinde, majestade. Estas provações esgotaram-vos.

    - Não me importa o que pensem de mim.

    O sangue atravessava o fino tecido amarelo. O nevoeiro que toldava a visão da jovem tornava-se mais espesso. Já não via bem Hirão.

    O abismo estava tão próximo e atraía tanto... Extraindo do corpo as últimas forças, Nagsara tinha apenas de dar uns passos para esquecer toda a angústia.

    - Sois egípcia - recordou o mestre-de-obras. - Matar-vos está-vos proibido. Agindo assim, destruiríeis a vossa alma e perderíeis para sempre o amor de Salomão.

    - Como... como ousais...

    Hirão amparou a rainha e ajudou-a a andar.

    - Temos de tratar o vosso ferimento, majestade.

    O contato deste homem de força imponente perturbou-a. O seu mal-estar dissipou-se e o sol reapareceu.

    - Quero saber, mestre-de-obras, quero saber porquê...

    - Somos os brinquedos do invisível. O resto é silêncio.

    Hirão acompanhou Nagsara ao palácio. Invadira-a uma estranha paz. O fogo da chaga tinha-se desvanecido. Mas o mistério permanecia insuportável. O arquiteto parecia-lhe ao mesmo tempo próximo e distante, terno e insensível. De que magia era ele filho?

     

    Descontente, Salomão fora obrigado a ceder ao pedido do sumo-sacerdote, pedindo a convocação do Conselho da Coroa que reunia o próprio Sadoc o general Banaías e o secretário do rei, Eliap. O soberano de Israel sentira a sua irritação aumentar enquanto ouvia os comentários do sacerdote.

    - Repito, majestade - insistia Sadoc - mestre Hirão está a tornar-se uma personagem perigosa. Sem saberdes, arrogou-se o controlo de milhares de operários.

    - O imposto braçal não foi colocado sob a responsabilidade de Jeroboão?

    O sacerdote tornou-se mordaz.

    - Mais uma ilusão! Mesmo junto dos tarefeiros, o prestígio do vosso arquitecto é enorme. Obedecem a Jeroboão, mas admiram Hirão. Ignorais que criou a sua própria comunidade, composta por aprendizes e companheiros, que lhe estão submetidos como escravos? Fostes vós, majestade, a aceitar que o estaleiro do templo fosse submetido à sua própria lei.

    - Isso é uma censura, Sadoc?

    Eliap deixou de dar atenção ao encontro. Aprovou os comentários de Sadoc, mas temia que as palavras deste tivessem sido demasiado arrebatadas.

    O sumo-sacerdote baixou de tom.

    - Mestre Hirão alarga o seu império dia após dia. Amanhã governará um exército mais numeroso do que o de Banaías.

    O general baixou a cabeça. O seu ar amuado traía uma disposição contrariada.

    - Um exército pacífico - precisou Salomão.

    - Podemos duvidar, majestade. Estão armados com utensílios que muitos deles aprenderam a manejar com destreza. Se o seu chefe decidisse fomentar uma revolta... Avaliamos mal a influência desse Hirão. Não será, hoje, o homem mais poderoso de Israel?

    - Injurias o rei, sumo-sacerdote! Sadoc fez-lhe frente.

    - Porque não vigiar melhor esse arquiteto estrangeiro? Porquê conceder-lhe tantos privilégios? Falo no interesse de Israel e do seu soberano. O prestígio de Hirão não é, de fato, uma verdadeira injúria?

    - O sumo-sacerdote tem razão - resmungou Banaías. - Esse natural de Tiro não me agrada.

    Eliap continuou calado. Mas Salomão conhecia-o o suficiente para saber que o seu silêncio vinha juntar-se às reticências dos dois outros membros do conselho.

    - Deveis agir - insistiu Sadoc. Jeroboão seria um excelente arquiteto.

    - Não construiu senão cavalariças e fortificações.

    - É um servo fiel, cuja nomeação seria aprovada pelo conselho! Sadoc ardia numa paixão sombria. Mas os seus argumentos não eram desprovidos de valor. Salomão admitia que o entusiasmo lhe ocultara certos perigos. Talvez tivesse avaliado mal a ambição de mestre Hirão, o seu desejo de segurar, apenas pela sua função, as rédeas da economia israelita. Talvez tivesse alimentado no seu seio um dragão prestes a devorá-lo.

    Ao ver o rei refletir, Sadoc sentiu uma enorme satisfação. Tinha feito um jogo perigoso, mas esperava um desfecho feliz. Visto que ainda conseguia influenciar Salomão, não seria capaz de chegar a impedir a construção do templo?

    - O Conselho da Coroa não governa Israel - disse por fim Salomão. - O seu papel é o de formular propostas. Cabe ao rei aceitá-las ou recusá-las. No que respeita a mestre Hirão, continua a ser o arquiteto do templo e não depende senão de mim.

    Salomão passou a noite a refletir e não visitou Nagsara. A rainha, refeita do ferimento, sofria deste, com um langor que apenas a presença do rei curava. Sensível à sua beleza frágil, aceitava o abrigo morno dos seus braços e a fogosidade dos seus beijos. Na sequência da reunião tempestuosa onde tinha desaprovado os seus conselheiros, os prazeres do amor pareciam-lhe insípidos e vãos. Por isso retirara-se para a câmara mortuária de David, onde ninguém entrara depois do seu desaparecimento.

    Salomão esquecera o leito modesto, as paredes grosseiras e o odor do desespero. As próprias feições de seu pai desvaneciam-se na sombra espessa da morte. Contudo, não era aquele o lugar onde encontrava a alma do monarca a quem Deus proibira de levar a cabo a obra? Não deveria pedir-lhe a ajuda do Além?

    Mestre Hirão não era nem um irmão nem um amigo. Já não se comportava como um servo mas como organizador de uma confraria, absorvendo as forças vivas de Israel e ameaçando desviá-las em seu proveito. Quem, senão algum cacico, aceitaria ver o seu trono correr um tal risco? Apesar do ódio, Sadoc discorria bem. Se David renunciara a construir o templo, não teria sido devido a uma inevitável tomada do poder por uma horda de operários, que, guiados por hábeis condutores, tomariam consciência do seu poder? O nascimento do edifício estava, no entanto, ligado a uma modificação de Israel, a existência de um estaleiro imenso em que todos os hebreus estariam implicados.

    A via seguida por David não era a da sabedoria? Salomão não deveria contentar-se em reinar no presente, negligenciando o futuro, preservar a tradição em vez de alterar o adquirido? Como teria sido preciosa a presença de um pai e de um conselheiro... Não havia senão a sombra morta de um quarto mudo, com todos os sinais da agonia.

    Salomão entregou-se a Deus. Orou com a inquietação de um filho perdido à procura da sua morada, com o desespero de um mendigo perante o qual as portas se fecham.

    Pouco antes de nascer o dia, quando as colinas se vestiam de violeta e cor de laranja, Deus falou a Salomão.

    Prometeu-lhe um sinal decisivo. O primeiro ser que encontrasse dar-lhe-ia a resposta esperada. Então saberia se devia ou não abandonar a construção do templo.

    O rei de Israel saiu da câmara funerária e meteu-se pelos corredores desertos e frios do antigo palácio. Não sofria com a falta de sol, ávido de conhecer a mensagem do Senhor das nuvens. Seria esse primeiro ser homem, animal, chuva ou vento? Deveria interrogar uma pedra ou a poeira do caminho? Dirigir-se a um mudo ou a uma ave?

    Um impulso irresistível levou Salomão a deixar aquele lugar. Passando entre os dois guardas postados de um lado e de outro ao cimo da escada que levava ao átrio, avistou uma silhueta que, emergindo das últimas trevas, caminhava em direção à morada real.

    De braços estendidos à sua frente, o caminhante trazia um cofre que lhe escondia o rosto.

    Era esse o enviado de Jeová.

    Salomão correu ao seu encontro.

    O homem parou no centro do átrio e pousou o cofre.

    Salomão reconheceu-o, apesar da penumbra lhe disfarçar as feições.

    - Mestre Hirão.

    - Peço-vos uma audiência, majestade.

    - A esta hora?

    - Acabo de terminar o plano dos edifícios que cobrirão o rochedo. Deveis vê-los sem demora.

    O arquiteto abriu o cofre e tirou um papiro com uns cinquenta metros de comprimento que desenrolou no átrio. Agiu com precaução, de forma a que as folhas cosidas umas às outras se desenrolassem sem dobras em falso.

    A luz do nascente ampliava-se com os gestos do mestre-de-obras.

    Iluminou um plano pormenorizado. No interior da muralha retangular, cujos lados compridos não eram paralelos, estavam previstos os locais para um palácio, uma sala do trono, uma sala de colunas, um tesouro e um grande templo. Cada linha estava assinalada com a indicação de uma proporção. Cada parte do plano estava ligada aos outros dispositivos arquitecturais por traços que formavam uma estrela gigantesca.

    Salomão sentiu uma harmonia ao mesmo tempo clara e estável, como a de um ser vivo de que tivesse contemplado a alma antes de ela ter tomado a forma de um corpo. O desenho era feito sem as medidas finais, apenas em escala reduzida. Ali batia o coração geométrico, indiferente as vicissitudes humanas. Deus respondera.

    Durante mais de uma hora, até que o primeiro Sol derramasse os seus raios generosos, Salomão contemplou o plano da obra. Leu-o com os olhos de um monarca, transpôs os traços para a pedra, imaginou o volume. A mão que tinha criado este esplendor seria apenas a de um homem? Mestre Hirão teria sido inspirado pelo Único, se bem que não acreditasse Nele?

    O arquiteto não deu qualquer explicação. Salomão não se baixou a pedir-lha. Convocou-o para o palácio, para o início da primeira vigília.

     

    Hirão chegou atrasado. Salomão não referiu a afronta. O seu convidado recusou-se a comer ou beber.

    - O vosso plano satisfaz-me. Executá-lo-eis pois. Onde pensais guardar este precioso documento?

    - Na oficina do traço.

    - Essa cabana não condiz já com a vossa dignidade. De agora em diante ficareis alojado numa das alas deste palácio. O plano da obra estará em segurança no tesouro real.

    - Recuso.

    - Porquê?

    - O que é do estaleiro fica no estaleiro. O conforto de que disponho chega-me.

    Era um desafio a Salomão na sua própria casa. O plano da obra revelava-se prodigioso, mas o seu autor tomava uma dimensão que nada tinha a ver com a sua função primeira. A atitude de mestre Hirão corroborava de todo as suposições do sumo-sacerdote.

    - Como quiserdes - acedeu Salomão.

     

    Numa aldeia perdida das montanhas de Efraim, os chefes das tribos de Manassé e Efraim, alguns religiosos tradicionalistas amigos do ex-sumo-sacerdote, Abiatar, e alguns chefes das milícias camponesas ouviam o discurso de Jeroboão.

    O gigante ruivo a quem Salomão confiara o cuidado de organizar o imposto braçal, falava com paixão a uma assembleia atenta, escondida no cimo de uma colina rochosa, e guardada por algumas sentinelas. O presente de Jeroboão impressionara os seus anfitriões: dois veados dourados, que lembravam festas famosas, durante as quais os Hebreus, longe de Jeová, se haviam entregado aos prazeres proibidos.

    - Desejas abandonar o culto do deus único? - perguntou um sacerdote.

    - Visto que essa potestade injusta favorece os desígnios de um rei louco, porque continuar a adorá-la? - respondeu Jeroboão. - Outrora Jeová guiava-nos para a guerra, hoje o nosso povo é covarde e fraco. O verdadeiro Jeová não necessita de um templo suntuoso. A Arca da Aliança basta-lhe. Ele é nômade como vós ou como eu e ávido de vitórias! Salomão quer realizar a unidade religiosa do reino para se tornar sacerdote de um deus pacífico, de que será o único confidente. Salomão é um faraó, não um rei de Israel. Tirará todo o poder aos chefes de tribo. Eliminará Sadoc tal como expulsou Abiatar. Aumentará o peso dos impostos, arruinará o país para alimentar esse templo maldito. Não podemos deixar-lhe por mais tempo as mãos livres.

    As palavras de Jeroboão semeavam a perturbação nas consciências. O chefe do imposto braçal, a quem Salomão recusara o título de mestre-de-obras, vingava-se.

    Um criado deitou numa pipa uma mistura de sumo de figo e de alfarroba, que deitou em taças e serviu aos membros da conspiração.

    - Desejas ocupar o trono de Salomão? - perguntou o chefe da tribo de Efraim.

    O queixo anguloso de Jeroboão ergueu-se. Por fim, era abordado o verdadeiro objectivo desta reunião secreta.

    - Israel tem necessidade de um monarca forte e valoroso, não de um poeta e de um fraco. A paz de Salomão conduz o nosso país à perda. O Egito invadir-nos-á à primeira oportunidade. Comigo, os nossos soldados recuperarão a confiança e atacarão o império do mal.

    Quando se iniciaram os debates, Jeroboão estava certo de ter ganho a partida. Quem não via nele um guerreiro capaz de galvanizar tropas ávidas de combate? O gigante ruivo aspirou a plenos pulmões o ar da montanha. Esta província, tal como as outras, seria sua. Possuiria esta terra e torná-la-ia orgulhosa da sua valentia proverbial.

    A deliberação foi breve.

    O chefe da tribo de Efraim avançou para Jeroboão.

    - Permanecemos fiéis a Salomão - anunciou. - Esqueceremos o teu discurso.

     

    Os conspiradores desceram as veredas que levavam à planície. Jeroboão berrava de fúria. Com um pontapé derrubou o tonel. Ao espalhar o sumo, que tornou o solo avermelhado, o gigante ruivo amaldiçoou os cobardes que o tinham traído.

     

    Anup ladrava. Caleb reunia uma quantidade de aprendizes e de companheiros. Todos estavam consternados pela horrível descoberta.

    Fora o varredor que os alertara. Na véspera do sabbat, subira ao telhado da oficina do traço, simples paliçada coberta de barro. Alguém a furara, introduzindo-se na casa, cuja porta, fechada à chave, dava uma ilusão de segurança.

    Hirão, que vivia havia dois dias em Esiongaber, onde inspeccionava os altos-fornos, foi chamado a Jerusalém. Ninguém ousava verificar antes dele a amplitude da catástrofe.

    O mestre-de-obras deu a volta à chave e entrou no domínio que julgava protegido. As ferramentas, os papiros e os calamos tinham desaparecido. Lívido, Hirão soergueu a tampa do cofre, onde se encontrava o plano da obra. Não tinha sido roubado.

    Estranho roubo, de fato. Porque teria sido preservado o essencial? O arquiteto desenrolou o papiro, temendo que tivesse sido danificado. O seu receio revelou-se injustificado. Pediu aos companheiros que construíssem nova casa, com um terraço em tijolos, sobre o qual tomaria lugar uma sentinela.

    Anup, com a alegria de ver o dono, tentou arrastá-lo para um passeio. Mas Caleb interpôs-se e pediu uma conversa imediata, fora do estaleiro. Apesar de coxear, avançava depressa, como se um demônio fosse atrás dele. O cão gostava da pressa, enfiando-se numa sebe e emergindo de uma mata, indicando o caminho a seguir. Os dois homens caminharam muito tempo pelo campo, até uma garganta estreita, salpicada de pequenas grutas, onde se refugiavam os rebanhos aquando das grandes chuvas. Esgotado, Caleb sentou-se sob uma figueira brava com frutos enormes.

    - Estou demasiado velho para caminhadas destas.

    - Tinha-te encarregado de olhares pelo estaleiro - recordou Hirão - Foi cometido um roubo. O que soubeste?

    - Infelizmente, nada! Essa façanha foi levada a cabo durante a noite. Eu estava a dormir. O vosso cão também. Mas fui os vossos olhos e os vossos ouvidos, mesmo assim! Deverei relatar o que vi e ouvi?

    Um calor pesado enchia a concavidade rochosa. Faltava o ar. O coxo não conseguia reter por mais tempo as confidências.

    - O rei David escondeu-se aqui durante uma revolução no palácio. Faríeis bem imitá-lo e esquecerdes o templo de Salomão. Olhai estes belos figos... Há muitos aqui nos arredores. Se me comprasseis uma quinta, apanhá-los-ia, secá-los-ia ao sol e vendê-los-ia nos mercados. Partilharíamos os lucros e levaríamos uma existência tranquila.

    O silêncio de Hirão desencorajou Caleb de prosseguir no mesmo tom.

    - Obstinar-vos-eis a construir o templo, estou certo... Desde que saibais a verdade! Entre os vossos operários, há bastantes malandros, mentirosos e preguiçosos. Temo mesmo que alguns aprendizes se tenham juntado a esse grupo. Os edifícios avançam muito devagar... Ninguém vê o fim ao estaleiro. Cansa. Murmura-se que marcais passo, que os vossos projetos são demasiado ambiciosos. O imposto braçal é mal aceite. Alguns companheiros acham até que estão mal pagos e que não reconheceis o seu mérito. Amanhã tornar-vos-eis um bode expiatório. Sede lúcido. Caluniavam-vos e traem-vos. Sois cada vez menos popular. O sonho de Salomão conhecerá uma destruição tempestuosa e nessa altura será tarde para fugir. O país cairá de novo numa guerra de tribos. Ninguém evitará a catástrofe. Haverá mortos, muitos mortos. Parti, mestre Hirão. Parti o mais depressa possível.

    Depois de cair a noite, Hirão verificou uma a uma as tábuas da paliçada. Examinou o terreno que bordejava a muralha circundante, procurando vestígios do túnel que os ladrões teriam escavado para se introduzirem no estaleiro. Pensou na utilização de escadas de corda.

    Não encontrou nenhum indício, nenhum sinal.

    - Os homens, mestre Hirão - murmurou uma voz atrás dele. A solução está nos homens.

    O arquiteto voltou-se para fazer frente ao rei Salomão. Espessas nuvens toldavam a lua nova. A obscuridade da noite dissimulava o soberano e o mestre-de-obras.

    - Esqueceis que eu reino sobre este país, mestre Hirão. Bastou-me subornar o guarda da entrada, alguns vigilantes e pagar a um rapaz magrito. Furou, sem dificuldade, o teto da vossa oficina. Como poderia provar-vos melhor que o plano da obra não estará em segurança, senão sob a minha proteção, no meu palácio? Aceitais, enfim, vir viver para junto de mim?

    É chegado o momento”, pensou Hirão. Era o próprio Salomão que o obrigaria a ultrapassar essa nova etapa que ele temia. A oficina do traço estaria aberta aos pedreiros, que ali arrumariam os utensílios e o avental e lhe assegurariam a guarda dia e noite.

    - Não, majestade. Viverei a partir de agora na pedreira, em contato direto com a pedra. A solução é ela. É menos mentirosa do que os homens. Não engana os que a respeitam.

    Salomão não tentou reter Hirão. Enganara-se ao tentar quebrá-lo por esta demonstração de força. Por um lado, estava desolado por a sua manha não ter resultado, por outro estava confiante por ter dado ao templo um mestre-de-obras desta têmpera. Receava, porém, esta admiração que o enfraquecia. Só ele governava, só ele devia governar. Dependia disso a felicidade de Israel.

    O arquiteto trabalhou noites seguidas para terminar a sala subterrânea, a que uma galeria cujo acesso estava vedado por Caleb e Anup conduzia. Deu-lhe as proporções de um cubo. Ao fundo, um nicho reproduzia o da câmara mediana da grande pirâmide, espécie de escada para o céu que o adepto subia, partindo do coração da terra e do centro da pedra, passando por um número infinito de portas visíveis e invisíveis que o aproximava da luz da origem.

    Depois da cerimônia do pagamento, Hirão escolheu nove companheiros aos quais não deu salário e pediu-lhes que esperassem. Este procedimento não habitual despertou temor e inveja nos seus confrades.

    O que se passava? Aqueles homens iam ser alvo de uma condenação ou de uma promoção? Por quê aqueles e não outros?

    O arquiteto foi obrigado a impor silêncio.

    Depois, conduziu os nove companheiros até à gruta, com o cão e o coxo a formarem a retaguarda, verificando que ninguém os seguia.

    Atrás de Hirão, cada um dos eleitos baixou a cabeça e desceu, curvado. A galeria ia dar ao santuário, iluminado por uma única tocha. Dispuseram-se em círculo em torno do mestre-de-obras, que, deslocando uma pedra que tinha encaixado de modo perfeito, fez surgir o côvado e a vara de sete palmos.

    - Eis os instrumentos dos mestres - revelou. - Com eles calculareis as proporções do templo. Ensinar-vos-ei os números que criam a natureza a todo o momento e cujo segredo é transmitido pelas pedras talhadas. Mas primeiro tendes de morrer para este mundo.

    Alguns resmungaram. Todos eles eram jovens que não tinham vontade de desaparecer.

    - Algum de vós tem medo?

    Cada um interrogou-se. O temor atenazava-lhes o ventre, mas o desejo de terem acesso a novos mistérios foi mais forte.

    Hirão ofereceu a cada companheiro uma taça de vinho.

    - Se fordes dignos da mestria, esta beberagem dar-vos-á coragem para enfrentardes as provas. Mas, se mentistes, se traístes, se a vossa palavra não foi pura, perecereis de imediato.

    As mãos tremiam ao receberem a taça, mas nenhum a recusou.

    - Bebei - ordenou mestre Hirão.

    De garganta apertada, os companheiros obedeceram. Um deles sentiu uma queimadura atroz no peito. Julgou que a terrível morte se apoderava dele. Mas o mal-estar dissipou-se. Os seus colegas tinham ficado de pé. Olhavam-se felizes por terem ultrapassado o obstáculo.

    - Estendam-se no chão de olhos postos na abóbada do teto. Hirão tirou-lhes o avental e cobriu-lhes a cara com ele.

    - Vós já não pertenceis ao universo dos homens vulgares. Em vós, afrontam-se a vida e a morte, para que morra a morte e viva a vida. O vosso passado já não existe. Pertenceis ao templo futuro. Sois os servos da obra. Nenhum outro mestre poderá impor-vos a lei. Pela regra da confraria de que sou depositário, faço-vos nascer para a mestria.

    Hirão pousou a vara sobre os corpos estendidos. Da cabeça aos pés tornou-se o seu eixo, em volta do qual se construía a partir de agora a sua existência. A iniciação que o arquiteto recebera, transmitia-a agora. Ele próprio experimentara o poder desta régua de mestre-de-obras, onde estavam inscritas as proporções que criariam o templo como se de um ser vivo se tratasse.

    Um agradável torpor apoderou-se dos companheiros. Não era sono, mas um êxtase sereno, iluminado por um sol cor de laranja, que brilhava muito para além do tecto da gruta. Esta não era uma barreira de pedra, mas um céu estrelado, onde a luz do dia brilhava em plena noite. Os adeptos fruíam de um profundo bem-estar. Tinham a impressão de se mover fora deles mesmos, como que libertados do peso do seu corpo. E ouviam a voz de Hirão revelar-lhes os segredos e os deveres dos mestres.

    Ao saírem dessa travessia de espaços coloridos, os companheiros tinham a idade da tradição geométrica dos antigos construtores e a juventude dos conquistadores.

    Hirão levantou um a um.

    - A norma do templo de Salomão será o côvado, a distância que vai do meu cotovelo à extremidade do dedo médio. Declinareis as proporções a partir dela.

    Hirão entregou aos novos mestres uma cana de cinquenta e dois centímetros que seria a chave da construção do edifício.

    - Atravessamos a morte? - perguntou um dos seus adeptos.

     

    - Desvaneceu-se em vós a ambição pessoal - disse o mestre-de-obras. - A meu lado e sob as minhas ordens, agireis, de agora em diante, de forma a transformardes a matéria em pedra de luz. O que morreu em vós foi o vosso aspecto perecível, o vosso egoísmo, a vossa tacanhez. A partir de agora, desempenhareis as funções de contramestre e ensinareis os companheiros e os aprendizes. Sereis vós a vigiar o estaleiro e a chamar ao trabalho os homens do imposto braçal, se essa ajuda se mostrar necessária. Eu viverei aqui a maior parte do tempo, a fim de passar o plano a volume. Na primeira noite vireis ter comigo e estudaremos o desenvolvimento do edifício.

    Os mestres juraram sobre a sua vida guardar o segredo que partilhavam.

    O coração de Hirão enchia-se de alegria. Com aqueles seres animados de uma outra visão, poderia, apesar de serem poucos e inexperientes, dirigir centenas de operários com eficácia. Salomão lançara-se na mais louca das aventuras. Não se apercebera das reais dificuldades dela. Decerto nem ele acreditava já no seu sonho. Contudo, Hirão e a sua confraria torná-lo-iam realidade.

     

    A camponesa empurrava o cabo e a mó de cima rodava sobre a de baixo. Repetiria o mesmo gesto durante horas, a fim de moer o grão. Ao roçarem uma na outra, as pedras soltavam um cântico plangente. Sofriam, como a mulher, para alimentar dezenas de ventres. Se o zumbido das mós parasse, afirmavam os sábios, seria o fim do mundo. Cansada, a camponesa cedeu o seu lugar a uma rapariga e voltou para casa, onde, com a roca e o fuso, teceria túnicas. Uma dízima da sua produção seria cobrada pelos funcionários de Salomão, de acordo com a lei editada pelo rei. Medida pesada para os pequenos, mas indispensável. Contribuir para a construção do templo não era garantir a ressurreição entre os justos?

    Um barulho assustou-a. Um ruído de fricção de metal mil vezes repetido.

    Aflita, largou o trabalho e saiu. A meio daquela tarde, um véu cobria o Sol. Um véu cuja terrível natureza a camponesa identificou. Soltou um grito de terror, seguido de um concerto de lamentações. Todos cessaram o trabalho. Todos haviam reconhecido o flagelo que se abatia sobre Israel.

    Milhões de gafanhotos obscureciam o astro-rei. Voando em blocos compactos, formavam um céu cinzento, uma abóbada móvel de várias toneladas, nascida do conjunto de insetos que pesavam apenas alguns gramas. Esses monstros de antenas em movimento permanente abatiam-se sobre as culturas. Um gafanhoto consumia por dia o seu peso em comida. Essas nuvens atacavam até os carneiros, cuja lã devoravam.

    Nada lhes escaparia. Guiados por um instinto infalível, devastavam campos e pastagens, não deixando nem espiga nem folha de erva. Ao primeiro assalto, um velho lavrador brandiu um forquilha e matou dezenas. Mas os seus acólitos morderam-no até fazer sangue e redobraram o ataque enquanto ele tentava fugir. Quando reinava David, dois bebés haviam sido devorados pelos gafanhotos.

    Hirão, que examinava as bases das colunas que os companheiros poliam, apercebeu-se do perigo. Nos anos em que a deusa leoa não fora esconjurada como devia ser, nuvens de gafanhotos ameaçavam fazer morrer de fome o Egito. Apenas a magia de um faraó podia repelir a invasão. Durante quantas semanas seria Israel vítima daqueles agressores implacáveis? Durante quanto tempo estaria interrompido o trabalho no estaleiro e desorganizado o grupo de trabalho do imposto braçal? Os homens não tinham conseguido travar o trabalho do mestre-de-obras. Os insetos ameaçavam consegui-lo.

    A rainha Nagsara, que repousava no seu jardim, refugiou-se nos seus aposentos. Os contadores de histórias, no palácio de Tanis, haviam evocado o ano dos gafanhotos. Não havia forma de escapar senão esconderem-se no fundo das casas e taparem-lhes todas as aberturas hermeticamente.

    Do alto do palácio de David, dominado pelo rochedo, Salomão enrolou o papiro onde escrevia um hino à sabedoria. A horrível nuvem de insetos seria um castigo enviado por Deus ou uma maldição do diabo? Condenaria Jeová o desejo do rei? Tentariam os poderes das trevas aniquilá-lo? Salomão dispunha de uma forma de sabê-lo: interrogar Nagsara.

    O tempo estava contado. Em breve a preocupação atingiria toda a população. Responsabilizaria Salomão pelo cataclismo. O rei teria de responder perante Deus e perante os seus súbditos. O sumo-sacerdote acusá-lo-ia de ter desencadeado a cólera do Altíssimo, manchando com um edifício ímpio a elevação que outrora os soberanos precedentes haviam respeitado.

    Nagsara inclinou-se perante o seu senhor. Só de vê-lo, a sua felicidade ultrapassava tudo. Os olhos negros da egípcia brilharam com uma juventude ardente. Salomão mostrou-se terno, mas não escondeu que era dos talentos de feiticeira que precisava.

    Nagsara não se furtou. Consultou mais uma vez a chama oferecendo-lhe mais uns meses da sua vida. Mas que havia de melhor do que satisfazer Salomão?

    A resposta do invisível caiu. Salomão deu um abraço demorado a Nagsara. Com o seu calor, restituiu a energia ao corpo de sua esposa. Quando ela mergulhou no sono, o rei utilizou o seu rubi. A pedra mágica permitir-lhe-ia ouvir a voz dos elementos. Um deles teria força suficiente para lutar contra os insetos.

    Os campos da Judéia e da Samaria tinham ficado desertos. Não havia vivalma nas praças das aldeias. A própria Jerusalém fora invadida por cachos de gafanhotos, que mordiscavam os raros jardins. Salomão rezava desde a véspera. A sua prece chegaria ao céu, atravessando o teto de insetos que escondia o Sol?

    Quando se ergueu o vento, levantando nuvens de poeira, Hirão sentiu esperança e angústia, ao mesmo tempo. Não teria o rei de Israel encontrado um remédio pior do que o mal? Esse sopro violento e escaldante não era senão o temível khamsin. A temperatura tornou-se depressa insuportável. A respiração queimava os pulmões. Mas o khamsin empurrou para norte as nuvens de gafanhotos. A noite que se seguiu à partida foi glacial. Muitos operários adoeceram. E o esgotamento apoderou-se dos que não sofriam de pneumonia e de anginas. Hirão obrigava-os a tomar mel e distribuiu cobertores. Com a madrugada voltou a canícula, submetendo os organismos a uma dura provação. Um aprendiz, que tinha o peito dilacerado pela tosse, parecia às portas da morte. Apesar da sua constituição robusta, o mestre-de-obras começava, também ele, a sentir os primeiros acessos de cansaço. Forçava-se a ir de tenda em tenda para encorajar os operários. O medo insinuava-se nos seus pensamentos. O espectro de uma epidemia não surgia da geena?

    Quando Hirão falava com um contramestre, encarando a possibilidade de aligeirar o programa de trabalho das próximas semanas, chegaram-lhe aos ouvidos gritos de alegria. Que acontecimento inesperado, naqueles tristes momentos, os provocava? Hirão dirigiu-se para a entrada do acampamento.

     

    Nota: Khamsin: Vento do deserto, que, nos piores períodos, levanta tempestades de areia. (N. da T.)

     

    Válidos ou não, operários e tarefeiros aclamavam Salomão. Com a sua longa túnica purpúrea de franjas de ouro, o soberano impunha respeito.

    O mestre-de-obras afastou os protectores do rei e ficou na sua frente.

    - O vento trouxe-nos a doença, majestade. É imprudente que vos aventureis a entrar no estaleiro.

    - O khamsin afastou os gafanhotos. Os campos estão salvos. Haverá comida para todos.

    - Quem terá ainda forças para trabalhar? Quem espalhou este sopro destruidor terá tido consciência do seu acto?

    - Apenas Deus tem o domínio dos elementos - lembrou Salomão. - Duvidais disso?

    Hirão não levou em conta a ironia de Salomão, embora estivesse convencido da intervenção mágica do soberano.

    - Não deveis expor-vos mais - avisou o arquiteto.

    - Eu vim curar. Quem conhece melhor do que eu os demônios que martelam as têmporas, rasgam os crânios, inflamam os olhos, fecham os ouvidos, rasgam as entranhas, apagam os corações, partem os rins e quebram as pernas? Os reis aprendem a lutar contra as cãibras, os abcessos, as dores, as febres e as lepras. Que tragam aqui os que sofrem.

    Não esperaram a autorização do mestre-de-obras para obedecer às ordens de Salomão. Muito depressa se organizou uma fila de pacientes. Os que sofriam mais eram trazidos pelos seus companheiros. Sobre a nuca de cada um Salomão impunha o seu selo.

    Enquanto os tratava, saíam da terra gemidos e queixumes, os demônios expulsos pelo rei pareciam desaparecer nas profundezas, atacados pelas doenças que tinham provocado. A atividade de Salomão continuou até nascerem as estrelas.

    Sob as tendas reinava um sono apaziguador.

    Frente a frente ficaram o soberano de Israel e o arquiteto do templo. Como o faraó do Egito, Salomão mostrara-se capaz de aliviar os males e praticar a arte do taumaturgo.

    - Bela vitória, majestade, mas perigosa empresa.

    - De modo nenhum, mestre Hirão. Porque não utilizar o dom recebido dos meus antepassados? Os que beneficiaram da imposição do meu selo não conhecerão nem o sofrimento nem a morte, durante a construção do santuário de Jeová. Os perigos foram afastados. Trabalhai em paz.

    - Diminuístes a minha autoridade. Cabia-me a mim tratar desses homens.

    - Sois construtor, não curandeiro. Seria vaidade crer que, sozinho, levaríeis a cabo a obra. O vosso domínio sobre as técnicas e arte do traço é total. Mais uma vez esqueceis os homens. Nem todos são capazes de vos igualar ou até de vos secundar. O vosso fogo é demasiado ardente. Odeiam-vos tanto quanto vos admiram. Assim é o vosso destino e não procureis modificá-lo.

    - Só os reis têm esse poder.

    - É verdade - reconheceu Salomão. - Não vos provei já que tendes todo o meu auxílio? Será ainda mais eficaz, se quiserdes.

    Hirão não desejava senão um rápido regresso ao Egito, a terra dos seus antepassados. Se havia pessoa incapaz de o ajudar era Salomão.

    - Mais não vos peço do que o domínio do estaleiro por que sou responsável, majestade. O resto não me diz respeito.

    - Não sois um deus. A doença e o sofrimento espreitam-vos. Se enfraquecerdes, o templo está em perigo. Porque não aceitar a imposição do meu selo e proteger-vos assim do assalto das forças maléficas?

    - Segui o vosso caminho, majestade, eu seguirei o meu.

    - E não se encontram os dois?

    - Cruzam-se durante o tempo em que este estaleiro estiver aberto. Depois divergirão.

    - No Egito, o faraó concede aos que lhe estão próximos a vida, a saúde e a força. Comigo passa-se o mesmo. Porquê recusar esses dons?

    - Não sou um dos vossos súditos, mas um nômade que cumprirá a sua palavra. Mal o edifício esteja pronto, ela estará esgotada e eu partirei. Não quero dever-vos nada. Governai o vosso país, eu reino sobre este estaleiro.

    Salomão não insistiu. Enfraquecera o mestre, sem ter conseguido submetê-lo.

    - Não esqueçais que o vosso estaleiro faz parte do meu reino.

    - Não esqueçais os homens, majestade. Os aprendizes, os companheiros e os mestres não dependem senão da minha autoridade. Sem essa hierarquia, não haverá templo.

     

    A fim de facilitar a passagem de carros e carroças carregados de pedras talhadas, Hirão mandara destruir casas vetustas e alargar ruas demasiado estreitas. Quebrando o labirinto da parte alta da cidade, criara uma vasta perspectiva que se abria sobre o palácio de Salomão, dominando a antiga cidade de David.

    Quando os trabalhos estavam bastante adiantados, o mestre-de-obras levou o rei e a rainha de Israel até ao local. O austero rochedo tinha mudado muito. Um lanço de degraus levava a um terraço. No ângulo norte erguiam-se as paredes do futuro tesouro, no ângulo oriental as da sala do trono e de julgamento. Era preciso caminhar ao longo das paredes desta para se descobrir o palácio, cujas numerosas divisões estavam dispostas em volta de um pátio a céu aberto. Os soberanos contemplaram as enormes fundações e os blocos de cinco metros de altura, polidos como mármore. Nagsara passou a mão sobre as pedras, achou-as tão perfeitas como o granito trabalhado pelos escultores egípcios. Hirão e os seus artesãos tinham realizado um verdadeiro prodígio, conciliando solidez e delicadeza. Os aposentos do monarca e de sua esposa, quase terminados, estavam já ornamentados com madeiras. As traves de cedro dos tectos elevavam-se a mais de seis metros, dando uma sensação de vastidão. De acordo com a tradição, Hirão separara o quarto do rei do da rainha, bem como os seus anexos, salas de águas, locais de privacidade, gabinetes, recepções, vestíbulos. A parede norte do palácio pareceu a Salomão muito mais grossa do que as outras. O mestre-de-obras explicou que faria parede-meia com o templo. No centro, abrir-lhe-ia uma porta que faria comunicar a morada do rei com a de Deus.

    Salomão permaneceu frio e reservado. Não queria manifestar o imenso orgulho que o invadia. Nunca um rei de Israel habitara palácio mais esplêndido, ao qual seriam acrescentadas salas de concerto e de banquetes, alojamentos das concubinas, funcionários, servos e guardas. Hirão concebera uma disposição tão harmoniosa quanto confortável.

    - A partir do próximo mês viveremos aqui - decidiu Salomão.

    - Os barulhos do estaleiro vizinho... - objetou Nagsara.

    - Serão agradáveis aos nossos ouvidos. Não haverá mais nenhuma outra morada para o rei de Israel. Que o mestre-de-obras apresse os acabamentos principais.

    Sorridente, Hirão inclinou-se.

    A vontade de Hirão foi satisfeita. Os companheiros trabalharam sem descanso no interior do palácio, sob a cuidada vigilância de Hirão. Os mestres enquadravam os aprendizes, companheiros e empreiteiros, tanto em Esiongaber como em Jerusalém, nas forjas como nas pedreiras, a fim de prosseguir a produção das ferramentas, sobretudo dos cinzéis de cobre que depressa se gastavam, e das pedras talhadas segundo as instruções do mestre-de-obras, antes de serem numeradas e guardadas em armazéns. Jeroboão organizava os homens do imposto braçal, sem resmungar. Ainda que a relação com os mestres fosse distante, respondia aos seus pedidos.

    Em atenção ao casal real, os carpinteiros de Hirão tinham fabricado um admirável mobiliário. Camas, tronos, cadeiras, mesas e baús de arrumações eram de cedro, oliveira ou acácia, a maior parte recobertos a folha de ouro. Pedestais de bronze suportavam archotes de tamanhos diversos, destinados a darem luz mais ou menos intensa ao local que iluminavam. Uma circulação de ar era assegurada por uma engenhosa distribuição de janelas, fáceis de ocultar durante os períodos frios.

    Apesar da insistência do mordomo-real do palácio, muito preso ao protocolo, Salomão não aceitou qualquer inauguração oficial antes da consagração do templo. Em três anos, mestre Hirão conseguira o mais fácil: edificar a residência real. Etapa brilhante, é certo, mas muito afastada do objetivo final.

    Quando a rainha ocupou pela primeira vez a ala que lhe estava reservada, o rei aceitou o seu convite para jantar. A jovem, que estava a entrar nos vinte anos, vestira-se à egípcia: vestido de linho transparente, de alças deixando os seios nus, peitoral de ouro, cornalina e lápis-lazúli, pulseiras de ouro nos pulsos e nos tornozelos. Os cabelos tinham sido entrançados e perfumados, os lábios rosados e as sobrancelhas enegrecidas. Como era sedutora aquela estrangeira, cuja paixão lhe transparecia no olhar! Como se oferecia, com gestos graciosos e respiração febril!

    Salomão deixou de lado o jantar. Despiu-a devagar e fez amor com ela com tanto ardor e ternura, que ela vibrou com todo o seu ser, como uma lira sob os dedos de um músico inspirado.

    Quando Nagsara adormeceu saciada de prazer, Salomão contemplou-a. Nua, abandonada, ela era harmonia, apesar da estranha marca que lhe adornava a garganta, essas letras com que o Além formara o nome de Hirão.

    Salomão tinha na boca um gosto a cinza.

    Não podia mentir a si próprio.

    Já não amava Nagsara.

    Hirão respondeu com reticências à mensagem da rainha que lhe pedia que viesse examinar a sala de recepções. A braços com dificuldades de transporte dos materiais provenientes das pedreiras, o arquitecto estava pouco interessado em ouvir os caprichos de uma rainha. Desde a sua chegada que ela se queixava da má qualidade de certas madeiras e da falta de acabamento de um cadeirão de cruzeta. Cansado, Hirão procedeu, mesmo assim, a um exame atento.

    - Estareis a troçar de mim, majestade? Não vejo qualquer defeito.

    - E vós, mestre Hirão, porque mentis? Uma fúria gelada invadiu o olhar do acusado.

    - Não permito a ninguém que me injurie dessa maneira. A vossa posição não vos autoriza a serdes injusta.

    - Se estais tão inocente como dizeis, explicai-me porque se assemelha tanto o plano deste palácio ao de Tanis, porque é que as técnicas empregadas são tão semelhantes às dos arquitetos egípcios, porque é que dentro destas paredes me sinto como se tivesse voltado ao meu país?

    Hirão aguentou o olhar de Nagsara, mas manteve-se mudo.

    - Haveis-me salvo duas vezes a vida e ignoro quem sois. Natural de Tiro, afirmais. Duvido. Vivestes no Egito. Tudo em vós me recorda os arquitetos de meu pai, esses homens de testa alta, ar severo, que parecem tantas vezes longe do mundo. Confessai, ordeno-vos.

    Hirão cruzou os braços.

    - Compreendo, enfim, porque se gravou o vosso nome na minha carne. Pertencemos à mesma raça, nascemos na mesma terra. Estais no exílio, tal como eu. Os deuses ordenam-me que me aproxime de vós, como se fôsseis a chave da minha felicidade. Mas eu amo Salomão... Só ele é a minha vida. Quero destruir esta inscrição que liga os nossos destinos, mestre Hirão! Odeio-a e detesto-vos. Só me resta uma solução para apagar este malefício que impede Salomão de experimentar por mim uma paixão crescente: a vossa partida. Deixai Israel. O palácio está acabado. Cumpristes o vosso contrato. Assim que estiverdes longe daqui, o vosso nome desaparecerá da minha garganta. A minha pele ficará purificada. Sois o gênio mau que destrói a minha alegria. Parti, suplico-vos. Parti e eu calarei o que descobri.

    - Nada tenho a temer do que divulgardes - respondeu o arquiteto. - A vossa imaginação está doente. Jurei construir um templo e cumprirei a minha palavra. Depois ir-me-ei embora.

    - Quanto tempo falta ainda...

    - Vários anos.

    - É impossível! O malefício já teria posto fim ao amor de Salomão! Nagsara lançou-se aos pés de Hirão.

    - Suplico-vos... Não me façais sofrer mais tempo. Voltai ao vosso país. Hirão fez levantar a rainha.

    - Não se volta atrás com a palavra dada, majestade.

    - Não compreendeis... esta marca... o vosso nome... já não os suporto!

    O arquiteto voltou as costas a Nagsara. Não a viu brandir um punhal e lançar-se sobre ele, mas sentiu o perigo como se fosse um animal selvagem.

    Com o antebraço aparou o golpe e desviou a trajetória da arma.

    Nagsara largou o punhal e recuou vários passos.

    - Deixai Jerusalém ou matar-vos-ei - prometeu.

    Um vento invernoso varria o rochedo havia vários dias e várias noites. Porém, o casal real permanecia no seu novo palácio, agora decorado com faianças. Braseiras proporcionavam-lhe um suave calor.

    Ao vento sucederam-se chuvas violentas. Fizeram deslizar terrenos, que surpreenderam os criadores de gado habituados a apascentar os rebanhos nos cimos das colinas. Os riachos encheram-se de correntes furiosas que resvalavam das encostas.

    O acampamento dos operários que residiam em Jerusalém e uma fundição nas margens do Jordão foram inundados. Afogaram-se alguns homens. Entre os trabalhadores do imposto braçal contou-se uma centena de vítimas. Jeroboão declarou-se incapaz de lutar contra a catástrofe. Responsabilizou Hirão por isso. O mestre-de-obras não se esquivou. Organizou o auxílio, com a ajuda de Salomão.

    Utensílios e pedras talhadas tinham sofrido danos. A principal pedreira, por causa da inundação, ficaria inutilizável durante semanas. Os caminhos de terra cobertos pelas águas impediam os veículos de circular. Certas regiões tornaram-se inacessíveis.

    Sadoc e os sacerdotes profetizaram o fim das obras. A população multiplicava os comentários contra mestre Hirão. O entusiasmo dos primeiros anos enfraquecia. O templo tornava-se um objectivo utópico. O rochedo já estava ocupado pelo palácio real. Salomão afirmara o seu prestígio. Que mais queria?

    Ajudado pelos mestres, Hirão acendeu fogueiras, em volta das quais se reuniram os operários. A administração real velava para que não faltassem nem alimentos nem roupas. O rei e o mestre-de-obras conjugavam esforços. A palavra de Hirão foi uma arma eficaz; pelo seu calor e força de convicção persuadiu a confraria de que o estaleiro não seria abandonado e o plano da obra seria cumprido até ao final.

    Salomão fez as mesmas declarações perante o Conselho da Coroa. O povo soube que a vontade do rei era inflexível.

    Quando o sol reapareceu, as águas refluíram. O trabalho foi retomado. Nenhum dos operários curados pela imposição do selo de Salomão morrera. O regresso do tempo ameno foi atribuído a Salomão, cuja sabedoria Deus reconhecera.

     

    Hirão entristecia. Era-lhe indiferente que a beleza do palácio servisse a glória de Salomão e não a sua. Mas a edificação do templo tornava-se cada vez mais difícil, prolongando também o tempo do exílio. Os homens do imposto braçal queixavam-se. Jeroboão era o seu porta-voz, deplorando as condições de vida dos miseráveis, de que Hirão era o único responsável. A fim de acalmar uma cólera crescente, Salomão vira-se obrigado a aumentar o montante do pagamento, diminuindo o tesouro mais depressa do que desejava.

    Alguns aprendizes tinham ascendido ao grau de pedreiro. Mas nenhum pedreiro se havia tornado mestre. Os nove eleitos de Hirão formavam o coração da confraria e permaneciam mudos quanto aos segredos que detinham. Aos pedreiros que pediam promoção e melhor salário, os mestres respondiam em uníssono que não tinham poder de decisão. Apenas Hirão, se achasse que devia fazê-lo, promoveria um pedreiro à mestria. Um aprendiz impaciente que se permitira invectivar o mestre-de-obras fora mandado embora para a sua aldeia. Acharam que a sanção fora severa, mas não a contestaram.

    Hirão não se permitia senão um prazer: longos passeios pelo campo com o cão, algumas horas por semana. Esquecia as preocupações quotidianas, sonhava com uma liberdade perdida, sonhava com as paisagens do Egipto. Comungava do sol e do ar, julgava afastar-se daquele trabalho em que a vida se consumia. Permitia-se a ilusão de ser um viajante de partida para a sua terra natal.

    Desta vez não tinha gosto em passear, era como se provasse um prato sem sal. A execução do plano da obra não correspondia às exigências do arquitecto. Os tempos de repouso eram demasiado longos. Os operários eram desmazelados. Apesar dos saltos de alegria do seu cão e do esplendor de uma natureza que despertava para a Primavera, Hirão não parava de pensar numa nova organização do trabalho. No dia seguinte redobraria as equipas indo buscar homens aos efetivos do imposto braçal.

    Como em todas as vésperas de sabbat, Caleb limpou a sala subterrânea que mestre Hirão escolhera para habitação. Enchera as lâmpadas de azeite e pusera em cima de uma pedra um prato com favas, bolachas e figos. No dia de repouso sagrado, a tradição obrigava a que não se cozinhasse e se comesse pratos frios.

    - Outra vez este sabbat - resmungou Hirão, que acabava de tomar banho.

    No dia seguinte seria proibido lavar-se.

    - É a nossa mais sagrada tradição - afirmou o coxo. - Respeitamo-la de geração para geração. O próprio Deus não descansou ao sétimo dia, depois de ter acabado a criação?

    - Eu ainda não terminei a minha. Estes dias perdidos contrariam o meu plano de obra.

    Caleb achou inadmissível a atitude do mestre-de-obras.

    - Temos de recuperar alento! Esqueceis que o primeiro homem nasceu no princípio do primeiro sabbat, ignorais que o nosso povo conseguiu sair do Egito no dia de sabbat? Pensar desrespeitá-lo seria uma falta muito grave. Meu príncipe, não pensais em...

    - Varre, Caleb.

    Os carpinteiros ajudados por alguns tarefeiros puseram no chão um gigantesco tronco de árvore. A desrama começou de imediato. Hirão dava ordens secas e precisas. Faltava pouco mais de uma hora para o início do sabbat. Jeroboão observava o céu. Esperava com impaciência o momento em que dispensaria os homens do imposto braçal.

    Quando surgiram as três primeiras estrelas no crepúsculo, o sabbat começou a brilhar. A trombeta soou pela primeira vez, avisando os trabalhadores para que parassem o trabalho. Os tarefeiros obedeceram ao costume de imediato. Quando soou o segundo toque, os comerciantes fecharam as locandas. Ao terceiro toque acendeu-se uma lamparina em frente de cada casa, símbolo da presença divina, manifestada no repouso das almas. Dali a pouco jantar-se-ia. Na ementa figurariam o vinho e especiarias três vezes abençoadas.

    Um dos companheiros carpinteiros, de acordo com as regras promulgadas por mestre Hirão, apanhou os ramos cortados. O estaleiro devia ficar limpo no fim do trabalho,

    Furioso, Jeroboão apanhou uma pedra e atirou-a à cabeça do carpinteiro. Este último caiu. O chão ficou ensanguentado.

    - Violou o sabbat, merecia a morte! - berrou o gigante ruivo.

    Os operários interpuseram-se entre o seu chefe e Hirão.

    Nas famílias elevavam-se orações de paz.

    Salomão não acedera a reunir o tribunal, apesar da insistência de Hirão. Segundo numerosas testemunhas, a infeliz vítima cometera um pecado tão grave que a cólera caíra de imediato sobre ela. Jeroboão fora apenas o braço de Jeová. Quem ousaria castigá-lo?

    Perante o rei, o arquiteto não calou a sua cólera.

    - Festas religiosas, repousos sagrados e ritos inflexíveis... Justificam a vossos olhos o assassínio de um inocente?

    - Foi culpado - respondeu Salomão. - O sabbat é o momento sagrado em que Deus prepara uma nova criação do mundo, no repouso. É anterior à lei de Israel e justifica-a. Quem não o respeita sabe ao que se expõe.

    - O companheiro obedecia à regra do estaleiro.

    - Ela não deveria ser contrária à de Israel. O responsável por esta tragédia sois vós, mestre Hirão.

    O arquiteto caminhava pelas veredas desertas das margens do Jordão. Os fornos estavam frios e apagados havia uma semana. O imposto braçal fora suspenso. Os operários acantonados nas tendas jogavam aos dados. No rochedo de Jerusalém, a atividade dos construtores tinha cessado. O palácio real campeava, soberbo e triste.

    A acusação feita por Jeroboão fora registada pelo secretário Eliap e provocaria um processo. Não tinha mestre Hirão, aos olhos dos fiéis, desprezado o sabbat e espezinhado os valores mais sagrados de Israel? Não era tão culpado quanto o companheiro lapidado?

    O sumo-sacerdote apoiara a queixa de Jeroboão de tal modo que Salomão fora obrigado a presidir a um julgamento. Como duvidar do resultado? Hirão fechara os estaleiros. Anunciara aos mestres que a sua grande empresa corria o risco de fracassar. Se o mestre-de-obras fosse condenado, nem aprendizes nem companheiros aceitariam outra autoridade. Mas o arquiteto exigia que não houvesse revolta a perturbar a ordem imposta por Salomão.

    Com a entrada da câmara subterrânea guardada por Caleb e Anup, a da oficina do traço pelos mestres, Hirão retirou-se para a solidão daquele lugar que aprendera a amar, um lugar daqueles outrora animados por gritos, cantares e encorajamentos. O vazio assentava-lhe mal.

    Só a voz dos utensílios os tornava belos. Sem ela, não ficavam senão os sinais de sofrimento dos homens e dos esforços para atingirem a perfeição.

    Hirão não aceitava o destino adverso. Um mestre saído da Casa da Vida tornava-se indigno do seu cargo ao renunciar à obra. Quaisquer que fossem as circunstâncias ou os obstáculos, só se culpava a si próprio. Fora estúpido, incapaz de se esquivar às manhas de Salomão, que encontrara maneira de se livrar de um arquitecto incómodo, assim que o palácio estivesse terminado.

    Mudar o destino... Sim, um adepto egípcio, iniciado nos mistérios, tinha capacidade de o fazer. Utilizava essa força imortal do espírito sobre a qual nenhum acontecimento tinha poder. Orientava de forma diferente o espelho do seu ser, onde os raios do Sol bateriam de outro ângulo. Assim se modificaria o curso da sua existência. Mas Hirão não abandonaria o caminho que lhe fora traçado contra a sua vontade. Para além da ordem do faraó e da vontade de Salomão, havia o desafio que Hirão lançara a si mesmo. Gostaria de ver nascer aquele templo para nele encarnar a sabedoria que lhe fora transmitida e dar provas da sua arte mesmo em plena adversidade.

    E eis que o rito do sabbat e a intervenção de personagens odiosas o reduziam à impotência e até ao mutismo definitivo. Pelo menos não teriam a satisfação de o ver fugir.

    Hirão preparava-se para comparecer perante o tribunal de Salomão, quando Caleb, contentíssimo, lhe trouxe um cordeiro.

    - Vede, meu príncipe! Ainda esta quente... Acaba de morrer. Foi Deus que no-lo ofereceu! Deveríamos marcá-lo com tinta vermelha num sítio pouco visível.

    - Para quê?

    - Uma dádiva do céu, digo-vos eu! Marcai-o, que eu trato do resto. Contentai-vos por estardes vivo.

    Caleb recusou mais explicações. Executada a sua vontade, correu para um destino só conhecido de si próprio, apertando nos braços os despojos como se se tratasse de um tesouro inestimável.

    Salomão dava audiência no antigo palácio de David. Receber Hirão no novo pórtico do julgamento era impossível. O local só existiria de direito depois da inauguração do templo.

    O templo... Quem o construiria depois da condenação do arquiteto? Como se comportaria a confraria que lhe concedera confiança? Mas Hirão transgredira a lei. Salomão não podia absolvê-lo sem transgredir a lei que dava vida a Israel. O mesmo não acontecia no país da sabedoria, nesse Egito, onde a lei divina, Maat, era a base intangível da civilização?

    O rei era obrigado a julgar e a punir um mestre-de-obras excepcional, sem o qual o santuário de Jeová não passaria de esboço. A regra de vida que devia preservar obrigava-o a destruir a obra que daria sentido ao seu reinado. Prisioneiro do seu próprio trono, adversário implacável daquele que deveria ter sido seu amigo, Salomão sentia-se abandonado pela sabedoria. Em que deserto, em que ravina inacessível ela se refugiara? Porque se afastava assim dele? Não se afastaria de Jerusalém a cada segundo para se aproximar da terra dos faraós?

    O sumo-sacerdote estava quase a vencer o rei. Com Hirão afastado, Salomão refugiar-se-ia no seu palácio do rochedo, julgando dominar o seu povo de quem estava cada vez mais separado.

    Ao lado do trono estava Sadoc. Vestido de forma ritual, o sumo-sacerdote segurava com ostentação o rolo da lei. Recordaria a importância do sabbat. Em nome do respeito pela religião, exigiria a lapidação de Hirão, culpado de sacrilégio e subversão. Salomão estava impedido de ser clemente. O arquiteto pagaria com a vida a morte de um companheiro que cometera o erro de obedecer às suas ordens.

    Sadoc convocara dignitários civis e religiosos que formavam uma assistência numerosa, animada do desejo de vingança contra o mestre-de-obras estrangeiro que nunca deixara de desdenhar dela. Não havia sabedoria que viesse em auxílio do seu real protetor.

    Hirão dirigiu-se para a sala do julgamento. Não pensava no desfecho antecipadamente conhecido, mas apenas na morte do companheiro que presenciara.

    O mestre-de-obras vestia uma túnica branca. Trazia um peitoral de ouro. Na mão direita, a vara que significava a sua autoridade sobre a confraria.

    O mordomo-real do palácio, de chave ao ombro, introduziu o acusado no tribunal.

    Mal Hirão apareceu, soltaram-se suspiros de espanto. Sadoc mudou de rosto. Pálido, de lábios cerrados, compreendeu que o arquiteto beneficiava de uma graça sobrenatural. Tal como ele, todos quantos ali estavam presentes viram materializar-se, na pessoa de Hirão, o construtor das origens anunciado pela tradição.

    Radiante, Salomão soube que a sabedoria não o abandonara.

    - Olhai bem este arquiteto - ordenou. - Ninguém pode julgá-lo. É ele que usa a vara com que o construtor vindo do céu mediu o templo futuro. Mestre Hirão concretiza a palavra de Jeová. Detém o instrumento da criação.

    Enchendo com a sua presença o limiar da porta, o arquiteto brandiu a vara profética. Todos se inclinaram, à exceção de Salomão.

     

    Salomão releu os relatórios de Eliap, semeados de colunas de números. As somas não mentiam. Os cofres esvaziavam-se mais depressa do que estava previsto. Dentro de menos de um ano o tesouro real estaria esgotado e o templo estava longe de estar terminado. Se o povo soubesse, não se revoltaria?

     

    Era preciso degolar aquele que se obstinava na divisão do país e em voltar as antigas facções. A ocasião que se apresentava era um presente de Deus. Salomão dirigiu-se à capela, onde o sumo-sacerdote acabava de celebrar o ofício matinal. Sadoc ficou surpreendido. Nunca o rei lhe fizera semelhante visita. Teria compreendido, por fim, que a soberania não se exercia sem partilha e que devia jurar fidelidade ao clero?

    O monarca sentou-se num banquinho de pedra. Sadoc tomou assento à sua direita.

    - Conheces bem os deveres de um sumo-sacerdote, Sadoc?

    - Claro, majestade.

    - Então não desposaste uma viúva.

    - Decerto que não!

    - Nem uma divorciada?

    - Majestade...

    - Nem uma ex-prostituta?

    - Majestade, sabeis que sou viúvo e que não voltei a tomar mulher.

    - Muito bem, Sadoc. Não cortaste os cantos da barba.

    - Deus me livre! Seria uma falta imperdoável.

    - Bem como beber vinho antes dos ofícios.

    A inquietação apoderou-se de Sadoc.

    - Ter-me-eis vindo falar das prescrições rituais da minha função?

    - Em especial de uma delas. Ignoras que é proibido comer um animal que não tenha sido abatido pela faca do ritualista?

    - Essa ignorância seria das mais criminosas.

    - Ontem à noite comeste um cordeiro impuro.

    - É impossível, majestade!

    - Tenho uma prova e uma testemunha - afirmou Salomão. Foste imprudente.

    O rei não citou Caleb, o coxo, que preparara uma armadilha ao sumo-sacerdote, depois de ter tido o cuidado de informar Salomão.

    Sadoc baixou a cabeça. O monarca não acusava sem provas. O sumo-sacerdote corria o risco de ser destituído da maneira mais injuriosa e de o nome da sua linhagem ser manchado para sempre.

    - Condescendo em ser indulgente, na condição de que te conserves nesta capela e não pronuncies nem mais uma palavra contra mestre Hirão. Pára de te opores à construção do templo.

    No rochedo, mestres e companheiros tinham retomado o trabalho, guiados pelo plano da obra desenrolado no chão de uma nova oficina, construída para o guardar. Os mestres decifravam as cotas anotadas por mestre Hirão, que todas as manhãs revelava proporções que permitiam passar do plano ao volume, da abstração à realidade.

    Quando o arquiteto deixou definitivamente a sala subterrânea e se instalou no estaleiro para dormir perto do plano da obra, Salomão chamou-o ao palácio.

    Jovens servas de corpo esbelto trouxeram taças de vinho fresco e tâmaras macias.

    O arquiteto recusou sentar-se.

    - Não é momento para recepções, majestade. Estou atrasado.

    - Correis o risco de vos atrasardes mais, se não me escutardes.

    - Mais obstáculos?

    - O templo é uma obra imensa. A economia de Israel está ao seu serviço. O esforço consentido pelo povo é à medida da empresa e da sua esperança. Contudo...

    - Contudo - prosseguiu Hirão - os meses passam depressa e o tesouro real esgota-se.

    Salomão tinha apostado na perspicácia do arquiteto. Da sua decisão dependeria o futuro do santuário.

    - Um rei - prosseguiu o mestre-de-obras - não pode descer a pedir a ajuda de um servo. Sobretudo um rei que tem reputação de ser um sábio. Tivestes uma visão demasiado grande, majestade. Israel não tinha riqueza suficiente para transformar este rochedo em morada de Deus.

    Salomão teve vontade de matar Hirão e fazer calar o seu orgulho e a sua arrogância. O soberano não avançaria mais no caminho da humilhação.

     

    - Não amo senão a grandeza - confessou Hirão. - A vossa aventura tornou-se a minha. Intervirei uma segunda vez junto do primeiro-ministro da rainha de Sabá. Produzam os campos de Israel trigo em quantidade, e obtereis ouro, de novo.

    Quando o ouro de Sabá chegou ao porto de Esiongaber, marinheiros, soldados e estivadores aclamaram o nome de Salomão. Não obtivera ele os favores da rainha de tesouros inesgotáveis? Não a convencera a tratar Israel como aliado privilegiado? Muitos soberanos tinham fracassado. O êxito de Salomão demonstrava a sua sabedoria, sempre a acompanhá-lo. Não era ela que lhe inspirava os pensamentos e ditava a conduta?

    Mestre Hirão calou-se sobre a sua intervenção, deixando a glória a Salomão.

    A nova dívida contraída pelo rei de Israel tornava-o impertinente. O mestre-de-obras não cedia uma polegada de terreno. Contudo, poderia ter tirado vantagem do prestígio que lhe reconheciam. Os sacerdotes haviam cessado os ataques contra ele. O povo temia-o. Certos altos funcionários temiam ver-lhe atribuído o título de intendente-geral. Mas Hirão não se mostrava no palácio. Encafuava-se no estaleiro do templo.

    Esta atitude intrigava Salomão. Não acreditava que o arquitecto se desinteressasse das coisas humanas. À frente de uma hierarquia severa, rodeado de um governo de mestres que lhe juravam absoluta fidelidade, Hirão tomava um lugar cada vez mais notável no coração do Estado hebreu.

    Se a construção do templo era lenta, se os trabalhos sofriam o entrave de atrasos, não era de modo nenhum por vontade do mestre-de-obras. Não tinha este optado por trocar o seu saber de construtor por um poder crescente que faria de si, em breve, o conselheiro indispensável de Salomão?

    A chegada de Nagsara não alegrara o rei. Havia mais de um mês que não estava com ela. O prazer de que tinha necessidade obtinha-o junto das concubinas, silenciosas e dóceis.

    A jovem rainha, de temperamento ciumento e exclusivo, não suportaria por muito tempo aquela situação. Ouvir as suas recriminações seria insuportável a Salomão. Obrigá-lo-ia a repudiá-la?

    Nagsara sorriu, bem-disposta. Prostrou-se aos pés do rei, abraçando-lhe as pernas com ternura.

    - O meu amor é imenso como o mar - confessou. - O meu desejo de vos fazer feliz é inesgotável como as vagas. Estou à altura de vos dar a felicidade que esperais de mim.

    - Quereis dizer...

    - Trago no meu ventre o vosso filho, ó bem-amado!

    Salomão levantou a rainha e tomou-a nos braços. Os filhos nascidos das concubinas não seriam mais do que príncipes sem papel dinástico. O filho da rainha de Israel seria o sucessor legítimo, o filho concebido pelo rei de Israel e a filha do faraó! Graças a ele, a política de paz seria durável. Salomão transmitiria àquela criança a sua experiência, a sua visão, a sua magia. Ensinar-lhe-ia a reinar, pô-lo-ia num trono sólido, ilustre e próspero, traçar-lhe-ia o caminho de um império luminoso.

    Um império em que dois países irmãos, Israel e Egito, partilhariam entre eles o mundo.

    Mais do que nunca se mostrava necessário um grande templo. Assim resplandeceria o nome de Salomão e de seu filho pelos séculos dos séculos.

    Hirão ficava a trabalhar até tarde com os mestres. O edifício ganhava corpo nos espíritos. As suas proporções viviam nas mãos dos artesãos. A exaltação apoderava-se dos corações. O mestre-de-obras acalmava-a. Punha de lado a precipitação que conduziria ao vício de construção e exigia lentidão e prudência. Insistia no mais pequeno pormenor e rectificava projetos que pareciam perfeitos.

    Quando os mestres começavam a fechar os olhos de esgotamento, mandava-os embora. Enquanto Caleb limpava a oficina, o arquiteto sentava-se na extremidade do rochedo. Com o cão anichado contra ele, meditava no silêncio da noite.

     

    Porque ajudara Salomão? Se o financiamento do templo tivesse sido interrompido, Hirão teria deixado Israel e voltado para o Egipto. Mas apaixonara-se pela sua obra. O santuário não seria de Jeová, mas seu. Nele imprimiria a marca e o génio do antigo Egito, transcreveria numa forma nova a antiga sabedoria.

    Hirão fora apanhado no jogo. Não servia nem um homem nem um rei, mas um ser de pedra ao qual oferecia a sua ciência e a sua vida.

    A confraria mostrava-se obediente e eficaz. Pacientemente constituída com o decorrer dos anos, teria podido rivalizar com um desses poderosos membros do Estado, criados pela Casa da Vida para construir as moradas dos deuses. Quase sem querer, Hirão comportara-se como um arquiteto de Tanis ou de Karnak encarregado pelo faraó de levar a bom termo um programa de grandes obras.

    Faraó... porque seria Salomão tão semelhante a um deles?

    A zona norte do bairro da cidade velha era um reduto de gente de passagem, patifórios e traficantes. Respeitando a sua própria lei, tentavam, contudo, não desrespeitar a de Salomão. Do mesmo modo, a polícia real evitava as ruelas sórdidas de cheiros nauseabundos, onde, de madrugada, jazia por vezes algum cadáver, que o serviço da ordem, discreto, fazia desaparecer.

    Salomão recusara-se a arrasar aquele enclave de miséria. Preferia aquele abcesso à difusão das forças do mal por toda a cidade de Jerusalém. Assim controlava-as com um mínimo de esforço.

    Eliap, seu secretário, não tinha a mesma certeza. Com a cabeça coberta por um pano castanho, usando uma túnica poeirenta, conseguira assemelhar-se aos frequentadores desses lugares mal afamados. Graças às informações precisas fornecidas por Jeroboão, encontrou sem dificuldade o casebre onde o esperava o chefe do imposto braçal. Empurrou uma porta carcomida e desceu uma escada de degraus gastos e musgosos. Foi dar a uma cave com débil iluminação onde foi recebido pelo gigante ruivo.

    - Bem-vindo, Eliap. Não te arrependerás de confiar em mim.

    - Porque me convocaste para aqui?

    - Agi por ordem daquele que quer salvar Israel.

    Pegando num facho cujo fumo enegrecia o teto húmido da cave, Jeroboão iluminou o canto onde se encontrava uma personagem magra de barba não cortada nos cantos.

    - Sois vós... sumo-sacerdote...

    - Não és um amigo, Eliap - disse Sadoc. - Apesar de teres nascido no Egito, tornaste-te um dos nossos. Sei que não aprovas as decisões do rei Salomão. Tal como nós, tens de velar pela felicidade do povo, que o rei põe em perigo.

    Eliap tinha medo. Encontrava-se, sem querer, metido numa conspiração de que se tornava, à força, participante. Jeroboão não o deixaria sair vivo daquela cave se se opusesse aos desígnios do sumo-sacerdote. O secretário sentia-se culpado ao trair um rei que o salvara da desgraça

    - e depois o elevara a um cargo invejável. Apesar do risco em que incorria, devia defendê-lo, demonstrar aos facciosos que se enganavam, que deviam manter-se fiéis a Salomão. Mas Eliap não tinha vocação para guerreiro. Só viveria uma vez. O seu poderoso protetor não poderia senão ceder perante a adversidade e a oposição crescente à sua política. Não teria o secretário obrigação de preparar o futuro, o seu futuro? Sadoc não teria razão de intervir neste período conturbado em que o monarca via o seu poder posto em causa por um mestre-de-obras estrangeiro? Não tentava também Hirão derrubar o trono para impor o reinado da sua confraria? Não se opor a isso teria sido criminoso.

    - Aprovo-vos - declarou Eliap.

    O sumo-sacerdote abraçou o secretário de Salomão, concedendo-lhe assim o mais significativo dos sinais de amizade.

    - És um homem corajoso - disse Sadoc. - Contigo reconstruiremos Israel.

    - Qual é a posição de Banaías?

    - O general é um ser simples. Só conhece o manejo da espada. A nossa acção deve manter-se secreta, o nosso rosto indecifrável. Seria um erro pô-lo demasiado cedo ao corrente dos nossos projetos. Mas ele está de coração connosco e obedecer-nos-á quando necessário.

    Jeroboão rejubilou. Abria-se à sua frente uma estrada luminosa. Amanhã seria rei de Israel e líder de um exército. Com o velho Banaías mandado para uma residência de província para aí acabar os seus dias, Sadoc recluso na antiga capela de David, Eliap condenado por alta traição, Jeroboão disporia de um poder absoluto e levantaria o maior exército jamais reunido em Israel. Apoderar-se-ia de Tiro e de Biblos, depois atacaria os campos do Delta egípcio, exterminaria as tropas do faraó e entraria vitorioso na orgulhosa cidade de Tanis.

    Graças a Eliap, teria conhecimento do funcionamento da administração de Salomão como se fosse ele próprio a dirigir o Estado. Espiar o rei dentro do seu próprio palácio impedi-lo-ia de ser apanhado desprevenido. Último obstáculo a transpor: Hirão e a sua confraria.

    - Como pensais agir? - perguntou Eliap.

    - Informar-nos-ás das intenções de Salomão - continuou Sadoc.

    - Observa a sua relação com Hirão - acrescentou Jeroboão. Queremos quebrar esse nefasto entendimento.

    - Esse entendimento... - repetiu Eliap, dubitativo. - Será esse o termo adequado? Às vezes, sinto que estão unidos como irmãos de sangue e que nada romperá a sua amizade. Não passa, decerto, de ilusão. Salomão detesta Hirão. A sua fama faz-lhe sombra. Quando o templo estiver terminado, como se verá livre dele? Apesar dos boatos, de que deve ser ele próprio a origem, todos sabem que o mestre-de-obras não deixará Jerusalém depois de ter realizado a sua obra-prima. O seu prestígio será, pelo menos, igual ao de Salomão e ele quererá tirar partido disso.

    - Por isso impediremos o nascimento desse inútil santuário - afirmou Sadoc. - Salomão ficar-nos-á reconhecido por isso.

    - Odiar-nos-á por termos arruinado o projeto que devia coroar o seu reinado - objetou Eliap.

    - Este monarca é um tirano e um louco - afirmou Jeroboão. Não merece governar Israel.

    - Impedir a construção do templo... Quem seria capaz?

    - Eu - respondeu Jeroboão.

    Os dois operários do imposto braçal aproximaram-se, curvados, da entrada do estaleiro. Aí não entrariam senão os membros da confraria. Desde que as fundações do templo estavam quase acabadas que Hirão não admitia profanos... Os que participariam na construção do plano tinham prestado juramento de fidelidade ao mestre-de-obras e jurado guardar segredo sobre tudo quanto vissem e ouvissem. A sua iniciação nos mistérios do traço permitir-lhes-ia manejar as pedras com amor e colocá-las de modo correto no edifício.

    Hirão ia dando contas do avanço regular da obra, mas recusava-se a revelar as técnicas utilizadas. Cada vez mais desconfiado, o arquiteto espaçava as breves conversas com o monarca. O trabalho exigia a sua presença permanente no rochedo, onde por detrás das altas paliçadas ia crescendo o santuário.

    Os operários pararam. A porta do estaleiro estava vigiada por dois guardas da entrada, um lá dentro e outro no exterior. Chegar até ali era fácil. Pagos por Jeroboão, os soldados que costumavam proibir a passagem na estrada que levava ao rochedo, tinham deixado passar os mensageiros do chefe dos tarefeiros. O prosseguimento da expedição seria menos fácil. Os artesãos de Hirão fariam ronda? Estariam sentinelas por detrás dos grandes blocos acumulados junto da entrada?

    No azul do crepúsculo puseram-se à espreita. O guarda da entrada, sentado na posição de canteiro e dobrado sobre si, parecia dormir. Não detectando nada de insólito, os enviados de Jeroboão levantaram-se. Um deles caminhou para a sentinela. O outro mais atrás, dera-lhe uma tocha que acendera num braseiro.

    Surpreendido pela luz, o guarda acordou.

    - Quem és, amigo?

    - Um tarefeiro que pede para ser recebido no estaleiro do templo.

    - Passa de largo, mestre Hirão não contrata mais ninguém.

    - Disseram-me o contrário.

    - Enganaram-te.

    - Aqui está uma confraria muito pretensiosa... Os que guardam segredos ou são medrosos ou conspiradores...

    - Desaparece ou provas do meu bastão!

    - Recebe primeiro o teu castigo!

    Com a extremidade da tocha, que manejou como se fosse uma espada, incendiou as vestes do guarda da entrada. Enquanto o infeliz gritava por socorro e se rebolava no chão com dores, os dois homens fugiram a correr.

    O atentado causara grande reboliço. Com queimaduras graves, o guarda da entrada fora tratado no palácio pelo próprio Salomão. O magnetismo do rei, os bálsamos proveniente de Sais, cidade dos médicos egípcios, e os emplastros de figos curá-lo-iam. Apesar das investigações levadas a cabo pelo chefe do palácio e o secretário, os dois assassinos não tinham sido encontrados.

    Hirão opusera-se com firmeza à colocação de um cordão de guardas em volta do estaleiro. Apesar dos riscos que corriam, os membros da confraria continuariam a velar eles próprios pela sua segurança.

    O rei promulgou um decreto anunciando a lapidação imediata de quem quer que atentasse contra um mestre, um companheiro ou um aprendiz. Ninguém poderia ter acesso ao cimo do rochedo sem salvo-conduto, uma tabuinha de madeira marcada com o selo de Salomão.

    O povo murmurava. Todos achavam que o monarca dependia de Hirão de forma cada vez mais inquietante. Não cedia o rei a todas as exigências do mestre-de-obras? Não se tornava um brinquedo nas suas mãos? De facto, Salomão dilapidava o seu tesouro para financiar os trabalhos cujo preço não tinha parado de aumentar. Hirão recusava pedras com o mais ínfimo defeito, desfazia colunas cujo perfil não respeitava as devidas proporções, derrubava paredes cuja inclinação não correspondia à que exigira.

    Para desespero do rei, trabalhava como se dispusesse da eternidade.

    Numa noite sem vento e sem nuvens, Hirão reuniu toda a sua confraria. Em silêncio, os construtores observavam o mestre-de-obras. Com ajuda de uma vara de cedro, furada em cima por uma alça de mira, apontou para a Estrela Polar. O braço assim estendido tornava-se a medida das estrelas. A inalterável luz do Norte impregnava as fundações. Tornadas vivas, as pedras não sofreriam o desgaste do tempo.

    Naquela noite, o vinho gorgolejou, pródigo, no estaleiro. Os artesãos falaram das suas certezas e das suas esperanças. Tinham consciência de participar numa aventura grandiosa. A simples voz de Hirão, tão perto deles pela fraternidade e tão longe pela ciência, dava-lhes uma energia inesgotável. Logo na manhã seguinte, esquecendo dores de cabeça e falta de sono, continuaram todos a colocar os blocos das infra-estruturas bem equilibradas e a utilizar as verrumas com mecha de sílex para desbastar as pedras.

    Os companheiros aplainavam-nas com grandes martelos, fazendo o acabamento com cinzéis em que batiam com malhos de madeira.

    Depressa gastas, as lâminas eram amoladas e, depois, as ferramentas substituídas.

    Uma ordem de Hirão interrompeu o canto dos cinzéis. Os artesãos reuniram-se à sua volta. O mestre-de-obras subiu ao mais alto bloco de pedra, que formava um degrau em relação ao alicerce do templo. A seus pés tinha várias traves. Dispôs uma na vertical e bloqueou-a com três pernadas de pinheiro. Depois ergueu uma segunda trave e colocou-a perpendicular à primeira de forma a que girasse de alto a baixo. Depois ergueu uma terceira trave e fixou-a. Atou-lhe cordas. Dois mestres ergueram um bloco que ele suspendeu na trave mais próxima do eixo. Os outros sete mestres puxaram as cordas assegurando um contrapeso que permitiu ao mestre-de-obras erguer, sem grande esforço, o bloco até à camada superior, ainda imaginária. Seria apenas necessário usar mais um madeiro, alavancas e cunhas, para fazer deslizar as pedras mais pesadas com toda a segurança e colocá-las no lugar com grande precisão. Assim, perante o olhar admirativo dos membros da sua confiança, Hirão acabava de revelar um dos processos de levantamento utilizado pelos construtores das grandes pirâmides do Egito.

     

    Hirão enrolou o papiro que continha o plano do templo. Com ele nos braços, dirigiu-se à extremidade do rochedo, onde se situava o Santo dos Santos. Depois pegou fogo às folhas cosidas umas às outras.

    O arquiteto já não precisava de plano. Nas chamas desapareciam as chaves das proporções e das medidas que não subsistiriam senão na sua memória. O edifício tornara-se a carne do mestre-de-obras, a sua substância. Não cometeria qualquer erro ao orientar os mestres e companheiros no desenvolvimento do traçado. Dali em diante, o templo falaria através dele. O desejo de criá-lo queimava-o como uma paixão insaciável. Para continuar a viver, Hirão tinha de construir.

    Na luz alaranjada que se erguia no céu nocturno, o arquitecto distinguiu outras chamas. Alguém, ao longe, tinha acendido outra fogueira, resposta insólita ao sacrifício oferecido pelo mestre-de-obras. Intrigado, Hirão saiu do estaleiro e avançou ao longo do muro do palácio. Dominando a cidade de David, a fonte de Gião e a cidade de Cedron, localizou o sítio de onde saía um fogo, misturado com fumos negros e nauseabundos.

    Passando a barreira formada pelos soldados de Salomão, Hirão caminhou até à orla desse vale profundo e isolado. Ali, encontravam-se acocorados mendigos, que não pareciam incomodados com o cheiro a carne queimada.

    - Não ides ali, senhor - recomendou um deles. - É a geena, o depósito de esgotos de Jerusalém. Nem os miseráveis como nós se atrevem a entrar lá.

    - Antigamente - acrescentou outro - matavam ali inocentes para aplacar a cólera de Moloch. Hoje amontoam ali o lixo e os cadáveres dos animais. Os velhos demónios andam sempre por ali a rondar.

    - De noite esses espectros devoram quem se atreve a ir àquela pilha de ossos - esclareceu um terceiro.

    Os mendigos não estavam a brincar. Hirão levou os seus avisos a sério. Mas uma força irresistível levava-o a explorar a geena. Apesar dos lamentos dos pobres miseráveis, avançou.

    Era realmente o inferno. Dejetos imundos e bafio eram uma agressão para a vista e para o olfacto. O arquitecto passou por cima de algumas ossadas. O fogo brilhava no fundo daquele vale de desespero cujo horror repelia a presença humana. Contudo, de rosto avermelhado, um homem coberto de farrapos soltava um riso de demente.

    - Impuro! - exclamou ao ver Hirão. - És um impuro, só eu sou puro!

    O louco tinha o rosto e as mãos cobertos de tatuagens que representavam Moloch e demônios de focinhos ensanguentados.

    - Não continues! Não tens esse direito!

    A luz iluminara, por um instante, uma forma maciça coberta de imundícies. O arquiteto aproximou-se.

    - Pára! Só um ser puro pode tocar nessa pedra!

    Perdido no coração da geena, jazia no solo um enorme bloco de granito rosa. Hirão pensou no ensinamento dos seus mestres. Não se trataria da pedra caída do céu, do tesouro oferecido aos artesãos, pelo arquiteto dos homens, para que sobre ela construíssem o santuário de Deus?

    O possesso levantou-se. De repente o seu delírio acalmou.

    - Não toques nesse bloco, mestre-de-obras! Nenhuma força, nem do alto nem de baixo a levantará.

    Hirão não prestou atenção à censura. Quando a sua mão entrou em contato com o granito de uma polidez perfeita, soube que aquela obra-prima provinha do Egito. Só um adepto da Casa da Vida teria conseguido alisar tão bem aquela superfície negra e rosa.

    - Esquece isso! - exortou o possesso. - Parte, afasta-te daqui! Senão a tua obra será destruída!

    O louco soltou um urro que atingiu o céu. Num salto lançou-se sobre o fogo. Os farrapos incendiaram-se e o cabelo transformou-se numa tocha. Morreu numa gargalhada.

    Apesar de aterrado, Hirão sentiu uma alegria viva.

    Acabava de descobrir a pedra angular do templo.

    Depois de uma centena de homens do imposto braçal terem aberto um caminho no lixo da geena e libertado o bloco da sua camada de podridão, Hirão e os mestres tentaram em vão deslocá-la. Era preciso primeiro abrir valas profundas na terra e depois construírem sólidos palanques.

    Acompanhado pelo general Banaías e pelo secretário Eliap, Salomão veio admirar a maravilha. Também ele lhe tocou com respeito.

    - Como tencionais aplicar este bloco?

    - Como fundação do Santo dos Santos - respondeu Hirão - Desde que consiga manobrá-la.

    Salomão voltou-se para Ocidente, fechou a mão direita sobre o rubi e ergueu a cabeça para o céu.

    - Onde fracassam os homens triunfam os elementos. Sentis o poder do sopro que nasce, mestre Hirão?

    Levantou-se um vento violento. Mais furioso que o próprio khamsín, sacudiu os corpos a ponto de os fazer vacilar.

    - Conheço o espírito do vento - prosseguiu Salomão. - Sei onde se forma, na imensidão do universo, perto da margem do mar das algas. É ele que, por ordem do Eterno, abriu as ondas do mar Vermelho para deixar passar o meu povo. Hoje a força será ainda maior. Levantará a pedra.

    Desencadeado, o sopro da tempestade obrigou Eliap e Banaías a abrigarem-se.

    Salomão ficou de pé, como que insensível. O seu olhar cruzou-se com o de Hirão quando o bloco gemeu, como se fosse arrancado do seu sudário. O arquitecto não hesitou. Fez sinal aos mestres para que amarrassem a pedra com as cordas. Um deles foi procurar os companheiros. Com a ajuda do vento da raiz do cosmo, depois de ter derramado leite no caminho do reboque, a confraria fez deslizar a pedra angular do templo em direção ao seu destino.

    Quando Jerusalém festejava a reunião da Hasartha, em que o povo, comendo pães da oblação comemorava a dádiva da lei divina a Moisés, Hirão acabava de escolher os imponentes troncos de cipreste de madeira perfumada que cobririam o chão do templo. Depois verificou o perfeito estado das oliveiras, escolhidas uma a uma no campo. Essas árvores cheias de sol, com uma altura de doze metros, com pelo menos quatrocentos anos, forneceriam a matéria das esculturas simbólicas que ornamentariam o santuário. As pedras talhadas nas carreiras, poisadas em base de granito formavam um imponente cortejo, à espera de serem colocadas na construção.

    Anunciava-se a etapa decisiva. Durante vários dias, ninguém ouvira o canto dos cinzéis, dos martelos, das rapadeiras e dos polidores. O ferro não quebrava o silêncio do estaleiro porque mestres e companheiros haviam recebido da boca do mestre-de-obras os segredos necessários para transportar para o espaço a arte do traço inscrita no plano da obra.

    Os contadores de histórias, perante uma multidão apaixonada, propunham cem explicações, umas mais fantásticas do que outras, para explicarem esta ausência de barulho. Primeiro, graças à intervenção de Salomão, os demónios tinham parado de desfazer todas as noites o trabalho dos construtores. Depois, e sob a ordem do rei, tinham-se emendado e passado a participar na construção. Prestando homenagem à sabedoria de Salomão, estas forças hostis tinham aceitado ajudar os artesãos. Saindo da terra, das águas, dos ares das planícies e das ravinas, das florestas e desertos, brotando dos metais escondidos nas profundezas, da seiva das árvores, dos relâmpagos da trovoada, das ondas do mar ou do perfume das flores, os demônios inclinaram-se perante Salomão, que os marcou com o seu selo. Por isso, eram eles que transportavam os blocos e os troncos, o ouro e o bronze, deslizando sob o solo. Mas o mais inspirado dos contadores ainda sabia mais: era uma águia do mar, de asas tão grandes que o seu corpo ia do Oriente a Ocidente e do Norte ao Sul, que trouxera a Salomão uma pedra mágica extraída da montanha do Poente. O rei dera-a a Hirão, envolvida num tecido precioso colocada dentro de uma caixa de ouro. Bastava ao mestre-de-obras fazer um traço na rocha da carreira e ali pousar o talismã: a pedra abria-se sozinha. Os canteiros tinham apenas de transportar os blocos até ao estaleiro. Para os ajustar uns aos outros não era preciso polidor: graças ao dom da águia, uniam-se com tal precisão que não era precisa qualquer junta.

    Falhamos constatou Sadoc. Salomão e Hirão estão mais fortes do que nunca.

    Reunidos na cave da cidade baixa, longe de ouvidos curiosos, Eliap e Jeroboão estavam com má cara. Segundo os relatos do secretário, as obras do templo, após cinco anos de minuciosa preparação, avançavam agora com surpreendente rapidez. Com os alicerces acabados, as primeiras camadas de pedra colocadas e o bloco do alicerce do Santo dos Santos posto no seu lugar, o santuário crescia a um ritmo novo. Quanto ao palácio do rei, embelezava-se todos os dias. A sala de audiências estava decorada. Amanhã construir-se-ia o tesouro.

    O povo exultava. O esforço pedido por Salomão parecia-lhe leve. Já que a sabedoria inspirava o rei e vivia no seu coração, porque não conceder-lhe a total confiança? Ele cumpriria o que prometera. O orgulhoso rochedo cuja soberba fora abatida pela confraria de Hirão, tornara-se o servo do templo de Deus, onde brilharia a chama da paz.

    Aqueles malditos artesãos não tiveram medo queixava-se Jeroboão. No entanto, o atentado contra o guarda da entrada deveria ter provocado uma debandada. Se recomeçassemos...

    É inútil objectou Eliap. Mestre Hirão tira-lhes todo o receio. Estão prontos a morrer por ele e não cederão a qualquer ameaça.

    Furioso, o gigante ruivo bateu com o punho na parede húmida.

    Então destruamos esse arquiteto!

    É demasiado perigoso opinou o sumo-sacerdote Está protegido pelos mestres e pelos companheiros. O inquérito de Salomão depressa chegaria até nós. Ao atacarmos mestre Hirão, perderíamos a vida.

     

    Temos, então, de abandonar a luta e resignar-nos a ver mestre Hirão e Salomão triunfarem?

    Claro que não. Resta a astúcia. Não é verdade, Eliap, que certos aprendizes se queixam dos salários modestos?

    - É verdade - confirmou o secretário. - Desejavam tornar-se pedreiros, mas mestre Hirão não pensa conceder-lhes a promoção.

    - Semeemos a perturbação na confraria - propôs Sadoc.

    - Aqueles homens prestaram juramento - recordou Eliap. - Não atraiçoarão o seu chefe.

    - Todo o indivíduo tem um preço. Estejamos prontos para pagá-lo.

     

    No primeiro dia da festa da tosquia das ovelhas e da consagração dos rebanhos, no princípio do Verão, Hirão deu feriado aos artesãos da confraria. Participaram nos banquetes oferecidos pelos camponeses, que não obtiveram qualquer resposta às múltiplas perguntas sobre o estado de adiantamento das obras.

    O arquiteto não assistiu a nenhuma festividade. Passeava pelo campo, longe das aldeias, em companhia do seu cão.

    À porta do estaleiro estava Caleb, furioso por ter sido nomeado guarda da porta exterior. Como as horas lhe pareciam longas! Quem ousaria pedir-lhe passagem, se mais de cem soldados, com o acordo de mestre Hirão, vigiavam o local até ao regresso da confraria? O coxo tinha horror à solidão, sobretudo quando perdia a oportunidade de se empanturrar e encher de vinho fresco. Já ninguém se opunha à construção do templo. Todos esperavam com impaciência poder contemplar o seu esplendor. Caleb teria sido mais útil a encher as taças do que a vigiar o vazio, sentado à sombra escassa da porta do estaleiro.

    Qual não foi o seu espanto, depressa toldado de medo, ao ver avançar para si um homem alto, coroado de um diadema de ouro e vestido com uma túnica branca debruada a ouro.

     

    Ao reconhecer o rei Salomão, Caleb estremeceu.

    - Ninguém pode aqui entrar, sem saber a palavra de senha - declarou a tremer.

    Salomão sorriu.

    - O meu selo dá-me acesso a todos os mundos. Se te opuseres a mim, transformo-te em animal selvagem ou em demônio sem cabeça.

    Caleb ajoelhou-se perante Salomão.

    - Senhor, recebi ordens!

    - És membro da confraria?

    - Um pouco... apenas um pouco... Mas nada sei de importante.

    - Nesse caso esquecerás a minha vinda. Sabe ter cuidado com a língua e tira-te do caminho.

    O templo não pertencia ao rei de Israel? Qual a gravidade de descobri-lo mais cedo do que estava previsto? Mesmo coxo, Caleb gostava da forma humana que Deus lhe tinha dado. Arrostar com a magia real não teria sido razoável. Por isso obedeceu, diligente.

    Depois de passar a entrada, Salomão avançou a passos muito lentos pelos domínios de Hirão.

    Escondidos pela muralha circundante, os muros do templo eram de tijolo revestido de madeira. A parte inferior era composta de três fieiras de pedra de cantaria, encimadas por fileiras de traves de cedro que serviam de aparelho interior e asseguravam a coesão até ao cimo. Vigamentos de madeira de cedro presos às paredes por cintas formavam um telhado robusto que suportava os terraços. O conjunto dava uma sensação de graça e serenidade. O arquiteto soubera traduzir nas linhas do edifício os pensamentos mais secretos de Salomão, o seu desejo ardente de uma paz que queria fazer brilhar sobre o mundo.

    Era impossível penetrar no interior. Havia tábuas e blocos de calcário a vedar o acesso. Frustrado, o rei aventurou-se pela parte do estaleiro onde estavam arrumados os utensílios e onde se encontrava a oficina de Hirão. O silêncio de locais de costume tão animados invadia-o com uma felicidade difusa. Tinha a sensação de colaborar no trabalho dos escultores, de observar a beleza dos seus gestos e de sentar-se junto deles quando do repouso da tarde. Na ausência dos artesãos, o seu espírito continuava a transformar a matéria, como se a obra prosseguisse sozinha, para além dos homens.

    A oficina do traço... Essa parte do seu reino estava-lhe proibida. Contudo, naquela modesta construção elaborava-se o santuário de Jeová. Salomão não resistiu à vontade de empurrar a porta.

    Abriu-se.

    Na soleira havia uma minúscula porta em granito. No frontão, uma inscrição: ”Tu que julgas ser um sábio continua a procurar a sabedoria”. No teto havia estrelas de cinco pontas alternando com sóis alados. No chão havia uma corda de treze nós que circundava um retângulo prateado. Nos cantos da divisão, havia vasos e jarras que continham esquadros, covados e papiros cheios de sinais geométricos. Na parede do fundo havia uma segunda inscrição: ”Não te sobrecarregues de bens deste mundo; para onde te levam os teus passos, se fores justo, nada te faltará”.

    Salomão meditou durante muito tempo dentro da oficina. Hirão fizera pouco dele, querendo dar-lhe uma lição. Ao designar Caleb como guarda, o mestre-de-obras sabia que ele não levantaria qualquer obstáculo à curiosidade, que não deixaria de arrastar o rei para o estaleiro deserto. As palavras e os objectos tinham sido colocados tendo em atenção o visitante indiscreto.

    A vaidade de um tirano teria ficado cruelmente ferida, mas Salomão viveu aquela provação com a sensação de pertencer, dali em diante, a uma confraria, que, em lugar de o humilhar, exaltava nele o amor pela sabedoria.

    Também ele teria gostado de manejar os utensílios, viver o calor de uma fraternidade, ligar-se à perfeição de um trabalho acabado.

    Mas era o rei. E ninguém senão ele podia percorrer o caminho que Deus tinha traçado.

    Não era um filho a coroa dos velhos, um tanchão de oliveira posto a crescer sob um céu luminoso, a flecha nas mãos do herói, a recompensa do sábio? Sim, um filho anunciava-se como uma bênção.

    A rainha de Israel ia dar à luz um filho de Salomão, ajudada por várias parteiras que a tinham sentado na cadeira de parto. O rei imaginava o momento delicioso em que teria nos braços o pequeno corpo que seria banhado, esfregado com sal e envolto em panos antes que Salomão o mostrasse a uma numerosa assistência a soltar gritos de aclamação. O monarca sonhava com a cerimónia de circuncisão. O sacerdote levaria a cabo com precisão a ablação do prepúcio e colocaria na ferida um emplastro de azeite, cominhos e vinho. O pai pegaria no filho, pô-lo-ia nos joelhos e, acalmando-lhe a dor com o seu magnetismo, falar-lhe-ia do seu futuro de herdeiro da coroa. Ensinar-lhe-ia que esquecer o uso do bastão era o mesmo que detestar um filho. Loucura e ruína espreitavam aquele a quem o pai não encaminhasse para o céu.

     

    Os queixumes de Nagsara preocupavam Salomão. A jovem sofria, em virtude do castigo divino que pesaria sobre o nascimento dos seres humanos até ao fim dos tempos.

    E chegou o momento da expulsão.

    Uma parteira apresentou o recém-nascido a Salomão.

    O rei repeliu-o.

    Nagsara dera-lhe não um filho, mas uma filha.

    Considerada como impura, a mãe deveria ficar isolada durante oitenta dias. Era-lhe proibido sair do quarto.

    Nagsara não parava de chorar. Como poderia obter o perdão? Ao dar um filho a Salomão teria recuperado o coração do seu esposo. Aquela menina, que ela nem sequer quisera ver, injuriava a grandeza do rei de Israel.

    Quando Salomão acedeu a visitá-la, Nagsara implorou a sua clemência.

    - Esqueçamos este desaire, senhor! Juro-vos que conceberei um filho!

    - Tenho outras preocupações! Descansa, Nagsara. Estás esgotada.

    - Não, sinto-me forte. Desejo levantar-me e servir-vos.

    - Nada de loucuras. Entrega-te às mãos das tuas servas.

    - É das vossas que preciso. Salomão permaneceu distante.

    - A administração do país requer uma presença a todo o momento. A garganta da jovem apertou-se. Recusava acreditar no desfecho que a esperava.

    - Quando voltarei a ver-vos?

    - Ignoro-o.

    - Quereis dizer que me repudiais?

    - És a filha do faraó e minha esposa. Com a tua presença, Siamão uniu o destino do Egito ao de Israel. Não romperei nem essa união nem a nossa. Nunca te repudiarei.

    A esperança rasgou um céu demasiado negro. Nagsara incendiou-se.

    - Então o vosso amor não morreu. Permiti-me que fique a vosso lado. Calar-me-ei, serei mais impalpável do que uma sombra, mais transparente do que um raio de sol, mais suave do que a brisa de Outono.

    Salomão estendeu as mãos em direcção a Nagsara, que as beijou com fervor.

    - Não tenho o direito de mentir, Nagsara. Amei-te, mas essa chama apagou-se. A paixão fugiu, como um cavalo apaixonado pelos grandes espaços. Tal como o do meu pai, o meu desejo salta de colina para vale, de encosta para cimo. Nenhuma mulher o aprisionará.

    - Vencerei as minhas rivais! Desfá-las-ei com as minhas unhas e lançá-las-ei na podridão da geena!

    - Acalma essa febre, minha esposa. O ódio não alimenta o amor.

    - Só a vossa afeição me interessa. Consagrarei todas as minhas forças a conquistá-la.

    - Tens o meu respeito.

    - Não me chega, nem nunca me chegará.

    Salomão afastou-se. Como desejava sentir a mesma paixão que a jovem egípcia. Mas que ser humano poderia rivalizar com o templo? Só ele enchia o coração do rei. Só ele atraía de agora em diante o seu amor. O prazer não passava de exaltação passageira e distracção do corpo. O templo absorvia todo o ser do rei de Israel.

    Quando ele saiu do quarto, apesar da sua fraqueza, a rainha decidiu consultar a sua chama. Quantos anos da sua existência lhe roubaria ela desta vez para lhe dar a verdade?

    No final da sua vidência, Nagsara desmaiou. Permaneceu inconsciente durante várias horas.

    Quando acordou, sabia.

    Não fora o rosto de uma rival, que divisara no azul alaranjado da chama do Além, mas um monumento imenso, de pedras brilhantes e que dominavam uma cidade em júbilo.

    O templo de Jerusalém. O templo de Salomão.

    Assim, o templo de Jeová matava em Salomão toda a ternura pela mulher que lhe oferecia a sua vida. Como combater um ser de pedra que cada dia se tornava mais poderoso, senão atingindo aquele que o fazia crescer: o arquiteto Hirão?

    Era à deusa Sekhmet, a aterradora, a destruidora, a propagadora de doenças, que Negsara tinha de recorrer.

     

    O templo está terminado declarou Hirão. Há mais de seis anos que a minha confraria se dedicou à obra. Que ela vos seja hoje confiada, rei de Israel.

    Salomão levantou-se, desceu os degraus do estrado do trono e ficou frente ao arquiteto.

    Que Deus proteja os seus servos. Guiai-me à Sua morada, mestre Hirão.

    Lado a lado, os dois homens saíram do palácio, passaram ao grande pátio inundado de um sol ardente e penetraram na zona sagrada, usando a passagem que ligava a morada do rei à de Jeová.

    Pararam em frente de duas colunas de bronze, de dez metros de altura, que sustentavam capitéis de bronze também ornados de romãs.

    Estas colunas são ocas explicou Hirão. E não sustentam nada mais senão os frutos que contêm as mil e uma riquezas da criação.

    O mestre-de-obras pensava na árvore que dera guarida ao cadáver de Osíris. No ser do deus, a ressurreição vencera a morte. A quem se dirigia para o santuário, tal como no Egito, as duas colunas, análogas aos obeliscos que precediam o pórtico de entrada, anunciariam a necessária morte para o mundo das aparências, a passagem pelo fuste vertical para renascer sob a forma de uma romã e depois estalar como um fruto maduro no encantamento do sagrado.

    Salomão aproximou-se da direita e impôs-lhe o seu selo.

    Deus estabelecerá aqui, para sempre, o Seu trono afirmou. Por isso te denomino Jakin.

    Depois fez o mesmo à coluna da esquerda.

    Que o rei rejubile na força de Deus! Por isso te chamo Booz. Para o monarca, as duas colunas erguiam-se quais árvores de vida cujo brilho se abria sobre o universo com que sonhara e que via materializar-se. Pelo seu génio, Hirão tornava possível o regresso ao paraíso, ao lugar bendito que antecedera a queda e o pecado.

    Para além dessa fronteira havia uma divisão de dez metros de largura e cinco de comprimento, o vestíbulo vazio de qualquer objeto, com paredes decoradas por flores esculpidas, palmeiras e leões alados cobertos de ouro fino, cintilando sob uma luz viva. Hirão transpusera assim a sala do templo egípcio, que precedia o santuário secreto.

    Este local chamar-se-á ulam, ”aquele que está à frente” decidiu Salomão. Aqui purificar-se-ão os sacerdotes.

    Este nártice estava fechado por um tabique de madeira. No meio deste havia uma porta, cujos batentes, em pesada madeira de cipreste, Salomão empurrou.

    Deparou-se-lhe uma grande sala de vinte metros de comprimento, dez de largura e quinze de altura. Janelas de grades de pedra deixavam entrar uma luz ténue. Salomão habituou-se a ela. Reparou que nas paredes havia madeiramentos de cedro, grinaldas de flores e palmas de ouro. No lintel, um triângulo. No chão, um sobrado de cipreste.

    Hirão colocara cinco candelabros de ouro à esquerda da entrada e cinco à direita. De um lado e de outro do centro, um altar de ouro e uma mesa de bronze. Assim traduzira a câmara do meio e a sala de oferendas onde oficiava o faraó do Egito.

    Salomão descalçou-se.

    - Quem quer que entre neste lugar, o hêkal, caminhará descalço. Sobre o altar estarão dispostos o incenso e os perfumes de forma que Deus se alimente todos os dias da essência sutil das coisas. Sobre a mesa, os doze pães de oferenda. No coração do Santo, um candelabro de sete braços cuja luz simbolizará o mistério da vida em espírito.

    Salomão ia de surpresa em surpresa. Não só Hirão tinha revelado o templo perfeito como, ainda, um espírito falava através do rei, ditando as palavras que davam os nomes às partes do edifício.

    Imobilizou-se perto da cortina que separava o hêkal da última divisão do templo.

    - Está mergulhada nas trevas?

    - Não penetra aí qualquer luz - respondeu Hirão, que se inspirara no nãos, local sagrado onde o faraó comunicava com a divindade.

    As Escrituras não revelavam que Jeová exigia habitar na obscuridade? Salomão levantou o véu. Hirão impediu que o baixasse, o monarca pôde assim contemplar o interior desta enorme pedra cúbica de dez metros de aresta, desprovida de janelas.

    - Eis, pois, o debir, a câmara escondida - murmurou.

    As paredes do Santo dos Santos estavam cobertas de ouro de Sabá, para sempre invisível ao profano. Ali não entraria senão o rei ou o seu delegado, o sumo-sacerdote.

    O solo elevava-se nitidamente acima do das outras salas, de acordo com a simbologia egípcia, que fazia com que se encontrassem no infinito o tecto celeste, que baixava pouco a pouco, e o solo terrestre, que se elevava para ele.

    Por baixo estava o gigantesco bloco de granito caído do céu.

    - Aqui será guardada a Arca da Aliança - decidiu Salomão - o relicário que mantém a presença de Deus entre o seu povo.

    O rei voltou-se para Hirão.

    - Deixai-me só.

    A cortina baixou-se.

    Mergulhado nas trevas do Santo dos Santos, Salomão saboreou a paz do Senhor. Nesse momento de plenitude, no seio do isolamento, que a luz invisível de Deus requeria, o monarca atingiu o apogeu do seu reinado. O que ele esperara, não para si mas pela glória do Único, tornara-se realidade. No fim do caminho encontrava-se aquele vazio, implacável e sereno.

    Aqui, de agora em diante, Salomão viria implorar a sabedoria.

    Quando saiu do templo, o rei ficou encadeado pelo sol. O que viu espantou-o de tal maneira que julgou ser uma alucinação.

    No átrio, não ainda pavimentado, campeavam duas personagens aladas de cabeça humana com uma altura de cinco metros. Em madeira de oliveira, coberta de ouro, assemelhavam-se à esfinge guardando as alamedas que conduziam aos templos do Egito. Mestre Hirão dera-lhes o rosto de Salomão.

    - Eis a obra-prima dos mestres - explicou Hirão.

    Salomão analisou em pormenor as espantosas esculturas. Não havia um defeito a beliscar a sua magnificência. Quem mais além do rei dos céus podia contemplar esses anjos a que a escritura chamava querubins?

    - Que sejam colocados no Santo dos Santos - decidiu Salomão.

    - Que desapareçam do olhar dos homens. As suas asas protegerão a Arca da Aliança. Encarnarão o sopro de Deus. No seu vôo, transportarão as almas justas.

    O rei admirou de novo as duas colunas percorrendo em espírito o eixo do templo.

    - Podemos proceder à inauguração, mestre Hirão?

    - O átrio e os edifícios anexos não estão terminados.

    - São assim tão necessários?

    - Não os achais indispensáveis? Sem eles, o templo não estaria completo.

    Salomão acalmou a sua impaciência. Mestre Hirão tinha razão.

    - Além disso - acrescentou o arquiteto - há uma outra obra única, à qual quero dar vida. Toda a confraria trabalhará nela ajudada pelos fundidores.

    - Durante quanto tempo?

    - Alguns meses, se me concederdes apoio total.

    - Como poderia ser de outro modo, mestre Hirão? Se as palavras soubessem dizer...

    O rei interrompeu-se. Agradecer ao arquiteto ter cumprido o seu contrato era baixar-se. Um monarca não tinha o direito de exprimir um sentimento de reconhecimento ao servo, nem que fosse o mestre-de-obras.

    Salomão gostaria de testemunhar a sua amizade a este arquitecto rabugento, partilhar com ele as suas inquietações e as suas esperanças. Mas a sua posição proibia-lho.

    Sentado entre as colunas, Hirão assistia ao pôr do Sol. Esgotados, os membros da confraria descansavam antes de retomarem o trabalho. Seria dos mais perigosos. O arquiteto tomaria todas as precauções possíveis para evitar pôr em perigo a vida dos artesãos. Poria em risco a sua pessoa, mas precisava de ajuda. Ver morrer um dos companheiros do estaleiro ser-lhe-ia insuportável. Contudo, era impossível abandonar a ideia que germinava no seu espírito. A fim de coroar o templo e de se purificar do esforço sobre-humano levado a cabo ao longos dos anos de exílio, era preciso que a sua visão tomasse forma.

    Hirão lamentava que a sua conversa com Salomão, no átrio inacabado, tivesse sido curta. Desejaria ter-lhe manifestado a admiração que sentia por um rei apaixonado pelo sagrado e a amizade nascida das provações. Mas Salomão reinava sobre Israel e ele sobre a confraria. O monarca não manejara as ferramentas, não derramara suor, nem esfolara as mãos. Nunca seria irmão na alegria e no sofrimento. O que ele e o rei tinham realizado ultrapassava-os sem os unir.

    Com os últimos raios do poente, Hirão passeava pelo estaleiro. Dentro de alguns dias desmontaria a oficina do traço. O trabalho e o sofrimento dos construtores seriam apagados da história. O edifício que haviam criado escapar-lhes-ia para sempre.

    O pé do mestre-de-obras bateu numa lasca de calcário negro que escondia um buraco. Saindo do seu abrigo, um escorpião negro fugiu à procura de outro esconderijo.

    O escorpião da deusa Serket, a que apertava a garganta, impedia o ar de passar e preparava a vinda da morte... O assassino de carapaça escura seria portador de um presságio? De que falecimento se faria mensageiro?

     

    - Peço a morte - disse Sadoc.

    - Porque tanta severidade? - admirou-se Salomão.

    - Porque a vossa esposa é culpada de magia negra. Vários sacerdotes a viram prestar homenagem a falsas divindades, fazer brilhar uma chama em pleno dia e pronunciar encantamentos, antes de cair num êxtase ímpio. Em nome de Jeová e da lei de Israel, reclamo um processo exemplar. Ninguém está acima da justiça.

    A cólera de Sadoc não era fingida. Além do ódio que tinha pela egípcia, a sua fé de sumo-sacerdote era exigente.

    - As tuas testemunhas estão prontas a comparecer perante mim?

    - Estão, majestade.

    - A acusação será, pois, formulada.

    Salomão sabia que o povo murmurava.

    As portas da cidade, onde se realizavam os mercados e onde se contratavam os trabalhadores à jorna, os crentes escandalizados pelo comportamento da rainha reclamavam um castigo. As conversas voavam. No momento em que Jeová disporia do mais belo templo jamais construído, como admitir que uma estrangeira o desafiasse com ritos pagãos?

    Se a sabedoria acompanhava Salomão nas suas empresas, não sofreria com a presença de um demônio a seu lado? Nagsara não era responsável pelos males que afligiam os velhos, pela morte prematura dos recém-nascidos, pelo khamsin que secava, pelas colheitas insuficientes, pelos Invernos demasiado rigorosos? Não haveria conluio com os demônios e as nuvens de insetos? O julgamento do povo estava feito: Nagsara, a egípcia, devia desaparecer.

    Com a oficina do traço desmontada e o átrio ocupado pelos colocadores de pavimento, mestre Hirão habitava de novo na sala subterrânea em companhia do seu cão. Caleb, o coxo, que não apreciava o ambiente do estaleiro, apenas dedicado ao trabalho, tinha nova oportunidade de brilhar ao preparar excelentes pratos que o arquiteto apreciava quase tanto como Anup.

    Utilizando lascas de calcário, que desfazia depois entre os dedos, apagando assim qualquer sinal do seu trabalho, desenhava plano atrás de plano, melhorando sem cessar o traçado da obra que devia erguer-se na zona sagrada e tornar ilustre o templo de Salomão pelos séculos dos séculos.

    Caleb serviu a Hirão borrego assado com rosmaninho. Apesar da desaprovação do cozinheiro, o cão herdou um bom bocado.

    - A rainha arrisca-se a ser condenada?

    - Salomão não tem alternativa - respondeu Caleb. - Tem muitas testemunhas. As línguas desatam-se. A egípcia pratica magia negra há muito tempo

    - Em que pena incorre?- Lapidação

    - Como pode defender-se?

    Caleb refletiu enquanto bebia uma taça de vinho.

    - Havia um meio... Um ritual muito antigo...

    - Qual?

    - A prova da água amarga. A acusada bebe uma mistura horrível onde se metem poeira, excrementos de animais e restos de plantas. Se ela vomita, a culpabilidade está provada O castigo é aplicado em seguida. Se não, é considerada inocente.

    - Perfeito - comentou Hirão. O coxo franziu o sobrolho

    - Perfeito? O que é que isso quer dizer? Ficaríeis contente com a execução de uma mulher? Isso não parece vosso.

    O arquiteto ficou silencioso.

    Informada pelo secretário de Salomão de que devia comparecer no tribunal real sob acusação de magia negra, a rainha de Israel escondia-se nos aposentos do novo palácio. Não conseguira reconquistar o marido. A deusa Sekhmet não tivera tempo de vir em seu auxílio. Ainda que se tivesse esgotado a consultar a chama, Nagsara não obtivera o meio de derrotar Hirão e precipitá-lo no reino das trevas. Esse reino onde pelo julgamento do homem que amava em breve entraria.

    Nagsara não queria morrer. Tinha força suficiente para continuar a lutar e suficiente poder mágico para combater Israel em peso. A sua imprudência arruinava as esperanças legítimas. A esta catástrofe vinha juntar-se a humilhação de receber aquele que detestava, o arquiteto do templo. Por intermédio de Caleb, ele pedira-lhe audiência. Decidida, a princípio, a recusar, acabara por refletir. Não era altura de extirpar o mal pela raiz?

    Quando mestre Hirão entrou, Nagsara apertou o cabo do punhal que tinha escondido sob uma prega do vestido.

    Vindes perseguir-me mais?

    Venho ajudar-vos, majestade. Conheço o destino cruel que vos espreita. Mal a acusação seja formulada, pedi a prova da água amarga.

    O que sabeis sobre isso? Aproximou-se do mestre-de-obras.

    Pratiquei magia e voltarei a praticá-la. Quero que Salomão me ame. Se a minha conduta vos atinge, condenai-me vós também!

    Brandir a arma, golpear e golpear de novo... Gestos simples, vivos, precisos, e Nagsara ficaria livre do demônio que a impedia de ser feliz.

    Repito, majestade: vim ajudar-vos, não julgar-vos.

    Não compreendo...

    Deitai na taça amarga este frasquinho de aloé purpúreo que vos entrego. Esta tintura impedir-vos-á de vomitar.

    Desorientada, Nagsara atirou o punhal para o chão. Hirão não prestou a menor atenção à arma que deveria matá-lo.

    Que os deuses vos protejam, majestade.

    A rainha ouviu sem protestar as acusações formuladas por Sadoc. Procurou, em vão, um sorriso no rosto de Salomão, um encorajamento no seu olhar. Mantinha-se frio, distante, limitando-se a presidir ao tribunal de Jeová.

    Sadoc chamou as testemunhas de acusação. A rainha não as contradisse. No final do depoimento, exigiu a prova da água amarga. O sumo-sacerdote, certo do resultado, não se lhe opôs. Antes de beber, de costas voltadas para o tribunal, Nagsara deitou o antídoto. O medo apoderou-se dela. Hirão não lhe teria dado veneno, para lhe apressar o fim e evitar-lhe a lapidação? Não lhe teria feito uma terrível mistificação?

    Bebeu de um trago.

    Um gosto horrível encheu-lhe a boca. O fogo queimava-lhe as entranhas.

    Mas não vomitou. Depois de ter saudado Salomão, passou em frente de Sadoc de cabeça levantada.

    Enquanto o povo aclamava Nagsara, ilibada pelo julgamento de Deus, o sumo-sacerdote reuniu os seus aliados, Eliap e Jeroboão. Na sequência deste novo fracasso, Sadoc sentia vontade de desistir. A luta mostrava-se demasiado desigual. Também ele acreditava agora que a sabedoria inspirava os pensamentos e os atos de Salomão. Quem se erguesse contra ele sofreria derrota. A razão não recomendava ao sumo-sacerdote que se contentasse com a sua função e servisse, fiel, o seu rei?

    Tenho excelentes notícias disse Jeroboão entusiasmado. Vários aprendizes estão muito descontentes com a sua sorte. Mestre Hirão trata-os como escravos. Impõe cada vez mais trabalho e recusa-se a aumentar o pagamento. A habitação é insalubre.

    E não sois o responsável por isso?

    Sou admitiu Jeroboão mas convenci um grupo de descontentes de que obedecia as ordens de mestre Hirão e que ele desprezava os aprendizes. Circula um boato no seio da confraria. O arquiteto teria intenção de criar uma obra inaudita que coroaria o templo. Para conseguir, teria necessidade da colaboração de todos, até dos fundidores de Esiongaber. Se fomentarmos uma revolta entre os aprendizes, levá-lo-emos ao fracasso. A sua queda arrastará consigo a de Salomão

    Sadoc ficou abalado. O ódio que Jeroboão sentia pelo rei arrastava-o para conclusões precipitadas. Mas enfraquecer a confraria e mestre Hirão seria, na realidade, um resultado apreciável.

    Pagaste a esses homens?

    Alguns aprendizes recusaram, outros aceitaram... Com o tempo hei-de comprá-los todos. Mestre Hirão há-de julgar reinar numa confraria que nos pertencerá.

    Sadoc permaneceu cético. Companheiros e mestres saberiam explicar que alguns medíocres não afectavam a coerência de um grupo. O prestígio de mestre Hirão estava demasiado afirmado para empalidecer com umas picadelas de insetos malfazejos.

    Podes desviar uma parte do tesouro de Salomão? perguntou Jeroboão a Eliap. Quanto mais generosos formos no pagamento, mais partidários teremos.

    Talvez não seja necessário. O gigante ruivo exaltou-se.

    Opor-te-ias ao meu plano?

    O destino completá-lo-á enredando mestre Hirão nas malhas de uma maldição. Tenho outra boa notícia: na cidade baixa, acaba de morrer um operário com disenteria.

     

    O Verão secava as gargantas. Os fortes calores desgastavam os organismos mais robustos. Cinco operários tinham sucumbido à disenteria. A doença tinha atingido mais de uma centena. Nuvens de mosquitos provenientes dos pântanos próximos do Jordão tinham invadido Jerusalém. A poeira, que volteava nos ventos ardentes, entrava nos olhos e provocava muitas oftalmias.

    Os médicos não conseguiam fabricar colírios suficientes à base de antimônio. Aqueles cujas entranhas eram torturadas pelos demônios davam a beber tisanas de rosmaninho, de arruda e de sumo extraído da raiz das palmeiras.

    Uns vinte aprendizes pediram para ser recebidos por mestre Hirão. Anup rosnou. Caleb respondeu que o arquiteto trabalhava nos planos da sua obra-prima e que os chamaria dentro em pouco. Perante a insistência do que chefiava o grupo, Caleb acedeu a importunar Hirão.

    Este abandonou o trabalho e veio ao encontro dos aprendizes. O seu rosto irritado impôs silêncio nas fileiras.

    - Que significa esta atitude? Terão esquecido a nossa hierarquia? Ignorais que deveis dirigir as vossas pretensões ao mestre encarregado da vossa instrução?

    O chefe, um jovem de uns vinte anos, de ombros frágeis, ajoelhou-se perante o mestre-de-obras e lançou no chão algumas moedas de prata.

    - Só vós podeis intervir. Dois homens do imposto braçal tentam subornar-nos, nós resistir-lhes-emos. Mas porque temos de viver em habitações sórdidas? Somos considerados animais doentes?

    - Não é Jeroboão que se encarrega do vosso alojamento?

    - Ele diz obedecer às vossas ordens. Nós preferíamos as tendas. Ele obrigou-nos a mudar-nos invocando a vossa autoridade.

    Mesmo no seio da confraria, o nome de Hirão podia, pois, ser utilizado para maus fins. A fraternidade que ele conseguira mostrava-se bem frágil.

    - Levai-me às vossas habitações. Quero vê-las.

    Hirão obteve um esclarecimento doloroso. Os aprendizes tinham sido alojados em casas baixas, sem ar e sem luz, de paredes manchadas de lepra e com cavidades avermelhadas, onde passeavam as baratas. Doentes jaziam em esteiras infectas.

    - Deixai de imediato estes casebres e voltai para as tendas - ordenou Hirão.

    Quando o mestre-de-obras quis sair da capital pela porta principal, a fim de se dirigir sem demora ao templo de Jerusalém, esbarrou com uma multidão vociferante composta pelos homens do imposto braçal. Vários operários transtornados apelavam à greve. Queixavam-se dos salários insuficientes, de pagamentos atrasados, da comida insalubre.

    Hirão abriu caminho entre as fileiras e colocou-se no meio deles. Deixou-os berrar durante longos minutos. Ninguém ousou tocar-lhe. A revolta acalmou. Quando os clamores se calaram, Hirão tomou a palavra.

    - As vossas reivindicações são justas - concordou. - Onde está o vosso chefe?

    - Jeroboão anda de viagem na província - respondeu um velho.

    - O nosso chefe sois vós! Sois responsável pelas nossas desditas.

    A tensão aumentou de novo. Ouviram-se insultos.

    - Aqueles que caluniam o seu chefe tornam-se indignos do trabalho que ele lhes confia - disse Hirão. - Não pertenceis à minha confraria, mas ao grupo que Jeroboão está encarregado de organizar. Não é junto de vós que vou resolver a questão, mas junto do rei. Como mestre-de-obras obterei o que vos deve ser concedido. Se um único de vós puser em dúvida a minha palavra que me atire uma pedra à cara.

    O círculo dos operários alargou-se.

    Elevou-se um grito: ”Glória a Mestre Hirão!” Seguiram-se centenas de outros.

    - Se reuni o Conselho da Coroa - explicou Salomão - foi para examinar um importante documento que acaba de me chegar às mãos.

    Jerusalém não falava senão da destituição de Jeroboão, pedida e obtida por mestre Hirão, nomeado chefe do imposto braçal. O poder do arquitecto continuava a crescer. A sua popularidade, depois de as exigências dos operários terem sido satisfeitas, ameaçava igualar a de Salomão. Os membros do Conselho estavam convencidos de que o rei os convocara a fim de estudar esta perigosa situação. Mas não era essa a sua preocupação.

    - Eis a carta que recebi, prosseguiu o monarca: ”Ao meu irmão Salomão, o poderoso rei de Israel, da parte da sua irmã, a rainha de Sabá As árvores que crescem no meu país foram plantadas ao terceiro dia, na pureza da criação, antes do nascimento da humanidade; os rios que banham as minhas terras nascem no paraíso; os habitantes de Sabá ignoram a guerra e o manejo da espada. É como mensageira da paz que te escrevo. Enviei-te o meu ouro porque desejavas construir um templo. Hoje gostava de contemplá-lo, saber para que serviram as riquezas de Sabá. Convidar-me-á o meu irmão para a sua corte?”

    Sadoc, Eliap e Banaías estavam perplexos. Salomão gozava, na verdade, de todas as felicidades. Á rainha de Sabá nunca saíra do seu país. E eis que propunha iluminar com a sua presença a Jerusalém do filho de David!

    - Que essa mulher se prostre primeiro perante ti - exigiu desconfiado o general Banaías. - Ela esquece que todos os soberanos da terra têm de render homenagem à tua sabedoria. Se ela recusa, o meu exército erguer-se-á contra ela.

    Salomão acalmou o homem de guerra.

    - Acolhamos a paz que ela nos propõe - diz o rei. - A sua viagem será uma homenagem a Jeová.

    - Desconfiai dessa mulher - recomendou Sadoc. - Se essa rainha se purifica nos rios do paraíso, se se alimenta dos frutos das árvores nascidas antes da queda e do pecado, se a sua riqueza é a mais abundante, a sabedoria dela não será superior à vossa?

    - Corro esse risco - afirmou Salomão. - Tendes outras objecções à vinda da rainha de Sabá?

    Os três membros do Conselho calaram-se.

    - Só me resta consultar uma pessoa. Está pronto, Eliap, a escrever uma resposta.

    Salomão encontrou-se com Hirão, mesmo antes da sua partida para Esiongaber. Os dois homens caminhavam lado a lado na grande estrada pavimentada que liga Jerusalém a Samaria.

    - Jeová gratifica-nos com um milagre: a visita próxima da rainha de Sabá. O Conselho da Coroa deu a sua aprovação. Qual é a vossa opinião, mestre Hirão?

    - Sois vós que governais Israel, majestade.

    - Desejais a presença da rainha aquando da inauguração do templo?

    - Na minha opinião, seria um erro. Esse momento é reservado ao diálogo entre o rei e o seu deus. Nenhum monarca estrangeiro o deve perturbar.

    - Sábia precaução - reconheceu Salomão. - Quando marcaríeis a vinda da rainha?

    - Quando o templo tiver sido inaugurado, quando o palácio e os edifícios anexos estiverem terminados. O rei de Israel ostentará uma obra acabada.

    - Dentro de quanto tempo, mestre Hirão?

    - Dentro de um ano.

    Jeroboão deu largas à sua cólera. Tendo perdido o seu lugar de chefe do imposto braçal, tornava-se simples intendente dos estábulos de Jerusalém. Os aprendizes haviam simulado uma traição para melhor avisar Hirão do que se tramava contra ele. A tentativa de revolta dos tarefeiros falhara; Hirão utilizara o acontecimento em seu proveito.

    O arquiteto surgia tão intocável quanto o rei. Sobre os dois homens estendia-se uma proteção divina.

    - Contentai-vos com a vossa sorte - observou Eliap. - Foi o próprio Hirão que defendeu a vossa causa junto de Salomão. Ao mesmo tempo que pedia o vosso despedimento por incompetência, implorou clemência para vós.

    - Fui ridicularizado aos olhos de um rebanho de carneiros que ontem comandava! - rugiu o gigante ruivo. - Eu, o futuro rei deste país, estou reduzido à condição de criado de quem se troça!

    - Renunciemos a esta conspiração - propôs o secretário de Salomão. - A sorte é-nos adversa.

    - Resta-nos uma última oportunidade - observou Sadoc. - A ideia de Jeroboão era excelente, mas aplicamo-la mal. Os aprendizes são demasiado dedicados a Hirão.

    - Quereríeis corromper os mestres? - ironizou o antigo chefe dos tarefeiros. - Eram capazes de dar a vida por Hirão!

    - Penso nos pedreiros. Afastemos a corrupção e pensemos na ambição. Alguns deles acalentam o desejo ardente de serem mestres e descobrir a palavra de passe que lhes abrirá a porta dos grandes mistérios. Em primeiro lugar, enfraqueçamos o prestígio de Hirão. Façamos fracassar a sua obra-prima. Depois, persuadamos dois ou três pedreiros a forçar esse mau arquitecto a entregar-lhes os segredos da mestria. Assim, o coração da confraria será destruído. Por fim, provemos que Salomão é um rei indeciso, que compromete a segurança de Israel e atraiçoa as intenções de Jeová.

    Eliap, apesar do medo que lhe perturbava a respiração, não ousou protestar. Jeroboão, de novo cheio de esperança, passou a mão pelos cabelos. O sumo-sacerdote era um espírito notável, mas perigoso. Quando tivesse destituído Salomão, seria indispensável eliminar Sadoc.

    O país de Sabá vivia na paz e na felicidade. Extensas florestas, por onde saltitavam macacos, ornamentavam o cimo de colinas atravessadas por ribeiros bordejados de jasmins. Gardênias gigantes ornamentavam as planícies e abrigavam centenas de pássaros de plumagem vermelha, verde e amarela.

    Ao nascer do Sol, Balquis, a rainha de Sabá, surgiu no terraço superior do seu templo, decorado com esfinges e estrelas dedicadas à deusa egípcia Hátor. Admirava os jardins suspensos, onde reinavam oliveiras centenárias, que, segundo a lenda, tinham sido plantadas pelo próprio deus Tot, aquando de uma das suas viagens a Sabá.

    A rainha estendeu os braços para o Sol nascente, dirigindo-lhe uma longa prece de homenagem às benesses que ele proporcionava a este país e ao seu povo. Hoje como ontem, as montanhas ofereciam-lhe ouro. Especialistas colheriam o incenso, a canela e o cinamono; os pescadores apanhariam as pérolas. Estas maravilhas seriam encaminhadas para o palácio, onde a rainha invocaria para eles a bênção do Sol e da Lua. Uma poupa prateada poisou no rebordo de pedra do terraço. Não pressagiaria a chegada iminente de um mensageiro vindo de Israel? De fato, o primeiro-ministro não tardou a trazer uma missiva a Balquis.

    Ela leu-a com alegria.

    - Irei - murmurou. - Dentro de um ano, Salomão, irei a Jerusalém.

    Inspirando-se nas tinas de purificação existentes nos vestíbulos interiores dos templos egípcios, Hirão concebera o projeto de uma bacia de bronze monumental que se preparava para criar nas margens do Jordão. À vista dos planos, os mestres tinham chamado ”mar de bronze” à obra-prima do arquitecto, temendo as dificuldades técnicas quase inultrapassáveis que os fundidores tinham de enfrentar.

    Muros de tijolo tinham sido erguidos em volta de um gigantesco molde escavado na areia. Era ele que recebia a corrente de bronze proveniente da goela escancarada de vários altos-fornos.

    Hirão estava preocupado. A empresa afigurava-se perigosa. Múltiplos regos permitiam desviar a corrente de fogo se se desse um incidente. Mas as precauções tomadas não tranquilizavam mestre Hirão. Pediu a todos quantos trabalhavam no estaleiro que interrompessem o trabalho ao primeiro sinal de perigo. Teve até a tentação de deixar a sua criação no domínio do sonho, mas o entusiasmo dos mestres era tal que acedeu a não desistir.

    Hirão verificou um a um os andaimes que foram colocados em torno do futuro mar de bronze, examinou durante muito tempo o forno colocado debaixo dele, obrigou os operários a repetir dez vezes os mesmos gestos. Tudo parecia em ordem. A exaltação dos grandes momentos animava os corações.

    De acordo com a tradição dos fundidores, a obra começou quando as estrelas despontaram. De noite, a mínima anomalia seria imediatamente reparada. O olhar poderia acompanhar os meandros da corrente de fogo.

    Foi o momento escolhido por Jeroboão e dois tarefeiros para agir. A vigilância do estaleiro tinha abrandado e a escuridão favorecia os seus desígnios. Racharam o molde principal em vários sítios.

    Hirão ergueu a mão direita. Do cimo das torres de tijolos o metal escorria para os canais que conduziriam ao forno. A corrente incandescente cortou as trevas, iluminando as águas do rio e o campo em redor. Perplexos, os artesãos tiveram a impressão de que um sol brilhante surgia das profundezas da terra, luz de além-túmulo alimentada pelas chamas do inferno. A corrente incandescente parecia brotar de um mundo proibido regido por leis desconhecidas.

    A corrente ígnea aumentou, ameaçava transbordar. Mas os fundidores conseguiram regulá-la de forma a manter-se nos canais. Foram os próprios mestres e Hirão que quebraram as rolhas de terracota que tapavam as passagens para o forno.

    Quando o conjunto de calhas se encheu da lava metálica, a sua rede formou um país de fogo irrigado por cem ribeiros que convergiam para uma fogueira central de apetite insaciável. Fascinados, os artesãos olhavam a corrente, que lenta e solenemente enchia as cavidades do mar de bronze. Os sorrisos desenhavam-se nos rostos avermelhados do calor. A obra-prima tomava forma.

    De repente, o líquido escaldante transborda de uma calha ameaçando incendiar o andaime de madeira.

    - As panelas de fogo! - gritou o mestre-de-obras.

    No cimo das torres, vários fundidores utilizaram grandes hastes na ponta das quais estavam presas panelas que mergulharam na corrente de metal a que reduziram a massa e o fluxo. A operação foi executada tão depressa que não foi causado qualquer dano à bacia gigante. O bronze excedentário escorreu para a terra, onde morreu a fervilhar.

    Hirão certificou-se de que nenhum operário estava ferido. Respirou fundo. A corrente do metal tomava o lugar que lhe fora destinado, começando a traçar o enorme círculo do mar de bronze e a fazer nascer o corpo maciço de doze touros que a suportariam.

    Um grito de terror trespassou-lhe o coração.

    - O molde! O molde está a estalar!

    O fundidor que acabava de observar a fenda foi atingido por uma lava furiosa que fugia ao contentor. Com o peito e o rosto calcinados, morreu de imediato.

    Em toda a parte no seu percurso, o rio de fogo tentava sair do seu leito. Alguns minutos mais e o mar de bronze teria nascido.

    Um companheiro precipitou-se em direção a Hirão.

    - Mestre, é preciso parar a corrente! Se transborda, tudo ficará destruído e haverá dezenas de mortos!

    - Se intendermos demasiado cedo será pior.

    O molde estalou mais, mas o bronze solidificava. O companheiro, julgando que o mestre-de-obras perdera a cabeça e não se preocupava senão com a sua obra-prima esquecendo os irmãos, subiu ao cimo de uma das torres de madeira que continha milhares de litros de água. Louco de terror, libertou o dilúvio.

    Enquanto a corrente continuava a fazer gemer o molde, a superfície ardente ao contactar com a água começou a formar géiseres. Uma chuva de fogo caiu sobre os operários, que fugiram a gritar. Muitos deles caíram perto dos andaimes, que não tardaram a incendiar-se.

    Salomão admirou a criação de mestre Hirão. O mar de bronze ainda fumegante saía da noite de sofrimento e de infelicidade durante a qual fora concebida. Mal fora anunciada a catástrofe, o rei deixava Jerusalém para se dirigir às fundições, na margem do Jordão.

    Mais de cinquenta operários mortos, uma centena com atrozes queimaduras. Mas o mar de bronze atravessara vitorioso a provação. Nascido no espírito de um gênio, a bacia de purificação, com os doze touros, fazia dali em diante parte das maiores maravilhas moldadas por mão humana.

    No meio da devastação, a beleza.

    - Onde está mestre Hirão? - perguntou o rei ao vigilante da fundição.

    - Ninguém sabe. Organizou os socorros e depois desapareceu.

    - Que a obra seja transportada até ao átrio do templo. Que nada de mal lhe aconteça.

    Salomão ordenou a um esquadrão de soldados pertencentes à sua guarda pessoal que ficassem no estaleiro. Nenhum soldado foi autorizado a acompanhá-lo. Competia-lhe a si, e só a si, encontrar o arquiteto.

    Caminhou ao longo do rio e foi dar a uma barreira de juncos. Estava convencido de que mestre Hirão, cruelmente ferido pela morte daqueles que governava, procurara refúgio na mais longínqua solidão. Afastando a cortina vegetal, Salomão aventurou-se num universo hostil onde pequenos carnívoros atacavam os ninhos dos pássaros. Alguns caules partidos provaram ao monarca que o mestre-de-obras tomara de facto aquele caminho. Na adolescência, o rei caçara por aquelas recônditas paragens, onde gostava de sonhar com a sabedoria.

    Quando chegou ao cimo do outeiro de terra vermelha que dominava o lago de hibiscos, um minúsculo lago rodeado de plantas aromáticas, Salomão viu Hirão. Nu, lavava-se esfregando a pele com natrão.

    O rei fez estalar uma haste. Hirão levantou a cabeça, viu o intruso, mas não modificou o ritmo dos seus gestos. Acabadas as abluções, vestiu a túnica branca e vermelha e sentou-se na margem do lago. Salomão foi ter com ele e sentou-se a seu lado.

    - É uma enorme vitória, mestre Hirão. O mar de bronze é um prodígio.

    - A mais terrível das minhas derrotas. Morreram homens por minha causa.

    - Enganais-vos. Estou convencido de que houve sabotagem. Obteremos a prova e castigaremos os culpados.

    - Deveria ter previsto e feito abortar a armadilha.

    - Sois apenas um homem. Para quê carregar sobre os ombros todas as desgraças?

    - Este estaleiro era meu. A catástrofe é da minha responsabilidade.

    - Sois demasiado vaidoso. A vossa obra-prima não se tornou realidade?

    - O seu preço é demasiado elevado. Nenhuma criação justifica a perda de vidas humanas. Eu amava aqueles homens. Eram meus irmãos. Sou para sempre indigno aos meus próprios olhos. O mar de bronze torna-me impuro. Nada apagará esta mancha.

    - A meus olhos atingistes o objetivo que vos tínheis proposto. Nada tendes a censurar-vos. Mas não devíeis ter mentido.

    O arquiteto voltou por um instante a cabeça.

    - Sois circunciso - prosseguiu Salomão. - Se fôsseis hebreu, seria o sinal visível na vossa carne, da vossa aliança com Deus. Os naturais de Tiro não são circuncisos. E vós não sois nem hebreu nem de Tiro. Com exceção das pessoas do meu povo apenas os egípcios de alta estirpe praticam esse rito sagrado. Escondestes-me a vossa origem. Como admitiria que um egípcio construísse o templo de Jeová? Deveria matar-vos pela minha mão. Não pusestes nas paredes do santuário nenhum segredo pagão que o corrompa?

    - Não procurais a sabedoria, majestade? Ignorais qual é a luz escondida no coração dos templos egípcios? Lá fui instruído pelos filhos dos construtores de pirâmides. Foram eles que formaram o meu espírito. Amon ou Jeová; os nomes do princípio único variam, Ele permanece. A sabedoria é esplendor, não doutrina. Nada a empalidece. Quem a venera desde a aurora encontrá-la-á, talvez, à noite, sentada à sua porta. Possa Deus ter-me permitido permanecer fiel aos ensinamentos dos antigos e não vos ter traído.

    - Prefiro a sabedoria ao ceptro e ao trono - disse Salomão. Prefiro-a à riqueza. Nenhum tesouro se lhe pode comparar. Todo o ouro de Sabá perante ela não passa de um grão de areia. Prefiro-a à beleza e a saúde. Foi ela que me deu a ciência do governo, que me fez conhecer as leis deste mundo, a natureza fechada dos elementos, a linguagem dos astros, os poderes do espírito, as virtudes das plantas. Mas escapa-se, foge para longe... Capturaste-a nas pedras do templo, mestre Hirão? Como pude deixar um egípcio dirigir os operários do meu reino? Isso não é erro de mau rei?

    - Eu não conhecia nem o vosso povo nem a vossa terra. Aprendi a amá-los.

    - Mas permaneceis egípcio.

    - O que é que nos separa, majestade?

    - O acontecimento que será celebrado, aquando da inauguração do templo: a saída dos Hebreus do Egito, a libertação do meu povo oprimido pelo vosso.

    - Sabeis, tal como eu, que não teve lugar da forma que evocais. Os Hebreus fabricavam tijolos no Egito. Recebiam um salário pelo seu trabalho. Ninguém os reduzia a uma condição miserável. A escravatura nunca existiu no Egito. É contrária à lei do cosmo, da qual o faraó é filho e garante perante os seus súbditos. Moisés ocupava altas funções na corte.

    Se deixou o Egipto para fundar Israel, foi com o acordo do faraó a quem servia.

    - Esse segredo, mestre Hirão, nem vós nem eu devemos divulgá-lo. Ainda ninguém está pronto para ouvi-lo. A memória do meu povo alimentou-se da descrição que é feita no livro santo. Ele é o fundamento da nossa história. É tarde de mais para modificá-lo.

    - Não acredito, majestade. Pelo templo erigido sobre o rochedo de Jerusalém, decidistes estabelecer um novo pacto entre Deus e Israel, que será uma nova aliança entre o Egito e Israel. Desunidos, nem um nem outro conhecerão a paz.

    Hirão lia na alma de Salomão, Salomão na alma de Hirão. Não o confessavam a si mesmos, com medo de quebrar o laço mágico que os unia.

    Salomão sabia que o mestre-de-obras não perdoaria a si mesmo a morte dos operários e Hirão que o rei o censuraria por ter ocultado a sua origem egípcia. Mas o segredo que partilhavam tornava-os irmãos de espírito.

    - O templo é a carne de Deus - prosseguiu Hirão. - O rei é quem lhe dá vida. Vós sois o único mediador entre o vosso povo e Jeová. O único, majestade.

     

    Quando Salomão partiu, Hirão voltou ao estaleiro. Prometera ao rei não abandonar o templo, velar pela instalação do mar de bronze e terminar o átrio interior. Mas exigira também três dias e três noites de solidão no deserto. Sentia necessidade de se afastar de toda a presença humana e de procurar em si mesmo uma nova claridade.

    O mestre-de-obras cruzou-se com bandos de damãos, espécie de marmotas que rugiam ao menor ruído. Ouviu o riso das hienas e o queixume dos chacais. Avistou raposas e macacos, impregnou-se do sol ardente, caminhou sobre a areia ocre, dormiu ao abrigo de rochas esquecidas pela mão daquele que amassara o deserto. Que presença era aquela elevando-se da imensidade como uma coluna de incenso senão a do Criador?

    Hirão gostava das palavras minerais, da ausência esmagada pelo calor da abnegação de uma terra que renunciara à fertilidade para melhor acolher a invisível perfeição do Ser.

    Nada escapava ao deserto. O mestre-de-obras ofereceu-lhe a morte dos companheiros de trabalho. Enterrou a recordação deles na santidade da tarde avermelhada, confiou as suas almas ao espírito do vento que as levaria para os confins do universo, para junto da fonte onde as trevas ainda não tinham nascido.

    Quando retomou o caminho que levava ao Jordão, Hirão viu uma tenda vermelha e branca montada sobre um montículo pedregoso.

    Compreendeu de imediato. Chegara a hora. A alegria que deveria ter extravazado, desfê-lo.

    Hirão entrou na tenda. Um nômade, vestido de beduíno, estava ali sentado em posição de escriba. Pela barba curta e pontiaguda, identificava-se um semita. De uns cinquenta anos de idade e olhos inquiridores, ofereceu ao que chegava uma taça cheia de água fresca a que adicionara vinagre.

    - Bem-vindo, o meu hóspede. Que me seja permitido dar-lhe guarida até que o sal que tenha ingerido saia do seu ventre.

    Hirão aceitou o sal da terra oferecido num prato de alabastro.

    - Como me encontrastes neste deserto?

    - Percorro a região há mais de um mês. Anunciavam a vossa vinda às fundições. Da colina assisti ao nascimento da vossa obra-prima e nunca mais tirei os olhos de vós. De longe, vi Salomão vir ter convosco. Depois segui-vos respeitando o vosso retiro. Antes que volteis para o mundo, tenho de vos falar.

    - Mais de sete anos depois da minha partida do Egito... É o faraó que vos envia?

    - Claro, mestre Horemeb. Só ele e eu estamos informados desta missão. Não esperáveis um sinal do rei do Egito, mal a vossa tarefa estivesse terminada?

    Hirão meteu a cabeça entre as mãos como um viajante esgotado no final de um longo périplo. Sonhara com aquele instante durante sete longos anos. Conhecera uma libertação, uma felicidade com gosto de mel, um sol de raios benfazejos. Mas acontecera o drama do mar de bronze e o encontro com Salomão perto do lago perdido entre as ervas altas. O arquiteto desejava regressar ao Egito, mas já não tinha o direito de abandonar Israel. Prestar assistência a Salomão, ajudá-lo a consolidar o seu trono e a paz, acabar o templo que sacralizava o seu povo eram deveres aos quais não se subtrairia.

    - Estais satisfeito com a vossa obra, mestre Horemeb?

    - Que arquiteto não estaria, sem colocar no centro do seu jardim a árvore seca da vaidade? Este templo podia ter sido maior e mais nobre... Mas eu só dispunha da superfície do rochedo.

    - Conseguistes inscrever nas paredes a sabedoria dos nossos antepassados?

    - O Egito é o coração do santuário de Salomão. Quem sabe decifrar karnak decifrará Jerusalém. Quem ler o templo de Jeová conhecerá os mistérios e a ciência da Casa da Vida.

    - Vós fostes o fiel servo do faraó. A esse título mereceis honras e preitos. Mas a felicidade do Egipto parece exigir decisão diferente...

    - O que quereis dizer?

    - O faraó tinha esperança de vos ver ir para o pé dele. Ter-vos-ia nomeado chefe de todas as obras do rei Por azar as ambições da Líbia estão de novo despertas. Siamão teme uma tentativa de invasão. Como se comportará Israel? Será Salomão um aliado? Só vós, devido ao vosso conhecimento deste país e do seu monarca, nos podeis prevenir de uma eventual traição. É por isso que o faraó vos pede que prolongueis um pouco mais o vosso sacrifício.

     

    Hirão bebeu a água avinagrada. Quem teria ousado discutir uma ordem do faraó? Siamão deu opção. Quando voltaria a ver o Egito? Ser-lhe-iam infligidos outros sete anos?

    Apenas o vento do deserto conhecia a resposta.

    Esse dia ficaria sem par na história dos homens. Para a festa de inauguração do templo, as ruas de Jerusalém tinham-se enchido de uma multidão exuberante. As aldeias pareciam abandonadas. Nenhum hebreu queria faltar ao acontecimento mais excepcional. Quando Salomão anunciasse o nascimento do santuário de Jeová, Israel seria criado pela segunda vez, ascendendo ao estatuto de Estado poderoso, capaz de clamar aos céus a sua fé e a sua esperança.

    Circular nas ruelas era quase impossível, de tal modo era compacta a multidão de mirones. Via-se por todo o lado sacerdotes de vestes brancas. Os chefes das tribos de Israel, precedidos de uma corte de servos, acampavam na base do rochedo. Nem um palmo da encosta que partia da cidade de David em direcção ao templo estava livre de ocupantes. Cada um observava a muralha e as suas três fieiras de pedra de cantaria. Quando se abririam as portas guardadas pelos soldados de Salomão, permitindo o acesso à esplanada, objecto da peregrinação de milhares de crentes?

    Esse dia seria comemorado como o mais glorioso da aventura de Israel, aquele em que o deus nômade encontrara, por fim, a morada de paz. O seu santuário seria o local de sacrifício ligando a terra ao céu. As outras divindades e os outros cultos seriam suprimidos, anulados pelo poder formidável do Único.

    Salomão cobriu Hirão com um manto de púrpura.

    - É esta a insígnia de dignidade que tereis de exibir no dia em que a vossa obra estiver acabada.

    - E estará algum dia, majestade?

    - O tempo parou no limiar do templo, mestre Hirão. Ele ultrapassou o seu criador.

    Os dois homens estavam sozinhos no átrio. A oriente erguia-se um pórtico sublime com o seu alinhamento triplo de mais de duzentas colunas. Por entre elas, desenhavam-se as formas do vale do Cedron e das colinas verdejantes cheias de sol.

    - Quero esquecer tudo do passado - confessou Salomão. - Uma hora passada neste local vale por mil dias no paraíso.

    De coração apertado, o arquitecto contemplou o local que dentro de pouco tempo já não lhe pertenceria. O majestoso átrio tinha ao centro um altar, à esquerda do qual se erguia o mar de bronze sustentado por doze touros de bronze, três em cada ponto cardeal. A enorme bacia fazia lembrar o lago sagrado de Tanis, onde de madrugada os sacerdotes se purificavam antes de retirarem um pouco de água que serviria para sacralizar os alimentos apresentados aos deuses. O mar de bronze tinha um rebordo esculpido em forma de pétalas. Simbolizava o lótus nascendo das águas primeiras sobre as quais se erguera o Sol da primeira manhã. Em volta dele dez tanques, com capacidade de mil litros cada, estavam instalados sobre carroças que os sacerdotes deslocariam de acordo com os imperativos rituais. Ali deitariam o líquido indispensável para limpar os animais do sacrifício.

    Foi o próprio Salomão que abriu as portas da muralha. Sadoc e os outros sacerdotes, transportando a Arca da Aliança, passaram devagar por ela. As Tábuas da Lei deixavam para sempre a antiga cidade de David. Ficariam a partir de então depositadas no Santo dos Santos do templo de Salomão.

    O sumo-sacerdote inclinou-se perante o rei, que se aproximou da Arca e a tocou com veneração. Recordou-se daquele dia abençoado em que, pensando numa paz impossível, executara o mesmo gesto. A lei divina concretizara o seu mais ardente desejo. Fechou os olhos, sonhando com um mundo em que os homens tivessem posto fim ao ódio e à guerra, em que os seus olhos se voltassem incessantemente para o templo para aí colherem a sabedoria.

    - Ajudai-me, mestre Hirão.

    O arquiteto ergueu os suportes posteriores da Arca e o rei os anteriores. O peso, apesar de considerável, pareceu-lhes leve. Passaram juntos por entre colunas, atravessaram o vestíbulo e depois o hêkal, onde se encontravam o altar dos perfumes, a mesa dos pães de oferta e os dez castiçais de ouro, e penetraram por fim no debir, onde lado a lado velavam os querubins; estes erguiam-se até meia altura do Santo dos Santos. As suas asas exteriores chegavam às paredes laterais, a extremidade inferior das asas formava uma abóbada, sob a qual foi colocada a Arca da Aliança.

    O mestre-de-obras retirou-se.

    Salomão apresentou à Arca a primeira oferenda de incenso. Na nuvem perfumada revelou-se a presença divina. O rei sentiu-se revestido de uma luz quente. Os olhos de ouro dos querubins brilhavam.

    Salomão apareceu ao seu povo. Erguendo as mãos, de palmas voltadas para o céu, entregou o templo a Jeová. Milhares de fiéis ajoelharam-se, de lágrimas nos olhos.

    - Que Deus abençoe o Seu santuário e os crentes! Assim renovarão a sua aliança com Ele. Assim será Ele misericordioso e nos concederá a Sua ajuda contra os poderes das trevas. Que o Senhor esteja connosco, como esteve com os nossos antepassados, que não nos abandone, que incline para Ele os nossos corações a fim de que caminhemos pelo Seu caminho. Jeová, Deus de Israel, não existe nenhum deus semelhante a Ti, nos céus, na Terra, a Ti que és fiel ao Teu pato. Que os Teus olhos estejam abertos dia e noite sobre este templo, sobre este lugar onde vive o Teu nome.

    Enquanto as aclamações cresciam dirigidas ao rei, ele sentiu-se assaltado pela angústia. Deus habitaria, na verdade, na Terra, com os homens? Se os céus dos céus eram demasiado pequenos para o conter, que dizer do templo de Jerusalém?

    Dois sorrisos acalmaram Salomão.

    O primeiro, de Hirão, soberbo com o seu manto de púrpura, frente ao mar de bronze.

    O segundo, o da rainha Nagsara, vestida de festa, à esquerda e um pouco atrás do sumo-sacerdote.

     

    Tanto um como outro exprimiam alegria e orgulho. Tranquilizado, Salomão subiu os degraus do grande altar de dez metros de altura colocado na extremidade do átrio.

    O mestre-de-obras, o sumo-sacerdote e a rainha formaram um triângulo cujo centro era o rei de Israel. Em volta deles os sacerdotes. Os guardas abriram a grande porta de par em par, dando passagem aos peregrinos que invadiram a esplanada.

    Fez-se um silêncio absoluto. Com os olhos fixos em Salomão, que acendia o fogo do holocausto, os espectadores deste ritual da ”primeira vez” retiveram a respiração. A chama que jamais se apagaria parecia chegar ao céu.

    Levando uma ovelha nos braços, um sacerdote chegou junto do rei Degolou o animal, cujo sangue correu pelas calhas, indo dar aos quatro ângulos do